quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres, poderes e sociedade.

Cresci rodeado de mulheres fortes e talvez seja esse o motivo pelo qual me revolta o adormecimento do feminino em relação ao masculino. Na minha casa foi sempre da mulher a última e derradeira decisão, porque as mulheres da minha casa sempre foram independentes economicamente.
Cresci, apesar disso, rodeado de histórias de violência e dependência: mulheres-mães, mulheres-avós, mulheres-trabalhadoras que gravitavam em redor dos maridos; deles sofrendo agressões físicas ou verbais; por eles controladas e oprimidas.
A minha casa sempre foi uma espécie de templo de Jerusalém pré-feminismo político: dois conceitos sobre o mesmo género, mas, em simultâneo, um retrato fiel das circunstâncias do feminino em relação ao masculino. A mulher vale-se pela independência que tem; pela capacidade de dizer não em relação ao homem; pelo estofo de viver às margens da opressão patriarcal que domina a sociedade.
Trabalho num ambiente de mulheres, onde quem governa os negócios é carinhosamente chamada de "armadeira". Nas procissões, quando querem falar com o/a responsável, chamam pelo feminino e nunca pelo masculino. O trabalho que eu desenvolvo, em conjunto com a minha mãe, tia, irmãs e funcionárias, é um local de dominação do feminino em relação ao masculino. Cada vez que me trocam o género pela função que ocupo sinto-me um pouco no lugar das mulheres que estão em cargos formatados para os homens.
Ontem, ao jantar, a minha mãe contava uma história que facilmente retrataria a desigualdade de género. Quando, em jovem, se dedicava ao negócio das fotografias, em conjunto com o meu avô, dizia-me ter-se sentido humilhada por um comentário de uma cliente: esta perguntava, em frente à minha mãe, se o serviço tinha sido mais barato por ser uma mulher a fotografar...
A minha mãe não politiza o amor que sente nem se encerra em macro-discursos sobre a humidade e os seus destinos. A minha mãe sempre falou sobre amor e foi com amor, dedicação e eficácia que, depois da morte da minha avó, conduziu os destinos dos negócios familiares. A minha mãe - que liga pouco à política, tendo votado toda a vida - sentiu-se ferida no amor que sentia por si e pela sua arte. Portanto, a importância do feminismo está para além dos supradiscursos de poder institucional; vive das consciências e dos silêncios discriminadores que contam a existência das relações sociais.
A minha mãe, as minhas tias, as minhas irmãs e outras mulheres, têm direito a dispor de todos os recursos necessários para ser o que quiserem ser, na mesma igualdade de circunstâncias que os homens. Educação, sentido de responsabilidade, formação profissional, experiência de vida e, acima de tudo, auto-confiança... É sobre a questão formativa - que combata o paternalismo institucionalizado e o machismo enraizado - que todos devemos reflectir enquanto comunidade e corpo cívico.
O pior mal do feminismo é o de não se empatizar com as mulheres, porque se preocupa (quase em exclusivo) em discursar apenas para os homens. Agora, como no início do século XX, as mulheres vivem numa dupla tensão: com os homens, para os quais dialogam politicamente, e com as mulheres, força de massas da qual necessitam para se ouvirem na multidão.
O dia 8 de março faz muito sentido, especialmente num tempo em que, nos Estados Unidos da América, preside um homem que venceu votos com discurso de ódio às mulheres. O dia 8 de março faz todo o sentido quando a vergonha se perde na fruteira da demagogia.
Pelas mulheres e pelos homens, mas sobretudo pelo todo que somos. Pelo amor e pelo respeito.

Luís Gonçalves Ferreira

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

São Miguel, Açores

 
Do alto do Miradouro da Boca do Inferno, na ilha de São Miguel, não resta absolutamente nada entre ti e o mundo: sobram os elementos da natureza e o silêncio sozinho da consciência. Dali do alto entendes os Açores e a sua orfandade oceânica; a Ilha dos Amores significa um paradoxo isolado no meio do mar; sítio onde se cultivam sonhos com o limite da linha do horizonte.
Sinto que demorei a pequena vida que tenho para ali chegar e sei que demorarei outro tanto para lá voltar. Chegou na altura certa e soube, como se fosse equação calculada, que conhecia os Açores antes de lá ter chegado, porque eu sou como os dias que os Açores me ofereceram. Os deuses brincam com as estações do ano nos Açores como jogam com as nossas vidas.
O alto do Miradouro da Boca do Inferno resume audácia dos açoreanos, a sua clarividência resistente, o seu isolamento necessário e uma especial estranheza ao que lhes chega de fora. Nós, continentais, apesar de sermos portugueses como eles, vimos "de fora", como me disse a senhora que faz queijos todos os dias de manhã para vender aos estranhos que lhe entram pela porta. Tenho a certeza que, aos olhos da senhora que faz queijos todos os dias, não há nada mais bonito no mundo do que as Furnas e a São Miguel onde vive. É justo e, mais do que isso, verdadeiro.
Confesso-vos que não sei se existe sítio no mundo mais bonito do que São Miguel, porque me falta muito mundo para ver, mas sei-vos dizer que a ilha que vi, mesmo que de forma resumida e apressada, é certamente o sítio mais bonito onde os meus olhos pousaram. Esperei vinte e sete anos para conhecer a chuva, a água quente, as piscinas naturais, a florestação exótica e húmida e a imensidão de verde dos Açores. Esperarei outro tanto para lá voltar e conhecer a Terceira, as Flores ou o Pico ou uma das outras oito ilhas que me faltam. Esperarei o tempo que for necessário para rever paisagens naturais incapturáveis por lentes tecnológicas.
O que existe nos Açores é apenas sensível pela presença física. Ali entendi que tudo o que fotografamos é uma mentira; ou melhor, que a fotografia é um resumo tímido e mitificado da verdade perante a realidade que os sentimos eternizam à memória.
Há Açores dentro de mim. Agora mais do que nunca. 
 
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Há um par de dias, quando estava a trabalhar no meio da herança que nos deixaste, contou-me um vendedor mais pormenores sobre ti: a inteligência dos negócios misturada com a mãe que sempre foste. 
Mãe para nós e para todos aqueles que colheram da tua bondade.

Não me lembro do teu cheiro, mas ainda me emociono quando tento encontrar o teu rosto. Hoje já não existe aquela saudade esfomeada que outrora em mim habitou; hoje há calma, avó Júlia. Serena calma como o mar de Inverno.

As noites de 20 de janeiro, dia de São Sebastião (padroeiro da casa do bisavô), ainda continuam frias. Noites geladas com aqueles dias quantos os anos cujas duas mãos já não chegam para contar.

Ias adorar ver os olhos azuis da Francisca...

Passaram doze anos desde que a presença mais renovadora das nossas vidas partiu, deixando-nos o império da sua memória. Entretanto, remendamo-nos no melhor que sabemos ser em recordação do profundo que há de si entre nós.

Luís Gonçalves Ferreira 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Estado da História: desafios e observações


Ao historiador contemporâneo é lhe pedido, antes de mais, que produza observação histórica de forma problematizada e questionadora sempre baseada em documentação coesa, numa metodologia arreigada ao possível (quanto ao tempo e aos objetivos), assente em questões e hipóteses. O jovem historiador ou investigador que hoje se tente introduzir aos meandros do conhecimento humano, pela lente da observação do passado, avança-se num anacronismo inato que, sendo a principal circunstância do seu labor (o olhar é sempre do presente para o passado), é fobia constante da contaminação intelectual do seu trabalho. O historiador sente através dos documentos que observa, pelas pessoas que narra ou pelos pensamentos que desenvolve. Ter medo da contaminação é não aceitar as características da sua profissão; é não se desenvolver num conjunto submerso de ideias, pré-conceitos e conteúdos, desde logo emanados da instituição que o forma, dos pares que o pressionam, dos livros que leu e das brilhantes exposições que ouviu. Como ciência humana e social, a História confunde-se com as caraterísticas humanas analisadas por outras ciências, como a Medicina, Direito, Psicologia, Sociologia ou até pelas ciências humanas: medos, neuroses, tensões, influências, socializações em gerações de colegas e instituições, simbioses ou compensações atómicas...

Professores, unidades curriculares e objetivos formativos das graduações, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em História, fazem-se de uma constante confrontação entre a história do passado (arcaizante, descritiva, positiva, dependente do monolítico do documento escrito), arreigada às histórias dos séculos cronológicos e das três idades, com uma história do futuro, necessariamente globalizadora, policêntrica e artificialmente democrática e mundial como o sítio onde o historiador existe. Esta dupla tensão – entre a disciplina e o tempo do historiador – produz observações diacrónicas numa postura que duvida, que tantas vezes resvala para o questionamento idiossincrático da História como ciência autónoma, com método e objeto próprios.

Para além de exigências de caráter prático, pede-se ao jovem historiador que seja culto como os seus antecessores, mas que esteja a par de toda a informação galopante que circula no mundo académico: lendo muito em pouco tempo. Que atenda aos clássicos - da história da História (de todos os tempos aos atuais), das revistas, dos Annales, do pós-68, da pós-modernidade - mas também que saiba acompanhar os portais que democratizam o acesso aos artigos científicos – aquelas gaiolas douradas que almejam a autenticidade e os quinze minutos de fama da pop art.

Vivemos, por isso, escravos da criatividade, mas sobretudo das notas de rodapé. Somos escravos do medo do pastiche, numa obsessão pela construção do novo, sendo empurrados para grupos de estudo que em nada simpatizam com interesses individuais, mas em tudo servem a ciência dos campos por tratar. Almejamos em ser Le Goff, Bloch, Catroga, Mattoso ou Cruz Coelho. Queremos ser tudo num acesso de nada: entre professores que não ensinam (falta-lhes tempo e veia) e alunos que não aprendem (simplesmente desconhecem vantagens em ler, estudar e ter mérito numa sociedade abundante em tudo e construtora de muito pouco).

À História cabe a participação, intervenção e politização. É, antes de mais, a sua circunstância, pois é produto de olhares pessoais, integrados num tempo e num espaço, emersos em observações particulares, vítima de medos e incómodos. O historiador escreve sobre os aspetos que lhe provocam emoções racionais num conjunto alargado de palavras que lê e cita, por orientação de um condicionamento natural de apenas encontrar o que procura.

O historiador é automaticamente vítima de si e do seu contexto. Então, que assim se assuma e assim sirva a sociedade; que saia dos colóquios e dos metros quadrados do seu gabinete, sala de aula e casa! Enquanto nos enjaulamos condenamos a nossa disciplina esta dupla tensão em que (sobre)vive: consigo mesma, porque o historiador possui um medo obsessivo da cópia e repetição; e com os outros, pois a sociedade desacredita que a História (assim como a Filosofia ou Antropologia) possa contribuir com algo de fundamental para o aprimoramento da existência humana.

Porquanto, a História e o historiador são como templos helénicos: sobram belas colunas eretas como vestígios pétreos do passado glorioso para o qual eternamente nos voltamos no sentido acalentar as nossas frustrações.
Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Abandono-me à solidão

Debruço-me sobre a tristeza, sendo-me
Encontro-nos na estranheza.
Lembro saudosamente os outrora corpos fundidos, por
Sorrisos desmedidos.
Esbarro no olhar à sorte e perco-me no desalento.
Um silêncio.
Quero e não encontro -
Somos e nem existimos.
Vida sozinha,
Vida só,
Vida.
Sempre interrogando, sempre duvidando, sempre
Sozinho nas alíneas do pensamento.
Sina das mãos lidas,
Sol de inverno - numa primavera de mil flores.
Desculpo-te por seres demorado.
Depois de quente, a pele ficou tépida,
Frouxa, e agora?
Eis-me triste e só,
Como sempre sou.

Luís Gonçalves Ferreira

A Soares, pela liberdade.

Podemos criticar tudo: o buraco da Fundação, o caciquismo, a dificuldade em deixar o sistema por si montado em paz. Ao contrário de nós, que nos sentamos num sofá e mandamos postas de pescada livremente, Mário Soares lutou contra um monstro: o fascismo. Nunca teve medo, até ao final da vida. O país não lhe deve nada para além do respeito. Respeito por nunca ter tido medo.

Numa altura em que somos todos órfãos de sentido crítico, consciência autónoma e pensamento livre, talvez seja essa a mensagem de Mário Soares para o ano novo, pela glória da morte. A democracia só serve enquanto nos servir; agora que morrem, na velhice, os últimos obreiros do Portugal democrata, talvez seja tempo de pensarmos sobre a nossa existência democrática.

Apesar de não concordar com a maioria do seu pensamento político e económico, devo a Mário Soares a liberdade de o expressar livremente.

A democracia não tem preço, mas Soares teve-o; como todos nós.

domingo, 20 de novembro de 2016

Meados de maio: o mês das flores

Olhei e vi-me ao espelho. Desejei tantas vezes que chegasses até mim que me perdi nos entretantos. Encontrei-me na universidade, nas casas novas que compunha e nas ilusões que cultivava. Invejei muitos amores ao meu lado: histórias contadas sobre as férias passadas juntas. Quando seria a minha vez? 
Chegaste e nem dei por ti. Senti que te esperei a vida toda, mesmo quando, entre sofrimentos e lágrimas, me jurava voltar a amar. Entraste e nem convidei. Quando reparava já sentia o teu cheiro colado à minha pele e boca encostada na minha.
Abri os olhos e achei-me adormecido: os pés, as mãos e todo o corpo eram calor. Fomos para a serra e para junto do mar: conhecia apenas as ondas pelos sofrimentos aliviados; contigo conheci-as pelas alegrias que traziam. Castelos, brisas e ventos. Sopros. Ensinaste-me sobre o mar. 
Desejei que chegasses. Tantas vezes. Escrevi, outrora, que sentia a pele tão quente e achava ter chegado a minha hora. Chegou. Tenho os nossos rostos na minha cabeceira, o teu peito na minha almofada e a tua pele que há em mim.
Não teria chegado tão longe se não fosses tu. Não teria chegado tão perto se não estivesse partido de tão longe. 
Coração e pedra. Mágoa e desespero. Sorriso e amor: eis o retrato que mora ali, no espelho.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Desigualdade das mulheres

Na Praça de Alegria (RTP1), há pouco, discutia-se a igualdade de género. O painel de discussão era composto por dois homens (o apresentador e um convidado) e duas mulheres (a apresentadora e uma convidada). A conversa foi absolutamente monopolizada pelos homens e estes começavam quase sempre a responder primeiro do que elas. Enquanto isso, concluíam que as gerações mais novas, já "consciencializadas" em relação às disparidades de género no acesso ao emprego (por exemplo), sofreriam menos a discriminação - areia. 
O problema, a meu ver, reside precisamente na desigualdade que acontece no silêncio, entre a argamassa que monta os tijolos; na mulher que deixa o homem falar primeiro; nas mulheres que não manifestam opinião política e deixam que os homens pensam por elas, intervindo em seu nome. Não acredito que os homens não possam ser feministas (como a Mariana Mortágua), mas tenho uma crença profunda de que o processo de mudança tem que ser iniciado pelos discriminados. A sua voz é mais pura, mais conhecedora e poderá, realmente, fazer encontrar o outro desrespeitador na dimensão do seu desrespeito; comunicando, portanto. É a ferida da diferença que provoca a reação face à maioria que a renega. 
Estaremos numa fase mais profunda da desigualdade das mulheres no acesso aos direitos económicos, sociais e políticos, onde o problema está de tal forma enraizado que é no machismo "internalizado" que reside o problema? Ou estaremos, finalmente, a enfrentar as estruturas da questão? A resposta? Educação, educação, educação.

Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 13 de novembro de 2016

liberdade, Gisela João e o tempo em que estamos*


Gisela João,  Labirinto ou Não Foi Nada 

Sou testemunha de um tempo - feliz, é certo - em que, no canal aberto da televisão nacional, um programa de transformismo vence audiências. Sou do tempo - feliz, é certo - que, após uma besta quadrada fascista ter vencido as eleições na América desfeita, o fado me congratula com alegria. Passado e futuro; aceitação, verticalidade, tolerância e amor. Só amor. Sou do tempo - meus netos, filhos e anciãos da memória - em que o amor vencia nas ruas e nos palácios de gelo, enquanto o ódio ganhava votos no fundo de uma urna. 
A democracia cai nas ruas da amargura; as pessoas não. Enquanto houver memória (que Deus guarde a minha), e se tudo mudar entre uma guerra ou um caos de fome, a cultura dirá aos vindouros, em jeito de recordação, que vivemos um auge bonito de aceitação; um culminar absoluto de beleza no ser quem se quer ser. 
Olhamos tantas vezes para o passado, procurando glórias e impérios, esquecendo que o maior triunfo é o nosso presente. Presente rima muito bem com felicidade e aniversário e tudo de bom que isso significa. 
Quero nunca esquecer deste tempo, mesmo que as trevas se inaugurem em diante. É uma espécie de sonho, de júbilo, como da saúde súbita de um doente terminal se tratasse. 
Espero errar-me mais à frente. Que os meus netos vejam, no seu tempo, o género contar para muito pouco. O sexo nasce-nos, mas tudo o mais não. Sonho com um tudo mais que seja muito pouco.

*O título inicial era, simplesmente, liberdade. 

Luís Gonçalves Ferreira 

Sobre a eleição do Trump

Queria escrever algo sobre como é arrepiante acordar ao som de uma vitória de Donald Trump nos EUA, mas não consigo denunciar mais do que o meu lamento. Resta-nos acreditar na democracia americana, no controlo e interdependência de poderes. 
Acordar com a vitória de Trump é o similar ao despertar com o Brexit. Não reconheço este mundo em que vivemos, que faz do ódio, da xenofobia e da intolerância realidades institucionalizadas. O voto popular, ferido de morte pela crise, baba-se perante a bandeira de um prato de comida. Algo de errado se passa connosco: ou perdemos a racionalidade, a inteligência e a sabedoria sobre o poder do voto; ou sistema prova que não presta. Contudo, não somos americanos e, pela leitura do poder representativo, a eleição americana não nos diz respeito diretamente, como não cabe aos japoneses interferir nos factos que lhe empobrecem a bolsa de valores. A democracia permite a ascensão de ditadores, como se fez prova ao longo da História. 
Não sei o que é dormir com medo, como sabem, certamente, os refugiados que cruzam as nossas fronteiras de papel; ou os mexicanos que voam pelos desertos de arame farpado.
Talvez a sociedade ocidental precise de ser perturbada pelo medo. Eis o início: abram os vossos olhos, desviem-nos dos vossos umbigos, encarem os vossos pares e vejam, atentamente, o lugar onde hoje, em conjunto, chegamos.

Luís Gonçalves Ferreira 

Pedras que falam*

Foi numa quinta-feira, no centro da cidade, junto à inscrição romana à deusa Ísis, que assistíamos a uma aula de Epigrafia. No mesmo dia e pelas mesmas ruas, centenas de estudantes trajados (e por trajar) exibiam os seus gritos e marchas, carregando litrosas e misteriosas misturas. Entre veículos municipais de limpeza, barulhos de praxe e silêncios ocasionais, prosseguia a aula, cautelosa e curiosa, como sempre. 
Eis que, pelo silêncio das traseiras da Sé, chega uma senhora ao grupo, acomodando-se ao meu lado. Olhos claros, de meia idade, com poucos dentes e aspecto mal-tratado. Cruzei-lhe a pinta e reconheci-a doutros burgos: pedia moedas, na rua, numa sabedoria capitalista de quem, com educação, abordava todos os que, pela sua indiferença, a marginalizam
Eram curiosos os seus silenciosos olhares e carismáticos os sorrisos que oferecia. Colocou questões, levantou e repôs os óculos escuros, interrompeu a aula, vestindo a pele de aluna recém-chegada a um tema de que "não percebia nada". 
Despediu-se e agradeceu: pela boa-vontade da professora (uma mestre, mostrou-se) e pelo tempo que lhe faltava, entre esta e aquela moeda, este e aquele estranho, esta e aquela rua, que certamente viria a cruzar.
Enquanto centenas de doutores e caloiros, homens e mulheres medianos, velhos e novos entediados, batiam os seus "cascos" pelas ruas da mui nobre Bracara Augusta, uns olhos pedintes souberam que, em tempos remotos, uma sacerdotisa chamada Lucretia Fida ofereceu à deusa Isis algo suficientemente memorável para figurar naquela cuidada inscrição. 
A curiosa anónima queixou-se, porém, que não conseguia ver as folhas de hera que pontuavam e decoravam aquela pedra. Mal ela sabia que, dentre alunos e estranhos, tinha sido para si, mesmo em latim e com interlocutora, que aquela pedra mais havia falado.

* Título roubado ao manual de Epigrafia do Professor José D'Encarnação.

Luís Gonçalves Ferreira 

do tempo que nos falta

Acordamos com pouco tempo, comemos sem tempo, vivemos a contar o tempo que nos sobra para o ocupar com alguma coisa. Afinal, para onde nos levaria o tempo que sempre nos parece faltar?

Horas pardas

Morreu Deus. Morreu a Ciência. Morreram a Nação e a Pátria. Morreram a Liberdade e a Felicidade. Morreram a Cultura, a Fé e o Amor. 
Morreu a Filosofia.
Estamos vivos, então, de quê?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

dois minutos

Amor, portanto, é criar rotinas.
Seguir pegadas, acompanhar passos e encontrar pontes.

Amar é, por isso, criar rotinas: é construir castelos, visitar cadeias, servir alentos.


Amar-te é, somente, amar rotinas: o segredo do beijo, o encontro do bom dia, o desejo do regresso que entardecia.

Amar é contar o tempo até à falta da tua rotina. Amar é o chegar a casa, o aproximar ao templo ou ao pensamento da carne que te cheira a falta: como do bebé que do colo tem consolo.

Nunca queiras amar quem não ama rotinas; passarás todo o teu tempo a procurar o pedaço que te faz falta, a insegurança que te conforta, a pele que te queima, o espaço que é teu sem conquistas.

Amar é, tão-só (como se só fosse sozinho), ser rotina; connosco, contigo, com todos. Amar, pelo ventre do universo e pelo estalo a leite materno, é segredar ao tempo pelo resto que falta até se ser no leito novamente.

Nunca aceites amar quem não ama rotinas.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um constante estado de emergência

O problema não está na possibilidade de se comprarem armas de forma fácil ou barata. O problema não reside na disponibilidade de conduzir um camião e dele fazer um tanque de guerra. A questão não se encontra com os que, por desorientação ou livre arbítrio, se deixam recrutar pelas demagogias do Estado Islâmico. A dinâmica do terrorismo está para além das ideologias religiosas, das críticas a estilos de vida, ou das barreiras físicas que os países ergam entre si. O terrorismo orienta-se pelo impacto que tem junto daqueles que prezam a vida humana como valor fundamental na condução da sociedade em direção à felicidade, à harmonia ou à justiça.

Os desvios interpretativos a respeito do terrorismo, feitos pelas classes políticas ocidentais, não devem fazer com que o nosso juízo crítico, de cidadãos ativos, se desvie do fundamental. O problema do terrorismo não tem que ver com a disponibilidade dos meios para perpetrar crimes hediondos; ou com existência de teias legais que compliquem a ação dos prevaricadores; ou com os estados de emergência que façam do Estado um ser supremo que age de fora para dentro. O terrorismo é uma fuga declarada ao normativo, ao ideal de sociedade que defendemos e, maxime, consiste num questionamento sobre o modelo de convivência social. Assim o é na França como na Etiópia, Síria, Sudão ou na China; assim o é na consciência de qualquer pessoa, livre para hierarquizar os valores comuns a todos os seus pares.

Levar o problema do terrorismo para pensamentos e discursos xenófobos, racistas, homofóbicos ou intolerantes, é seguir pelo caminho da desorientação que é o horror ou o sangue gratuito nos canais de televisão. Essas atitudes questionam, tal e o qual o terrorismo, o contrato social que assinamos com o Estado que, com a lei, as outras normatividades e os indivíduos, conduz a sociedade e os seres humanos para a felicidade.

Hollande decretou mais três meses de estado de emergência em França, após os atentados, emendando-os na data de 26 de julho, altura em terminaria um outro estado de emergência, declarado a propósito dos atentados de Paris, em novembro do ano passado. Que a intolerância não nos conduza ao absolutismo e que a liberdade se saiba entender com a segurança; que questionemos, com força e consciência, o destino do Estado-Nação, um credo tantas vezes cego como inúmeras vezes necessário; que nos preocupemos com o criminoso, onde reside o problema e, provavelmente, a sua resolução; que nos desprendamos de palavras precipitadas e odientas, que nos fazem semelhantes ao terror e afastados da paz e da felicidade que prometemos aos nossos filhos.

Façamos um enorme cordão de esperança para todos aqueles que, em França como em qualquer lado do mundo, se veem obrigados a viver estados de emergência por motivos alheios à sua vontade.

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 8 de maio de 2016

Perda e encontro no Templo

Tinha doze anos quando me perdi de casa e fui ter ao templo. Tinha saído para brincar, lembrando os tempos em que, com o meu primo João, na porta de casa, brindavamos o mundo com os nossos sorrisos de meninos. A minha mãe, naquele tempo, cozinhava para Isabel, sua prima, pois, cansada e velha, tinha perdido a visão e a capacidade para cuidar dos desígnios da casa. Pelos entremeios, entre as refeições e os trabalhos de fiação, a minha mãe contava-nos histórias sobre os Profetas do povo de deus. Eram tempos felizes, apesar de, pouco tempo depois, Isabel ter morrido nos braços da minha mãe (os mesmos que mais tarde viriam a suportar o peso do meu corpo morto). João, depois de uns tempos passados em nossa casa, partiu para o deserto. A minha mãe explicara-me, uma noite, que o meu primo era um precursor e, como tal, fazia coisas que só aos olhos de Deus são explicáveis.
Encontrei-me com um velho, enquanto brincava: vestia-se de preto e ostentava um nobre ceptro alto, parecido com o dos reis que ainda viriam ao mundo. Os meus olhos castanhos brilhavam refletindo a nobreza daquelas vestes, em muito diferentes dos farrapos que vestia. A vida de carpinteiro do meu pai e a roca da minha mãe não permitiam mais do que umas papas e pão azedo. "Que olhos curiosos. De onde vens?", perguntou o Sacerdote. Sem falar, ergui a cabeça, peguei-lhe na mão e seguimos para o templo. Naquele momento senti que não era mais Jesus, o Nazareno, cuja vida encaixava nas profecias de Isaías, para me transfigurar num Príncipe. 
Cruzamos as faustosas portas e recordei do velho Simeão e de Ana. Sentei-me num círculo imperfeito, entre os doutores. O velho, que me acompanhava, sentindo a firmeza dos meus passos, mantinha-se calado, deixando-se para trás. Ajoelhei-me, apresentei-me pelo meu nome, e, juntos, conversamos durante horas. Discutimos sobre o papel de Deus no mundo, a sina do nosso povo, a importância das leis do tempo e a vivência da religião entre os escritos antigos e a opressão em que vivíamos, mesmo que na nossa terra, perante o invasor estranho.
Sentia-me um rei. Depressa passou a estupefação dos Sacerdotes e rapidamente me interpelavam, perguntando-me opinião sobre este e ou aquele tema. Eles testavam-me e eu sabia. Em todos os segundos, mesmo sem perceber de onde vinha a sabedoria das minhas respostas, lembrava-me da minha mãe e do meu pai. 
Eles escondiam-me, desde sempre, a razão das maravilhas do meu corpo. Eu sabia-as, no silêncio, de cor: os meus sonhos revelaram-me o anjo do Senhor, a cena da Visitação, a misericórdia do meu Nascimento, da Circuncisão ou da Apresentação no Templo. Para mim, não eram desconhecidos Zacarias, Isabel, Gabriel, Simeão, Ana ou as pedras copiosas daquele espaço onde, agora, me encontrava com os Doutores da Lei. 
Entretanto, ia alta a conversa, ouço uma voz, aflita, correndo: "Emanuel, Emanuel?! Jesus?!". Levantei-me, arranjei a minha túnica, corri à entrada da sala onde estávamos. Cruzei o olhar com a minha mãe e com José, o meu pai. Ela, preocupada, gritou: "Como procedeste assim connosco?". Mais nada me ocorreu dizer senão um quase silêncio de um verbo eterno: "Devias saber que estava na casa do meu Pai". A minha primeira revelação messiânica terminou assim, entre as duas mãos quentes dos meus pais terrenos. 
O mundo teria de esperar dezoito anos até que me voltasse a encontrar com João, com aqueles velhos anciãos do Templo ou para que, miraculosamente, desse respostas para as quais não estava preparado. Entretanto, José morreu, durante o sono. Chorei muito a sua perda; ficamos sozinhos, no mundo. Cuidei da minha mãe até que o seu coração ficasse suficientemente pronto para aguentar tudo o que estava para vir. 

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 1 de maio de 2016

Chuva de Primavera

Eis-nos chegados ao fim de um ciclo. Hoje acontece um dia triplamente especial: a última das minhas irmãs casa-se; o papá celebra o aniversário; e, amanhã, acordará, com o primeiro de maio, o dia de todas as mães do mundo. Por isso, hoje gostava de celebrar, convosco, a nossa família. O catálogo magnífico de valores que fazem deste dia e destas palavras possíveis moldaram-se numa educação atenciosa ao outro e preocupada com uma vida sobre bons princípios seguindo a moral cristã.

Falar da mãe ou do pai nem sempre é fácil, porque rapidamente as lágrimas nos embaciam os olhos e a voz treme por dentro. O pai e a mãe são as unidades mais profundas de amor autêntico: é deles que retiramos as formas dos outros amores e é por eles que aprendemos a amar todas as outras pessoas que connosco se cruzam. Como se estas fossem as fórmulas matemáticas que rapidamente calculamos a cada encontro que nos acontece. 

Permitimo-nos a ser felizes sabendo que existe um porto-de-abrigo ao qual podemos voltar em todas as ocasiões das nossas vidas. Às vezes não o dizemos, especialmente por sabermos eternos; hoje queria fazer diferente e perpetuar a gratidão que sentimos por termos sido destinados ao lar que nos acolheu, ao nascimento, como quem joga as folhas à chuva.

O amor dos pais é o mais universal de todos os amores e só comparável ao que Deus, também nosso Pai, sentirá por todos nós. É um amor absoluto, preparado para a entrega e abdicação; é a capacidade para encarar estes dias, de fim de ciclo, com orgulho, sabedoria, consciência, mas também medo e até tristeza; amar é também saber despedir-se, pois do amor autêntico se espera a liberdade.

Temos pais maravilhosos, mas também familiares e amigos incríveis: é bonito ver-nos aqui juntos. A Francisca, a mamã, o papá, o vovô, as tias e os tios, os primos, e os que, por este sacramento, se cruzam com as nossas vidas. A todos, o nosso obrigado.

Márcio, queria agradecer-te em particular: como irmão, amigo e familiar. Recebe-nos na tua casa fazendo parte da nossa casa. Estou certo que do aconchego se fará ternura e do lar se farão frutos; certo estarás que há caminhos que se cruzam eternamente. 

Raquel, as coisas vulgares que há na vida não deixam saudades, só as lembranças que doem ou fazem sorrir. Dizia amiúde um poeta que a saudade é a prova de que o passado valeu a pena; sentirei sempre saudades tuas e quero continuar a senti-las. Quero vivê-las ao teu lado, continuar a contemplar a fineza do teu gesto, a delicadeza do sorriso e a candura das tuas confissões. É profundamente transformador ter uma irmã como tu. Obrigado: pela não desistência; pela consciência da diferença; pelo amor incondicional; do que dói e depois faz sorrir.

Peço palavras emprestadas: «“Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva.»1

Completo dizendo que a vida é uma canção; o amor a sua pauta; a família uma nota. A saudade é nossa e de todos os dias e casou com a alegria; juntos tiveram a memória e puderam recordar momentos como este. Que continuemos a sentir a chuva a molhar-nos o rosto.

Luís Gonçalves Ferreira, 30 de abril de 2016. A propósito do casamento da minha irmã Raquel. 

1. José Saramago, Um Capítulo Para o Evangelho, 2009. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Círculo

O que está a acontecer neste momento, independente de leituras mais ou menos conservadores a respeito da prática constitucional, é uma ironia para com o sistema semi-parlamentarista em que vivemos. Mostra, sobretudo, que o modelo já não serve. 
Os partidos que se unem ao PS não acreditam (nem nunca acreditaram) no modelo de desenvolvimento no qual Portugal alinha desde a instauração da III República, depois do PREC. Se a situação de credo político do Bloco de Esquerda é mais confusa, porque nunca fala em combater o modelo de classes, as opções do PCP são claras para os portugueses: e deles sempre colheu respeito por uma luta contínua, pacífica e determinada, regrada por princípios. Até hoje. 
Nos cartazes que sobrevivem na rua, derivado da poluição visual de que todos os partidos fizeram refém a política, leem-se, nos do PCP, apelos à saída do euro, ao regresso do escudo, à restauração da soberania. A maioria da população acredita no projeto europeu (dos que votam, obviamente). 
A cartilha comunista não ignora a possibilidade de ser poder, sendo essa uma forma até privilegiada de o minar, corroer, preparar a eterna revolução em curso para a sociedade sem classes. O Bloco de Esquerda não. Ou pelo menos não clarifica. 
Jovem de estrutura, o Bloco substituiu o último líder à feição da ditadura do partido único: estratégia de dois para um, tamanha era a força institucional de Francisco Louçã. Perdeu-se Ana Drago, no entretanto. Substituiu-a pela demagoga Mariana Mortágua: uma cacique. Francisco Louçã continua, mas no silêncio. Catarina Martins desempenha o papel da sua vida. Isto só para analisar a rama. Por aqui me fico.
O CDS-PP de Portas fareja sempre o poder, modifica-se, e quer recuperar a glória dos tempos do início da democracia. Uma angústia e sempre desespero.
O PSD significa, em Portugal, a ideologia dominante da Europa. Refugia-se na sua história e perde-se na corrupção dos jotas, nas opções menos corretas da economia de mercado, mostrando-se incapaz de ter voz. Não o pode, por acordo internacional. 
O PS é uma aberração política: sempre o foi. Não é de esquerda, mas tem um nome de Esquerda. Permite-lhe o que assistimos neste momento e em todos os outros: está onde está o poder. Canibaliza-o, baba-se por ele. Custe o que custar. 
Visão paternalista de um país hipotecado no ego dos líderes que a vida querem salvar. Destino: construtoras ou empresas público-privadas. Sucesso arreigado ao carácter de quem executa. 
Nisto, PS como o PSD e CDS. Longe do PCP e do BE: para eles, a questão será sempre a do grande capital, dos mais ricos que esganam os mais pobres, da sociedade de classes e do modelo de desenvolvimento que se generalizou por entre os séculos. 
Os pequenos partidos ficam longe dos corredores de São Bento, neste Portugal pouco plural, cheio de viroses, onde as democracias são estreitas, pouco experimentadas e, à mínima possibilidade, postas de lado. Desde sempre que, moralmente, assenhoramos o Estado, paternalizamo-lo, deixando que entre nas nossas vidas, nos nossos negócios e até no sal do nosso pão. 
Tudo isto a que assistimos nas televisões, lemos nos jornais e revistas, ou escutamos nas rádios, é fruto da circunstância de país pequeno, sem recursos, acantonado ao papel de receptor económico e ponto de consumo. Não podemos ser mais do que isto: é a competitividade natural do homem que sufoca e se apodera de quem tem pouco.
Falamos, então, da natureza humana: dos que a aceitam - como o PSD, CDS e o PS - e dela querem retirar o lucro, e os de que a rejeitam, querendo utopicamente lutar contra ela, como o PCP e o BE. São todos necessários: os céticos e conservadores como os radicais, os pensadores de fundo, os da alternativa. 
Diálogo dos mundos: Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Hobbes e Rosseau, Marxista-leninistas contra liberais, sociais democratas, democratas cristãos e neo-liberais. E, neste fundo de panela, não fazem sentido os rótulos: somos todos bichos em movimento.
Acresce o eurocentrismo: esquerdas e direitas continuam a opinar sobre o mundo do seu pódio intelectual de berço da humanidade.
Dou por mim a pensar sobre um modelo alternativo: clarifico-me e penso que a humanidade não é mais do que este ciclo de que os objetos que colocamos ao nosso serviço são exemplo. 
Moda, política, cultura, gosto, tecnologia, intelectualidade: da simplicidade ao exagero; da paz à revolta; um círculo. Somos todos círculos e deve ser por isso que tanto nos importamos com as questões da morte.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mataram a cidade

Enjoa-me o que fizeram da política. Vejo bandeiras, enchentes, encenações partidárias. Vejo as paradas grotescas que são as arruadas, os comícios, jantares e tainadas. A "cidade" e o povo tornaram-se representados por uma máquina partidária potente, de tablóide, minada pelos caciques e os jotas, com bandeiras compradas e vontades falseadas. Todos somos disso também.
Fizeram da política um desfile de vaidades, mentiras, discursos decorados, frases feitas e chavões. Fizeram da pólis - do que é de todos - uma feira da Vandoma onde o polícia compra produto contrafeito. 
Destruíram a cidade dos Gregos, o contrato social de Rosseau, as inovações do marxismo e da democracia cristã. Reduziram tudo a pó, ao totalitarismo da enchentes, às marginalidades das grandes corporações. Dói-me ver a minha geração sem consciência política, espírito crítico, marchando como peões num xadrez minado. Absolutismos informados sem direito ao plural.
Dia 4 de outubro não vencerá o PSD/CDS, nem o PS, nem a liberdade. Dia 4 de outubro vencerá a abstenção, o jogo boys and their toys, as ideologias corporativas, a macrocefalia de Lisboa, a litoralização, a falta de abordagem acerca da justiça ou da regionalização, o silêncio sobre a renovação constitucional. 
Enquanto continuarmos sozinhos, unicamente preocupados com o jantar de borla que nos pode cair no prato, estaremos alinhados nesta falta de lucidez sobre o estado da "res publica". 
Estamos num beco sem saída com um lume quente às costas. Somos como ratos aflitos que não percebem a facilidade da saída. Magoa-me ligar a televisor em tempo de eleições: cheira-me a esgoto, Salazar ou D. João V. Bandeiras, sinais sonoros, campos de batalha. O que há de diferente?

2.º outono, Francisca

A luz dos nossos olhos celebra hoje o seu primeiro aniversário. 
Não posso conter a felicidade que sinto ao ver a Francisca crescer. É brilhante sentir que me reconhece. É espantoso perceber quando prefere o meu colo. É único vê-la em todos os olhos dos que gostam dela. 
A Francisca transformou as nossas vidas e tornou-se no maior presente que se pode receber. É amor por amor, candura por candura, fé por fé. 
A Francisca é uma luz no absoluto e mágico que a palavra significa. 
Ao seu primeiro aniversário quase caminha, diz claramente mamã e papá, é apaixonada pelo colo da avó materna, gosta de ver os "mus" e as galinhas. Sabe fazer o barulho do leão. Adora que lhe contem até dez no meio dos vestidos dos anjinhos, e fica em êxtase com as cores que vê junto dos milhares de metros de pano que a rodeiam. 
A Francisca, no seu primeiro aniversário, é um milagre vivo. Ela não sabe disso. É a ressurreição da alegria da minha mãe e o final de um Inverno longo, sentido nos corações de todos, após uma partida. 
Francisca rima com amor. Também podia ter sido Júlia ou Benedita e rimaria na mesma. É filha do Outono e os nomes são o de menos na linguagem dos afetos. 
Francisca faz de mim, todos os dias, uma pessoa mais feliz. Especialmente quando dançamos, os dois, ao colo um do outro, por entre poemas feitos de cetim.

domingo, 3 de maio de 2015


Os amores muito fortes e demasiado autênticos não precisam de grandes palavras. 
Dão mudez, sobretudo. 
Amar, por isso, é dizer pouco.
À mãe: esse infinito.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cântico dos cânticos

Eis que me toma a noite. Aos golos, como o último whiskey que bebemos juntos, no mar. Lembro-me de tudo em ti, principalmente a saudade que já não tenho. Recordo-me do barulho que as ondas faziam no meu peito apaixonado. Os nossos corpos suavam ainda quietos, por saberem das tentações que juntos comungavam. Titãs observantes de Cartago a Roma.

Éramos como fiéis a caminho de Santiago, talvez ultrajados pela promessa de uma vida em paz. 
Recordo-me do peito flamejado que sentia. Da ardência dos olhos que torneavam as memórias de perdas e alcances que consumíamos. 
Tenho sete saudades na vida, como os gatos e como Jesus as disse na cruz. 
Três saudades já as perdi.Tenho quatro saudades sobrantes e não sei que destino dar. São quatro mortes, três vidas restantes. 
Uma vida perdi-a, se calhar, em ti. As vírgulas mergulham-me. Embato numa
memória e o dicionário cai da estante como a abóbada que ruiu na catedral. 
É abril e não há flores no meu jardim. Ainda sinto o cheiro branco das magnólias.

Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 14 de abril de 2015

sobre a escrita

O poder das palavras é inquestionavelmente infinito. São o nosso maior compromisso para com os outros: fusão do planisfério da mente com o concreto dos sentidos. 
Sempre senti uma disfunção entre o painel do cérebro e a capacidade de concretização. Como se palavras fossem poucas para personificarem o que, de leve, pelos pensamentos transborda. É de um caso de deficiência muda na comunicação, ou escravatura dela, se tratasse. Digo, muitas vezes, que sinto uma prisão enorme dentro de mim próprio. Como a voz gritasse, em desespero, "salva-me", e as pernas nem do lugar conseguissem sair. Como se as emoções tivessem sido enclausuradas e uma parca tristeza em relação ao mundo se acumulasse. 
O dinheiro, o poder, o amor e os jogos de ego. A incapacidade de relacionamento e uma doença interior que cresce, como um cancro do sentir. Dizia hoje, a uma amiga, que passei de uma tristeza desiludida para uma tristeza calada. Como se o desintegrar absoluto do mundo tivesse conquistado o seu maior pódio: o da força interior dos seres mudos; dos acomodados que em cima de muitos se amontoam; da soma dos iguais. 
Venho no automóvel e a poesia cresce. Não há nada mais romântico do que aquilo que escrevemos sem violarmos as barreiras do som. Entre o primeiro acto criativo e a exteriorização há palavras que se perdem para sempre. Há outras mais que ficam e eternizam. Não tenho noção qual dos valores é o maior.
Escrever submerso é impossível: que lamento!

Cheiros Autênticos

E, desde então, iam-se morrendo constantemente. A cada traço que riscavam, às coincidências das quais se afastavam, e das palavras que jamais diziam. Sabiam que se amavam e negavam-no, porque a ferida rasgada é mais forte do que o poder de todas as coisas vividas. Eram, entre os dois, maiores do que as suas partes somadas. Chamaram-nos de amor, mas poderia ter sido outra coisa qualquer. Às vezes parecia uma guerra, outras um funeral, mas houve momentos em que a felicidade era tamanha e os gregos choravam, os romanos gritavam às tropas e os modernos - eclipses da ciência - renovavam os votos. Eram contemporâneos: intensos, do amor romântico; poetas lúcidos e confusos da nova ciência feita deus. Houve dias em que eram batalhas e outros autênticos estranhos em terraços paralelos. 
Vão quatro anos e o aniversário deve ser por estes dias. 
Amar levanta a pele, em todos os sentidos, mas não solda. Soldar-se faz-se sozinho. Ainda dói, aqui no peito, e tresanda a morte. Poder-se-ia chamar, afinal, eternidade.

Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 6 de março de 2015

XPTO

Lembro-me de, em menino, perguntar à minha mãe pela razão de Jesus estar crucificado, no centro das Igrejas, e não em Glória e ressurreição. A minha mãe dizia-me que o sofrimento é uma dádiva, uma bênção, e que nos renova, a partir dali. Jesus - o Cristo - era morto para nos recordar disso mesmo.
As palavras não eram exatamente estas, e eu não percebia nada do que a minha mãe me queria dizer. Como era possível que o sofrimento fosse, numa essência tão pesada, uma coisa boa? Não via aquelas palavras como não as entendi por um bom número de anos. 
Hoje é diferente e ter "luz" (no sentido mais ou menos espiritual do termo) é muito provavelmente isto de se perceber a vida de uma perspetiva diferente, segundo os mesmos olhos.
Estive a ver um episódio de uma série que fez recordar a morte da minha avó. Revivi o peso da partida, os tempos difíceis que se seguiram, e as memórias que fui colhendo de forma mais ou menos tímida. Mudou muita coisa na minha vida, no entretanto, e ainda bem que assim foi: há esperança em cada final.
Quando os poetas falam em eternidade e Glória, do início eterno que a morte significa, estavam a falar de uma imensa posteridade que fica de nós na vida dos outros. As pessoas são eternamente vivas nos finais que nos condicionam e nas linhas que nos inquinam. Não há nada de espiritual na eternidade: afinal a memória é carnal, deus é o medo de estarmos sós, e eu chamo-me Luís.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ler e amar. Uma questão de escolha.

Há uma analogia profundamente surpreendente entre os livros e as pessoas cujos destinos se cruzam com o nosso.
Escolhemos um livro, antes de mais, pela capa: o aspecto pictórico que nos chama a atenção. Somos atraímos pela letra, as cores, ou até por uma palavra chamativa exclamada aos nossos olhos. Igual à pessoa que nos chama atenção no meio da rua, do nada.
Aproximamos e começamos uma certa sedução de convencimento. O cheiro conta, a par da textura do papel. Vemos a contra-capa: o resumo. Se não conhecemos o autor, perguntamos o nome e até o que faz da vida. As biografias são sempre importantes, nos livros como nas pessoas. Uma página à sorte é aberta para absorver o estilo da escrita; a forma como flui naturalmente; um certo talento que nos conquista. Será o equivalente à linguagem corporal dos humanos ou ao sorriso, para os que, como eu, são por ele fixados.
Levar o livro para casa é o acto mais íntimo do processo de se possuir algo. Tudo tem um preço, como nos livros. E tê-los é dividir estante com outras paixões, memórias, e títulos igualmente fascinantes. Serão os modelos, as condicionantes, as comparações que fazemos todos os dias em relação a tudo, mas especialmente no que ao amor diz respeito. [Este sexo é melhor do que aquele, aquele cérebro é mais excitante do que este: tipo resumos de vantagens e desvantagens (uma racionalização das emoções - como se mandássemos em alguma coisa)].
O livro pode até aguardar pela sua vez. Porém, há daqueles que passam, de imediato, à frente de todos os outros: consumo apaixonado, talvez por tanto querer aprender; ou tanta urgência sentir daquele conteúdo. [Sou de paixões rápidas pelo fogo que arde em mim.]
Agora escolhido e assumido, o livro é aberto, pelo início, como a vida se começa no nascimento. É a prova dos nove dos pré-conceitos da aparência. Nos livros, como nas pessoas, há que saber desistir a tempo. Abdicar é não arriscar a leitura inteira de uma vida e não alimentar expectativas feitas por (des)ilusões. Desistir é um sinal de virtude e um respeito. Abandoná-lo será, também, dar ao livro, como às pessoas, uma nova oportunidade. Fazer ferida, ao insistir, pode arruinar tudo, mas desistir antes do tempo pode-nos fazer perder a maior narrativa do mundo.
Escolher, na vida, é como seleccionar um livro numa estante. Até quando seleccionamos dos livros que já temos em casa e colocamos a esperar por nós. Após anos, talvez a consciência volte a despertar às letras bonitas, ao autor interessante, ao estilo entusiasmante. Talvez se cative novamente pelo tema. Talvez se conclua o primeiro capítulo; se emocione no segundo; se somem todas as letras e até se anote para a posteridade.
Ler, como amar, é um dos mais belos jogos de sorte. Há quem leia um livro na vida e não precise de mais. Há quem coleccione leituras rápidas, semanais, ou até de duração mais curta que essa: devoradores de livros. Há quem escolha e se deixe levar pelo sabor da vontade. É certo que todos, nos livros e no amor, procuramos resposta sobre a nossas inquietudes, desejos, anseios e faltas.
Ler é, como amar, viver. A vida é curta de mais para escolhas erradas e longa o suficiente para poder regressar.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Sou lúcido. Merda!"

Às vezes perguntam-me porque pareço tão triste. Lá respondo, timidamente como quem justifica a sua alma, que ser lúcido - como optei ser - implica estar triste, ou simplesmente condicionado na alegria. É uma resposta refúgio; uma fuga.
Estar triste não é ser triste. Estar triste não é ser infeliz. Estar triste é estar fendado, machucado, e penetrado pelas perdas que sofri. Estar triste é um ante-aviso, é uma proteção. Ser feliz é saber isto tudo e mesmo assim ter esperança, e sentir felicidade. E estar triste significa barreiras e protecções, e placas de pré-aviso de dano e-iminente.
Estou triste, mas sou feliz. Cada vez mais isolado, na proporção. Como quando era pequeno e queria brincar aos mortos.
Há dias que estou triste e é quando procuro escrever. Quando se sente felicidade o mais urgente é vivê-la e não escrever sobre ela. Quando se está triste, o mais urgente é estar só, virado para dentro, e sentir: escrevendo.
É impossível não ser triste quando se é lúcido. "Sou lúcido. Merda!", já dizia Pessoa. Não há pessoa mais certa nesta estória toda.
Amargura e raiva e medo. Quantos são os anos e as perdas que me fizeram lúcido? Precisarei do seu dobro para me reverter em inocência. Dos extremos se converte a média. Que assim seja, Senhor.

Luís Gonçalves Ferreira

sábado, 24 de janeiro de 2015

"o teu rosto transformou-se na noite interminável que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde interminável.
o rio de fumo que levava o teu nome para as estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro da minha tristeza.
e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu nome era tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo. e tudo é agora mais do que tudo.

não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua imagem.
não penso para onde foste porque o meu peito, sem ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos. sinto o que sentiste.
fico acordado de noite, com a esperança secreta de que possas regressar.

não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança. a esperança que havia quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.
um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins. do que montanhas. do que anos de tempo.
arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer que devagar passam os dias. os dias passam devagar, esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me arrependo.

a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência. não esqueço que os teus lábios existem longe de mim. aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver e para não chorar."

- José Luís Peixoto, A Casa, A Escuridão, pp. 45-48

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Erotismo da Sombra

Entretanto, ele decidiu desistir. Arrumou as armas, limpou os escudos, e as botas resistentes que tanto o acompanharam. Os livros de estratégia, as filosofias de cabeceira, os mapas gigantes que colocava na mesa, a casa cena de filme que montava. As ruas ficaram vazias, as estradas semelhantes, e até os olhos ficaram diferentes. Era talvez uma reforma: deixou de me ligar, de dizer que me queria bem, até de fazer projetos. O amor morreu quando arrumou a última espada na bainha. 
Como as convicções políticas, o amor é uma batalha, um desafio, um dogma existencial do qual não se pode desistir. É preciso vendar os olhos e seguir os impulsos cardíacos. Gritar às tropas com o peito de um líder, sem tremer a voz, fazendo soar as trombetas, e marchar. 
Seguir em frente. 
O amor tem mapas, espadas, e é uma guerra. O amor é um sem-número de coisas, tantas quantas as histórias onde heróis e princesas são gente normal.
Arrumei a cota e a coifa. Pousei a espada. Do outro lado, as armas, que agora tombam as candeias da amargura, foram sangue. Somos tão-somente eternos nas quatro linhas que desenham a nossa sombra.

Luís Gonçalves Ferreira 

A (des)humanidade dos humanos

A humanidade é feita de homens e mulheres, e parece que nos esquecemos disso. Vivemos da crítica, da mentira, dos falseamento, do sujo do não-amor optado. Fugimos das pessoas escondendo-nos noutras pessoas. 
A humanidade são os seres humanos, essas mulheres e esses homens com quem partilhamos o dia-a-dia. E somos nós próprios. Oiço críticas à globalidade dos seres humanos que parecem loucas e não lúcidas a esta realidade. Os humanos são egoístas, hipócritas e mesquinhos. Os filósofos deixaram de pensar o amor e nós, como global humano, sentimental, não valorizamos isso - nem pensamos na Filosofia. 
Não podemos ser frágeis, nem defeituosos nem tão-só humanos. A Humanidade é então feita de quê? Homens e mulheres que não são homens nem mulheres: são coisas. Perfeitas, bonitas, trabalhadas, segundo os princípios do capital, do mercado e da economia e da acumulação. Até a palavra Humanidade é desumana: um todo que nem jus faz ao mais pequeno pedaço de terra que podemos habitar. 
Ser humano é, afinal, uma mentira que contamos a nós próprios: nenhum coletivo é individualmente tão auto-centrado. Somos nós e o que os outros esperam de nós. 
O sofrimento é o novo pecado celestial: que algum deus nos dê uma segunda oportunidade. Não há nada de errado em estar triste, amargurado ou revoltado. Não há nada de errado em partir os cacos no chão e pegá-los com o tempo que precisamos. Não existe nada de errado em pararmos a olhar o mundo. Somos afinal nós quem vai erguer o seu rabo, dar laço às pernas, e sobreviver. Não passamos de uns animais sentimentais fugindo do que nos coloca, perigosamente, no final da cadeia alimentar.

Luís Gonçalves Ferreira 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Dia 1 d.T.

Saí da universidade, após mais um teste da nova-caminhada a que dei início, desde Outubro. O curso, até agora, tem existido basicamente contigo. Após cada vitória, eras tu a primeiríssima pessoa a quem ligava como era eu a primeira instância a que recorrias à saída do trabalho; ou até o depósito das inseguranças, das coisas diárias, e dos projetos. Foste tu a minha força, mas hoje foi diferente.
A jornada foi curta, ao contrário das coisas que nossas projetei. Criamos um compromisso de almas, de companheiros. Meio que nos sugávamos um ao outro: meio que de uma forma temida meio que de uma forma derradeira. Se calhar, meio que de uma forma natural.
Vim a correr para casa dos meus pais, e procurei a unidade mais básica do amor. Não queria voltar para aquela "minha casa" que és tu. Nem queria encontrar-te em todos os cantos para onde fosse ou olhasse. Não queria, enquanto fujo. Hoje não foi diferente.
Sobra-me a vergonha, a dor e uma espécie de anestesia que de tarde me fez pensar no fácil que poderia afinal ser. A noite chegou e trouxe-te na brisa. 
Hoje começa mais uma etapa de solda e cicatrização, onde a memória mais antiga que tenho se encontra ao lado da tua, num processo ainda não fechado.
Hoje é dia um depois de ti. Que não seja muito o tempo que aí vem.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

Há pessoas que deviam ficar com a boca calada, principalmente em momentos de profunda reflexão, especialmente quando se envolvem mortes e pistolas cheias de sangue. Para a morte em massa, bárbara, terrorista, primária, não há educação, nem religião, nem cultura, nem alternativa. Não há nuance, nem classe política, nem partidária, nem sequer profissional. Para o terrorismo, seja ele ideologicamente cristão ou muçulmano ou judeu, não há segunda nem terceira via. Há uma resposta: o repúdio absoluto. Um repúdio absoluto das ideologias igualmente básicas e primárias como aquelas que vos enchem as bocas para atacar todas as pessoas muçulmanas pela atitude de três. Não foram todos os muçulmanos que os mataram, como os doze mortos não representam o todo que o ataque quis atingir. Não queiram tomar a parte pelo todo, mas queiram ser um todo pelos valores que nos fazem plurais.
Pela democracia, a liberdade, o respeito, pela tolerância: Je suis Charlie.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Amar demais.

"Quando amar significa sofrer, estamos a amar demais. 
Quando grande parte de nossa conversa com amigas íntimas é sobre ele, os problemas, os pensamentos, os sentimentos dele — e aproximadamente todas as nossas frases se iniciam com "ele...", estamos a amar demais. 
Quando desculpamos a sua melancolia, o mau humor, indiferença ou desprezo como problemas devidos a uma infância infeliz, e quando tentamos tornar-nos a sua terapeuta, estamos a amar demais.
Quando lemos um livro de auto-ajuda e sublinhamos todas as passagens que pensamos que irão ajudá-lo, estamos a amar demais. 
Quando não gostamos de muitas das suas características, valores e comportamentos básicos, mas toleramos pacientemente, achando que, se ao menos formos atraentes e amáveis o bastante, ele irá se modificar por nós, estamos a amar demais. 
Quando o relacionamento coloca em risco o nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente a amar demais. 
Apesar de toda a dor e insatisfação, amar demais é uma experiência tão comum para muitas mulheres, que quase acreditamos que é assim que os relacionamentos íntimos devem ser. A maioria de nós amou demais ao menos uma vez, e, para muitas, é um tema repetido na vida. Algumas tornamo-nos tão obcecadas pelo nosso parceiro e pelo nosso relacionamento, que quase não somos capazes de agir."
- Robin Norwood, in Mulheres que Amam Demais (prefácio)

sábado, 29 de novembro de 2014

À Francisca

A pequena Francisca tem pouco mais de dois meses, mas fala por uma vida inteira: chegou sem pedir a ninguém, trouxe alegria e um espírito puro de inocência. Olho para ela e lembro-me como é maravilhosa a existência humana e como é gratificante estar aqui, neste momento. Os olhos pequeninos, as mãos que não agarram nada, e um sorriso que conquista o mundo. Nada é pensado, ou intelectualizado, simplesmente congratula, da forma mais pura de quem não sabe nomes, nem pré-conceitos, mesmo dos que amam uma existência tão minúscula, mas tão poderosa.

Nunca tinha acompanhado um crescimento humano de perto como tenho acompanhado o da Francisca. Naturalmente por que agora a minha consciência se faz desperta a um conjunto de circunstâncias novas, e quantifica os pormenores de uma outra forma. É produto do próprio crescimento: do meu, através dela. E dela através daqueles que a observam. Os laços que criamos ao longo da vida definem-nos: ela já é nossa e nós dela.

Os bebés ridicularizam o comportamento humano, fazendo-os escorregar no cliché sem se dar conta. Nada há mais amoroso do que isso: o da máscara cair, da rigidez das expressões se tornar flácida por efeito dos sentimentos. Todos falam como se ela percebesse tudo o que se se lhe diz, ou faz. Por certo não sabe, mas também é certo que já o sente. Provavelmente, precisa de o sentir. De um fase inicial de carência física a um planisfério de dependência emocional: nascemos afinal imaturos, imperfeitos, e carentes. E assim, por entre a vida, nos iremos manter. A Francisca vincula os pais, depois a família, para a seguir fazer amigos, depois namorados, para a seguir aprofundar relações, onde conhecerá o que gosta de fazer, quem prefere amar e aquilo que realmente a engrandece. Aos 24, ela tornou-me melhor pessoa, nesta posição de quase-inteira-observação a que me devotei.

A Francisca já é um brilho sem igual, mas, também, um brilho de entre muitos: a vida dá mais vida a quem dela partilha. A vida é um milagre, não no sentido meta-físico, ou irreal, mas na transformação imensa que significa. Energia que nos transforma e que, intacta, se soma desde há meses a esta parte, em mim como em todos os outros que dela gostam. À minha irmã, obviamente, por se ter tornado ainda mais bonita (a beleza afinal não se esgota), e, em especial, à minha mãe, por ter literalmente renascido (faz-me lembrar de quando a vi a saltar à corda). De mim, só sei da emoção ao observar, em lágrima felizes, os pequenos gestos que a farão futuro. 

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Guião aberto

Era perto das 11 e o relógio dizia pelo final da aula. Negociei, junto da professora, os pormenores de uma reposição. Dei-me ao caminho para casa. Ponderei, no entretanto, estudar na biblioteca ou até na livraria do centro da cidade. Fiquei-me pela última opção: a da preguiça, como sempre. Chave que roda o automóvel, automóvel que se envolve com a estrada, caminho que termina aqui. Aqui - o local onde me encontro, especialmente quando estou sozinho, por onde me partilhei contigo. 
- "Tenho que comprar pão", pensei. "Mas provavelmente não tenho dinheiro. Faço-o depois", continuei. 
As botas que tinha apertavam-me (são novas e não se encaixaram ao pé). Descalcei-as, encostando-as a um canto, adiei o lanche da manhã mais uns minutos. Actualizei-me nas redes sociais, vi os e-mails, fitei os apontamentos do exame de quinta. Desviei o olhar e procrastinei. Até a ida ao pão. Mais uns minutos... Lembrei-me: "Tenho uma multa para pagar, junto da fatura atrasada da água!". Fiz um post-it com os códigos de pagamento (não gosto de andar com papeis na mão). Peguei na carteira, conferi os trocos, amarrei nas chaves que encontram a porta.
Saí.
Fui ao banco. Era talvez meio-dia. Passava uma hora dos planos iniciais dentro de um dia já de si atípico. Entro no cheiro a dinheiro e percebo uma cara conhecida. Era a tua irmã. Levantou-se rapidamente e pensei que não me fosse cumprimentar. Enganei-me: simpática, rasga um sorriso tímido, em certa medida magoado, dirige-se a mim, no meio de dois beijos. Perguntou-me se estava tudo bem e respondi-lhe "Sim. E contigo?". É este o pré-forma do encontro, sem querer saber verdadeiramente a resposta. Foi-se logo embora, junto do marido (nunca o tinha visto). Ali, morreram mil perguntas por fazer. A principal seria saber de ti. 
Isto do relógio tem imensos versos por escrever. Poderia ter saído mais cedo, ou mais tarde, e nem a encontrar. Poderia ter ido primeiro ao pão, depois ao banco, ou até a outro banco. Mas não: foi assim. Fico sempre com a sensação de que a humanidade é uma história em guião aberto. De entre as perguntas, as respostas, as inquisições sobre o humano, o divino, o trauma e a satisfação, resta-me saber como estás.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Barreiras invisíveis

Procurei por toda a literatura que me define ao tentar encontrar "a" frase para este preciso momento. Falhou Pessoa e até Saramago. Kafka não me acrescenta nada e Miguel Esteves Cardoso está mudo. Inês Pedrosa esgotou-se em nenhum aconselhamento. Estou perdido e fazes-me falta.
Parti agora para a música: Antony & The Johnsons tem a sua sempiterna Hope There's Someone - de tanto encaixar não serve mais (ferida que roça em si mesma). Tenho uma fenda no coração, entretanto. Ela não fecha nem dá segurança de poder curar-se. Segui agora em frente e visito todas as músicas que já me emocionaram. Espera, afinal, ainda existe uma que serve sempre tudo nos últimos tempos! Não... o buraco continua por se emendar. Não há salvação.
Resgato-me agora aos pensamentos: às verdades universais que contei a mim mesmo para fugir de todas as fossas em mim abertas. A céu aberto. Fiquei a céu aberto. Morada oculta, escoltada, acorrentada. Magoada. Das pseudo-psicologias do sentir, das meta-críticas à pós-modernidade egoísta, escrava, errante, continuamente a não querer sentir. A fugir do sentir. Esbarro numa outra conversa, ao canto da sala dos dogmas. O espelho, calado, diz-me tudo. E os contornos das maçãs do rosto, do estilo diferente, dos óculos de massa e os meus artifícios. Onde estão as minhas cicatrizes? Uma luz pisca, então, um pouco abaixo, como nos filmes franceses que tenho visto ultimamente. 
Dói-me o sentir. Dói-me ferozmente. Dói tanto que não sei nada. Esta confusão agora abate-me o peito. O permanecer da fuga em frente a cada dia que somo. Fiz-me um errante. Um errante que se auto-narra em epopeias terríveis, fustigado nos sofrimentos, mas que vive. Pele a dentro: parece que me roubaram os sonhos. 
Há uma casa, lá longe, e lá me senti seguro. Destruída aquela Alexandria de mim, ficaram-me os cacos. O manuscrito é horrível e os livros estão queimados. Vou encerrar-me e dizer que volto mais tarde. Até lá, interdito-me com barreiras invisíveis.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Crónica de um deus revoltado

O meu nome é Deus. Já fui preto, branco, amarelo e afins. Fui-o à vossa imagem e à semelhança das coisas que vos dizem respeito. Quiseram que fosse protetor do dinheiro, da guerra, do amor, sexo e da fortuna. Fui Rei dos Reis e Luz da Luz. Deus verdadeiro, Deus verdadeiro. Justifiquei poder e fracasso. Fui quase sempre humano: ora cabeça de gato, ora fronte de elefante. O meu nome é Deus e sou como vós, por que vós assim o quiseste.
O meu nome é Deus e dei-vos santos em troca de altares. Ofereci-vos proteção em horas de aflição e fui justificação máxima em horas de Glória. Vós sois, afinal, inúteis: é a mim que quereis chegar. Deram-me tronos e logo os tiraram, querendo que do vosso poder carnal de alguma coisa de mim tivesse. Dei-vos um filho, até. Ou vários. Casei com prostitutas, deusas e pari semi-deuses e deuses completos: vocês alegravam-se quando algo de mim podiam ter. Dei-vos bastardos como autênticos, e dos reis que vos ofereci glorificam-lhes a genética. Construí impérios nas vossas mãos, trocaram-me oferendas em portas de templos, dentro deles como fora. Ergueram-me janelas e fecharam-nas ao tentarem encontrar-me 
Reinterpretaram-me diversas vezes. Fui a fonte da vossa angústia e desconfiança, até desculpa pelos vossos crimes desumanos. Como ousaram usar-me como álibi? A culpa é por certo minha que vos criei: imperfeitos, capazes, cerebrais, e livres. Tão livres que vos capacitei para me escolherem a forma, a substância e a ruptura da vossa consciência. 
Sou um homem, como vós. Fechado num cárcere. Há dias que me revolto e outros em que vos uso: como peões. Rio-me sozinho, aqui, fechado. De vós, das vossas imagens e figuras ridículas de seres pseudo-auto-determinados: são todos iguais. Uns fantoches que só os meus Gregos faziam melhor. Aprendi com eles a rir de vós. 
Sou um homem. Preso. Escravo das vontades do vosso destino. Sou um homem e nunca amei. Fui amado, ou odiado na leve fronteira, por todos vós. Sou uma jaula de vontades humanas acostumada ao fracasso. 
Ser deus é difícil e vocês não percebem isso, seus idolatradores!

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 21 de setembro de 2014

Júlia

É este o Pretérito Mais Que Perfeito que nos traz, hoje, aqui, a celebrar: Júlia. 

Conhecemos uma outra, há uns anos, e dela jamais esquecemos. Forte, determinada, líder nata, avó-coragem, mãe. Sobretudo, mãe. Deixou-nos da sua presença física mas ficou a sua voz, a estada, o carisma. Às vezes acho que ainda sinto o seu cheiro. Ela é vezes sem conta recordada. Nunca esquecida: uma funcionária que a diz, um cliente que a dita, uma conversa em família que a recorda. Nunca te vamos esquecer. E este não-esquecimento é a prova que a partilha e o amor são a tatuagem mais profunda que podemos rasgar no coração dos outros. É esta a mensagem que queríamos partilhar convosco.

Todos estes adjetivos, pronomes, substantivos, rimam contigo, Júlia. Agora para ti, Júlia-irmã, Júlia-filha, Júlia-amiga. És forte, determinada, líder-nata, irmã-coragem, e irás ser, tenho a certeza, mãe. Sobretudo, mãe. Como irmã mais velha que és, também soubeste ensinar-me coisas, disciplinar-me noutras, e apontar-me defeitos, tanto quantas as virtudes pelas quais os teus olhos brilham quando no silêncio sei que me escutas. Disseste-me quando estive certo, errado, e sei que estarás sempre na primeira fila dos meus e dos desafios da tua família. Estamos hoje, aqui, felizes, contigo, a ver-te. Da primeira fila. Deixa-me dizer-te que estás linda. Incrivelmente bonita, como só os teus olhos sabem estar. Não escrevi isto hoje, mas quando o escrevi já sabia que estarias linda. Por que os meus olhos não te veem de outra forma. A ti como à Daniela ou à Raquel. Ou como me ensinaram a ver a todos os membros da nossa família. É o orgulho desta família que queria deixar hoje aqui saliente. O meu orgulho em ti e a minha felicidade imensa de poder partilhar este dia contigo.

Obrigado pela irmã, pessoa e pela profissional que vi e verei seres. E a ti, Xavier, sê bem-vindo. Há sempre lugar para mais um nesta mesa em que nos sentamos, todos, desde sempre. É esse o legado que nos ensinaram e esse é o legado que levamos em diante: há sempre lugar para mais um. 

Resta-nos agradecer a Deus, pela graça que nos deu, e por nos deixar estar lúcidos para desta dádiva recordar. Que nos dê saúde, ânimo, confiança, e que a Ele saibamos sempre dar o que de melhor sabemos e podemos. Que não nos faltem as forças, e vós também, Júlia e Xavier, na vossa família nuclear que hoje conhece a luz. 

O Mistério da Vida tem curvas, obstáculos e desafios. Tudo que é nada quando uma nuvem de graça nos atravessa como neste momento. 

O Senhor é bom pastor e nada nos faltará. O Senhor é bom pastor e nada te faltará, Julinha. 

Obrigado, do fundo do coração.

Luís Gonçalves Ferreira
Lido na celebração do casamento da minha irmã, no dia 20 de Setembro de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

Apontamento sobre a felicidade

Por que nem só a tristeza é poética: cheguei à conclusão que tenho uma vida bonita. Agora, de repente, ao chegar a casa. E era só este o apontamento que queria deixar escrito. A minha vida é bonita. Espero que a lucidez possa sempre reconhecer, no futuro, a mesma beleza. Será a felicidade algo tão simples como é senti-la sem motivo aparente?

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Despedidas

Desejei por muitos dias que estivesses mais longe. Especialmente quando te encontrava em todos os locais a que ia e apenas queria fugir de ti. Ainda chorava em cada fotografia que visse tua, perguntava-me o que estarias a fazer, a sentir, até onde eu poderia estar, em ti. Esperei para que estivesses longe. Longe o bastante para que todos os sentimentos fossem menores, ou não tão imediatos. Ou para que todos fossem diferentes daquilo que eram. Para que o sofrimento vindo do teu cheiro deixasse de existir. Ou para que a metamorfose esquecida do inverso não fosse pensada. Talvez só te quisesse perto, junto a mim, e tão-só me achava fraco para não suportar mais uma perda. Mais um pedaço de ti que desses para depois roubar. Questionei-me tantas vezes e o silêncio era um brinde. Uma antítese. 

Passou muito tempo desde então. Estive com outras pessoas, mais do que as que queria. Mais do que aquelas que desejei. Apenas procurei um canto para me esconder, encostar e finalmente chegar ao sítio que achava merecer. Mas não. Foram dias e noites, e não. Não chegavas com outro nome, nem com outro rosto, nem com outra voz. Preparei quartos e casas, e desarrumei-os algum tempo depois. Dispus peças em teu nome e desfiz altares também. Usei pulseiras, imprimi fotografias, criei hábitos. Tentei ser parecido contigo e depois desconstruí para me achar eu, novamente. Há locais que têm o teu nome, o teu sabor e a tua textura. Há fragmentos que esqueci.

Houve uma altura em tudo faria para estar mais perto. Entretanto, a ferida foi fechando, aos poucos, lambida com cuidado para não voltar a abrir. Foi o cansaço, a desilusão, e uma fuga em frente que quanto mais adiante ia mais solene estava. Hoje és o amor da minha vida, com tudo o que tens direito. À pureza, ao singelo, à saudade e às memórias. Finas flores que nasceram na minha pele.

Sei que estás mais longe, com o certo de que o local nunca foi o nosso problema. Encontrei-te em locais improváveis e desencontrei-me nos prováveis. Esqueci-te quando te lembravas de mim e lembrei-me de ti quando nem existia para ti. Fomos e deixamos de ser, continuando a sê-lo, na substância, a nós voltando quando o acaso pediu. Espero-te em breve. No breve que continua a desconhecer tempos e espaços. No breve que é eterno.

Luís Gonçalves Ferreira 

Parafuso

A excelsa manipulação sensorial da tua vontade afirma: "quero". O braço comanda, pelos braços no ar, apontando no sentido contrário. A presa, num rápido dos olhos, afirma a mesma palavra, sem nada de concreto dizer. As rugas fálicas confirmam o inevitável que existe em ti. Segue-se um cortejo de manifestações confusas misturadas aos brandos costumes dos sentimentos que sei termos possuído.
-Termos,
- sermos,
- existirmos, e,
- um mar de passados terrenos, memoriais, de nazis e fascistas, que se seguiram num projecto de usurpação da virgindade que à minha crença quase tinhas tirado. Como se fosse possível ser mais ou menos puro ou estar mais ou menos convicto.
As tuas visões particulares sobre um conjunto de assuntos deixaram-me só com um parafuso preso no esófago, que engoli por engano. Consegui subi-lo um pouco, mas uma voz disse "bebe-o". Meia dúzia de gotas e... acordei do sonho. Era uma metáfora. Vi aquele corpo estranho descer-me: confuso. Na proporção da insignificância da tua existência. Do resto que valorizo. Há dias que a metástase chega aos olhos e os 90% invertem-se em si mesmo, fundindo-se na totalidade a que dizem respeito. O amor tem matemática?

Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 13 de julho de 2014

Aurinda

Estávamos em terras de Torga, num quente de Verão justo, por locais das duas estações do ano. Ia o relógio alto e vem o nosso primeiro "anjinho". Era uma senhora. Os seus bons 70 anos, cabelos já brancos, estatura baixa, cara de avó serena, mas despachada. Tinha umas mãos pequeninas e com rugas, e uma voz que apressadamente confirmou a intenção de participar da procissão da Vila. Escolhemos a melhor figura (a primeira merece sempre um prémio, talvez pela ansiedade de começar). Definimos uma Senhora das Angústias: vestido vermelho púrpura de veludo de qualidade, manto azul (quase roxo) a pôr na cabeça. Conversou sempre: perguntou como se deveria comportar, que gestos fazer, como poderia se sentar sem parecer mal. Disse que há dois ou três anos tinha tido a sorte de figurar de Senhora do Carmo, curiosamente o nome da sua Mãe. Diz que se sentiu emocionada. "Sensibilizada", usou a palavra. Eu senti as lágrimas na voz. Notava-se que era bem tratada: pele modesta "como ela", referiu, regada num discurso eloquente. Apostei ter sido professora, ou catequista, ou só uma curiosa bem criada numa terra rica de gentes com bom gosto. Gosto de Trás-os-Montes por que lá a fé é diferente, é sem artifícios, com pés no chão de filas intermináveis, de devoções notórias e de graças imensas, com lágrimas de graça e de cura. Eles são de um calor incrível como os olhos serenos da senhora que os abençoa.
Vestir anjinhos está muito além dos veludos, dos mantos, dos primórdios do teatro (uma mão no ar, a fazer um "v", ou uma cara triste "como a senhora"), ou os ancestrais da identidade de um povo que aos poucos nos fundimos. Vestir anjinhos está na Aurinda, que é o nome de batismo desta Senhora das Angústias de vestido púrpura e manto azul quase roxo que hoje preparei. Está naquele olhar tranquilo, despachado, comentador das jovens promessas da banda da terra que a sua varanda sensível viu, de manhã, enquanto estendia a roupa. A D. Aurinda fez-me o dia. Não teria sabido o seu nome se não o tivesse perguntado, como mais das vezes faço. Tocou o sino e eram já cinco horas... Ela foi-se, despachada como entrou, agora com pressa para encontrar o "Senhor". Afinal eram só para ele as maravilhas que o meus olhos viram.

Luís Gonçalves Ferreira 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O trivial e o que te faz feliz

As trivialidades são quase sempre o mais importante. É das coisas pequenas que se inunda a vida. Não há-de haver assunto entusiasmante todos os dias, mas existe um elo comum de coisas semelhantes que se partilham e sustentam a construção de uma relação. Nisso, as relações são como a felicidade: há pingas dela que são tão absolutas que te deixam anestesiado, mas a maior parte do tempo estás com os pés molhados em água velha, nas pequenas felicidades que sabes de cor e já nem valorizas.

Luís Gonçalves Ferreira

Rei Autista

Deitou a cama por baixo dele, embrulhou o cobertor, e a mão escorregou quase rente ao chão, num descaído de braço que se sentia a pensar. O dedo começa a ver um frio de serpente que o encaracola, por ele a cima, numa animalidade sem igual. Sente-se um calafrio geral e o meta-corpo encosta-se mais um pouco, até onde o ombro descaído permite. O dedo escorrega logo a seguir, toca o chão, e traz consigo o resto do corpo. O animal não desiste, mesmo sabendo que o seu peso era o causador do deslocamento que lhe poderia causar a morte, a fuga precipitada ou mesmo o fracasso de uma conspiração. Determinada, a besta enrosca mais um pouco, ergue a cabeça e estica o rabo, naquela força final de quem quer alcançar a fruta mais virtuosa da árvore da vida. O moribundo, cheio de sede, sente catucarem-se-lhe os lábios por uma suculenta sensação. Era como num leito do berço que se chupa, suga com força, sendo como demasiado óbvia a imagem da mãe que encosta o teto à boca do filho, naquela que poderia ser a sua primeira relação sexual. Destila o refresco infantil e arde a seguir. O dedo encostado ao chão comanda a mão e, juntos, tentam aniquilar o inimigo. O corpo mexe-se um enésimo para cima, e o ombro dá-se, dizendo, ao outro, que o faça também. As mãos apanham o que seria o teto e puxam-no, mas sem sucesso. O veneno era demasiado forte, a mama demasiado animal e os gestos autónomos do corpo demasiado enfraquecidos para combaterem o que quer que fosse. O ultrajante humano abre o olhos, tenta suspirar como mandam as teorias da morte, sussurrando uma espécie de pedido de ajuda. A serpente mora toda dentro dele. 
A sala depressa se enche de anciãos, templários e de mais estruturas do poder. Ali, na bagunça, e, sozinhos uns com outros, contemplam o belo que é a morte. O chefe dos que sabem escrever nos livros para memória futura diz desconhecer como se dita, em linguagem, aquele tipo de fim. O mudo que viu tudo está morto. E, morto que não esteja, não importa para nada.
Um punhal morava na goela e sabia-se, de antemão, que o Senhor gostava demasiado de si para, sozinho, ter feito uma barbaridade daquelas. Começou assim a queda cujo mundo jamais esquecerá.

Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 10 de junho de 2014

Mistério da Vida

Plano verde, um caminho de pedra e as mesas prontas para a partilha. Venho de baixo, de trazer mais uns convidados. Ou uns amigos. Talvez família, mas sei que era amor. "Onde estão?", perguntam-me, curiosos, por entre questões sobre a piscina e explicações sobre o parque. Respondo, entusiasmado, "mais a cima. Ali, são os que saltam à corda!". Aproximei-me mais um pouco e a minha mãe, de costas voltadas, com uma amiga de infância, ria-se como uma menina, saltando à corda. Ou como duas meninas ou três, pareciam um batalhão que até fiquei confuso. É a imagem mais bonita da minha vida nos últimos tempos: vi a minha mãe menina. Ela está onde sempre esteve, apesar do trabalho, das canseiras e de uma rotina que, tantas vezes, deixa planos para segundo plano. Hoje foi especialmente bom por isto e por ter a terra, as pessoas, os cantares, as mantas no chão e o verde da grama perante os olhos. Pela certeza absoluta de que a natureza, em si própria, me humaniza, pelo sentir coisas e emoções que me dá. Não haverá nada mais inteiro do que se ser a sentir. Estou cheio. Mesmo que, na ressaca de o estar, vir esta melancolia de escrever textos sobre quem nos faz falta e quem queríamos voltar a ver. No Mistério da Vida também há perdas, como há ganhos. Sobra, porém, vida, renovação nos dois sacramentos próximos da família que me fez isto que sou. Ver o Mistério da Vida na primeira bancada torna-me pleno. E a plenitude é tudo, nem que seja pelos instantes com os da chuva.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Fato escuro

Um tímido olhar que desce, camisa a baixo, quando penso na tua morte. É um silêncio perturbador que toma conta do meu luto, como o final de um enterro. Existe algo de muito familiar nestas lágrimas secas, nesta falta de tristeza e talvez nesta estúpida esperança de que alguma coisa mudasse. Mas não. Teres partido foi como teres morrido. Por mais que acredite em vida depois da morte, respeite as almas e as afeições, o meu lado analítico, lógico e crítico diz-me que morreste. Há noites em que acordo e parece que ainda há do teu perfume numa casa onde não tinhas estado. É estranho saber que a morte tem de absolutamente imenso quanto mágico: dá para tudo, desculpa tudo e responde a questões nenhumas como dá respostas a todas. Tal e qual a acreditar em deuses. O silêncio perturbador da morte transformou-se na felicidade de estar sozinho. Haverá revolta mais profunda do que essa?

Luís Gonçalves Ferreira 

terça-feira, 27 de maio de 2014

O laço

Foste o para sempre mais próximo do qual já estive. Do irremediável sabor de nem ter medo da entrega, da paixão eterna, ou da falta de lucidez de partir para um mundo sem nada na algibeira. Achei que me alimentaria do teu amor, dele retiraria frutos, vantagens e um sustento espiritual pelo qual me escusaria a partilhar como mais ninguém. Auto-suficiência da tua luz. Lembro-me de acariciar e desejar continuar a fazê-lo, por mais longe dos tempos que estivesse. Ficar ali, sentado, até que as pregas dos olhos se juntassem às das maçãs do rosto e rugas da boca escorregassem nos contornos do queixo. Lembro-me de te querer tão ardentemente que sentia a pele descolar-se do músculo e o músculo dos ossos. O febril que era o meu corpo quando tocava o teu. 
És como uma memória infantil presa num jardim onde rosas moram com espinhos. Sei do cheiro de ser eu contigo, mas já não sei do teu cheiro. Não é mais meu. Essa é a metamorfose do estar longe fisicamente: a fusão da história que, sozinha, a memória diz real.

Luís Gonçalves Ferreira