Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Amor 'ad aeternum'

Eu perdi a minha avó com 60 e achei que é-se cedo de mais. É-se sempre cedo de mais. Mesmo nas coisas básicas que terminam, todos os dias. É-se assim especialmente quando a pessoa te ensina imensas coisas, a todos os segundos. Mas perceber que esse legado do ensinamento não termina ali, com a morte do corpo, deixa-te confortável e faz-te habituar ao reajuste dos espaços que a dimensão das memórias precisa. Nunca passa. Pelos menos não passou até agora. 

Sinto imensa falta dela, todos os dias. Do cheiro, do toque, dos passeios, e menos-grave relação física que tínhamos. Não me lembro de ser muito físico, pelo menos nos afectos. Aprendi a ler olhares, a interpretar carícias, mesmo que vinda como farpas, na primeira impressão do ego. Crescer sem alguém faz-te saber que as pessoas te fazem falta: do familiar ao amigo que desapareceu. Percebes particularmente isso: que nada desaparece.

Acho que preciso mais dela nas alegrias, quando quero mostrar "Eu consegui!" e dar aquele abraço, mesmo que não existisse no palco do concreto. E faz falta quando cais em ti e percebes que o corpo já não está lá, no sítio que normalmente estava. E o corpo é importante porque tem cheiro e a memória não. Mas tem outras coisas imensas e poderosas. A maior de todas é aquela que não te faz esquecer. Nunca. Jamais. O umbilical condão do amor não o deixa. Nem nunca pode deixar.

A mulher do Miguel Esteves Cardoso, o Miguel Portas, a Maria José Nogueira Pinto, a morte prematura de um pai de uma amiga minha, fizeram-me relembrar da dor de se perder alguém cedo de mais. Existem coisas que não se percebem. O odor da morte de um parente é exemplo disso. Como que por hetero-consolo, na penumbra automática da consciência, amar é eterno. E essa é a maior devoção meta-física que o homem pode profesar. E isso acho ter certeza.

"Mas a dor não diminui. Nem a tristeza abranda. Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem." Miguel Esteves Cardoso, no Público, sobre a sua mulher Maria João e o cancro que a toma.

Luís Gonçalves Ferreira

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Das caras - entre redes sociais e a vida de todos os dias.

Quando tens alguma ideia solta ou um pensamento vago esquematizas forma de o comunicar ao mundo. A "pessoa" é, mais das vezes, uma rede social qualquer. Dar ao vazio parte de ti, é nem saber quem leu, nem quem absorveu o teu conteúdo, é tão-só reter que "alguém", por mera hipótese, o fez. E o hipotético é o suficiente, porque somos nós que importamos, na nossa carência momentânea de atenção. O mesmo acontece das músicas às frases ou aos pensamentos (teus ou dos outros) que publicas, ou vês publicar, nas magnéticas redes de informação que populam o mundo na actualidade. O gesto de carinho de dirigir o pensamento, a ideia solta ou o teu conteúdo a alguém, desapareceu. Subentendes que, da centena que consta das tuas amizades virtuais, "alguém" irá "gostar" do que partilhaste. Esse "alguém" não se representa numa pessoa, mas numa necessidade doente de validação. Uma ideia é tanto mais válida e/ou poderosa, roçando critérios de veracidade,  quanto mais "fama" obtiver. A "fama" traduz-se em processos de validação. Quando usas uma peça de roupa arrojada pensas "será que vão gostar?". Depressa corres a perguntar à melhor pessoa do mundo e aquela que sabes deter sentimentos de inveja por ti. São os testes da inconsciência à existência social do homem. É como só se saber existir pelos "sim" que até as coisas dão. E isto está para além das redes sociais ou dos virtualismos que nos regulam as teias relacionais post-modernas. É humano. 

Ao escrever este texto, para além de vos querer comunicar que abandonei o Facebook (e precisar da vossa validação ou da validação do vosso silêncio), faço-o para ter comentários maioritariamente encorajadores da minha atitude. São, portanto, carências de validação - sobre o meu comportamento - que me retêm a direcção destas linhas. Qualquer blogger, por exemplo, gosta de ser lido, comentado, apreciado, tido nas suas palavras, especialmente pelo sinal que nos é escrever publicamente. Quem exorta pontos-de-vista num local público (como este) sabe que está exposto, que vai ser lido, maxime comentado. E isto é "fama", ou exposição, ou a ideia dos célebres quinze minutos que Andy vaticinou como certos. As redes sociais, tais como as marcas de luxo, vendem uma coisa: o sonho. O sonhar que se é visto, apreciado, comentado, tido em conta. Validado. Olhado. É o que nos faz sair à rua de azul eléctrico ou, inversamente, de preto discreto: são jogos de atenção e carência.

As redes sociais restituíram o conceito de vizinhança à vida quotidiana. Numa idade citadina, fria, distante, despersonalizada, ter alguém perto, à distância de um clique, é confortável, prático, tal com o pedir ovos, azeite ou farinha quando nos faltam ingredientes para o bolo especial que tínhamos preparado. Depois surgem os problemas: "muros" em frente a janelas e mais altos que o legalmente previsto; idas ao juízo imparcial da praça pública; problemas com heranças; divisões metafóricas de direcções de partilhas; "gostos" mal interpretados; músicas falsamente direccionadas. E histórias. Embaraços tremendos, embalados em caixas de lã, que fazem da vida uma tradução de histórias mal contadas, metade delas mentira e outras tantas falsas-verdades de tanto contadas. Os vírus facebookianos, mensagens políticas, vídeos virais, tiradas polémicas, risos generalizados, são disso exemplo. Sem falar no Kony, que ninguém sabe o que é, o que se pretende, nem de onde surgiu. 

E as redes socias parecem continuar a deter esta poderosa influência sobre a vida do homem: a lhe condicionar o modus vivendi dos sentimentos, das pessoas e dos seus gostos. Como se gostar dependesse da publicidade do acto de gostar. E isto é pensar a existência ao contrário, de trás para a frente. Como se os telemóveis já não fizessem sentido e dizer "pensei em ti" fosse a coisa mais distante do mundo. Tenho saudades dos toques e da mitologia de pensar que um bip de 1 segundo significava tamanhas coisas.

Luís Gonçalves Ferreira

PS.: Queria ter Facebook para partilhar este texto, por achá-lo bem escrito, coerente e útil à vida das pessoas. Não o tenho. Detenho-me na esperança de ser lido, comentado e de achar que poderá ser prazeroso a alguém. É de validação que falo, mas eu não o escondo. Espero que vocês também não.

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Estou desinspirado, mas apetecia-me escrever qualquer coisa. E é este o maior vazio de que tenho medo: o do silêncio. 

De hoje até à Páscoa, por domingos, Jesus vai morrendo. 


Luís Gonçalves Ferreira

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Catorze

Estás deitado ao meu lado, no corte da respiração dos nossos corpos. O teu cheiro destila-me as memórias e faz-me gravar outras tantas. E nenhuma delas controlo. Não há nada melhor do que estar intensamente apaixonado: os nossos sentidos tornam-se clichés em cortejo, presos em tempos que não são iguais aos das pessoas normais. É dia quinze de janeiro, mas apetece-me gravar a moldura aos catorze. Sim, a vontade é importante. E nesta coisa das relações é o fundamental: não controlas o início, nem os pormenores metafísicos da química, mas estás no fio-da-navalha que é o presente. Traças rumos, arquitectas futuros e sonhas. E sonhar é a melhor coisa do mundo. Não é que veja o mundo a cores, mas recuso-me a vê-lo a preto e branco. O teu calor, colado ao braço que escreve, prova-me isso. Provas-me muitas coisas, diariamente, mesmo nas negatividades que tudo o que é positivo tem. Que tudo o que é positivo tem. Gravo-te o tempo nesta última legenda: que tudo o que é positivo tem.  E adiciono areia ao nosso relógio do tempo. Deixo-o correr permitindo-o correr. E não controlo, porque já perdi esse condão.

E, aos catorze, entre o meu e o teu nascimento, dá-se o renascimento, nas paredes da simbologia que as minhas metáforas te permitem analisar. E isso descreve-nos: um misto delicioso entre a emoção e a razão. Que o equilíbrio dure muito tempo, mesmo que o contra-balanço tema o excesso de medida, de peso.

Tinha que escrever isto. Para ti.

Luís Gonçalves Ferreira

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Aos vinte e dois. 15/12.

Não são os 22, D., é a soma do "mais um", o recordar tudo o que isso significa e o assimilar que já passou mais um ano.

E é isto o resumo dos 22: recordação, assimilação e soma. E talvez seja só para isso que o tempo releve, pois o fundamental é transversal à ciência, à lógica ou ao peso da matemática: está cá, como aí, ó tu que me lês.

Tenho saudades tuas, avó. É isso que me apetecia dizer-te agora, se pudesse. Este dia é teu também, na maioria, desde que partiste, faz tempo (perdi-lhe o tacto, o contacto, mas sei que tenho saudades). E é da mãe. (Parabéns mãe). Do sorriso dos teus olhos, que vejo ao espelho, pelos meus, sei onde estás, para onde queres que vá e onde estão as fronteiras eternas do teu carinho.

E um obrigado. Aos que continuam cá.
E um tenho pena, mas sei que fiz o correcto. Aos que permiti que partissem. 
E um adeus. A quem morreu, porque se suicidou e se fez pó, voluntariamente.
E um amo-te. A quem o quiser ouvir; A quem sentir ouvir; E a quem não ouve, mas sente, porque sabe que existe ou existiu. E o amor não desaparece, transforma-se, sem deixar de o ser, na essência. 

Vocês são uma soma; uma ponderação inteligente, prática, mas irracional. Não escolhi amar-vos, nem querer-vos, porque não imaginei sentir força, carinho, conforto ou vontade de estar na vossa companhia. Como não me permitiram querer do vosso sangue ou dos vossos valores. Sou vosso, por propriedade, pertença, direito divino. E sou meu, em pleno, mesmo sabendo que sou de todos, em simultâneo. E não há nada mais compensador do que isto: ter consciência que, sem outros, o "eu" era vazio e a existência não seria mais que umas silenciosas teclas rebatidas por meus pesados dedos. 

Luís Gonçalves Ferreira