segunda-feira, 9 de julho de 2018

aos anjinhos nas procissões -


Poucas coisas na vida me satisfazem tanto como trabalhar neste regaço em caí por simples acaso. A minha mãe podia ser operária fabril ou médica; podia ter sido outra coisa qualquer - assim como a minha avó; podia não gostar tanto deste trabalho. Mas não: as nossas vidas são de cetim e com cheiro a veludo. Esta fotografia fala de todos estes azuis.

Luís Gonçalves Ferreira

Propriedade

Quando compro ou me oferecem um livro, tenho o hábito de lhe escrever o meu nome e o ano. Não existe um sítio específico onde faça questão de o gravar, mas tento interferir o menos possível na estética e na semiótica própria do livro; há, quase sempre, uma hesitação na gestão de espaço disponível (que nem sempre é pacífica). Sinto que não devo contaminar os agradecimentos e escrever na página de rosto parece uma violação do património antropológico que o livro guarda em si mesmo. Restam poucas opções, porque escrever-lhe entre as palavras está completamente fora de questão.

Na verdade, as relações de propriedade e, portanto, as relações de poder, implicam sempre cedências e gestão de espaços, de expetativas, mas sobretudo de silêncios. Os silêncios, nos livros, são os espaços brancos e é neles que cabem as (possíveis) marcações que, logo à partida e sem ler, faço questão de introduzir nos meus livros. As relações de poder nos livros, como em todos os contextos, implicam gestão de egos e um determinado cerimonial - o poder precisa de ser sentido. No caso, entre o escritor, o impressor, o livro enquanto material e a minha estante, há conjunto enorme de significados que estão muito para além do que o livro informa, diz, relata, denuncia ou transcreve. Há também o significado atribuído por quem nos oferece o livro ou que simplesmente o relata numa conversa regada com um (bom) copo de vinho. No Carne e Pedra do Sennett, que motiva este pequeno texto, fiquei-me no topo do sumário, logo a seguir à dedicatória: a uma tal Hilary. Teoricamente, os livros das bibliotecas são de todos e por isso não podem ser riscados, mas quantos rabiscos de outros não nos condicionaram raciocínios?

Não há grande regra nisso de escrevinhar coisas nossas em livros dos outros. Eu risco e anoto e corto partes do texto; faço setas daqui para ali; remeto para outras páginas e outros livros; mando aquelas ou outras palavras para outras propriedades, por entre outros espaços e outros tempos e outras noções de poder. Os livros mais incríveis são os mais riscados; os aborrecidos são os que não têm nada meu. Que seja a apropriação uma missão de reconhecimento, mas também uma sinalização do conhecimento: uma proporcionalidade direta entre aquisições, os seus usos e as noções de tempo, espaço e poder. Ad contrarium - ou na tentativa - as academias citam: as mesmas ramificações, mas nem sempre com a mesma profundidade. Só não gosto do meu segundo nome e os anos pares fadam-me má sorte.

Luís Gonçalves Ferreira, 7 de julho

nuvem

Chega o silêncio e a porta fecha devagarinho como um potro inocente. Ainda sei aquelas mãos escorregarem no corrimão e as pernas pequeninas perdidas pelas escadas. O trabalho sobe aos braços e a chave roda na solidão de sempre. É junho e uma cicatriz tremenda está na linha do horizonte; como se fosse um raio de luz acordado na manhã errada. Era provavelmente terça-feira e a máquina que descobre monstros rodava, rodava e rodava e fazia um barulho tremendo e assustador. Pequenino, cheio de medo, rezava; para que as raízes estivessem quietas no fundo da barriga. Bastariam uns dias para que a vida entrasse num escorrega tremendo, cheio de curvas, para nunca mais se endireitar; como crianças gritando num tubo amarelo. A costela nunca mais foi a mesma e o azul, minha cor favorita, fez-se um pouco mais cinzento. O relógio bate certo e os gritos no corredor apelam à injustiça de a vida não ser aquilo que se quer que seja. Morremos da nossa bem-aventurança e já não estou da parte de fora das contas que outrora fiz.

Luís Gonçalves Ferreira, 1 de junho de 2018

Chegada a Santorini

Os gregos inventaram a democracia e os romanos um sistema burocrático de império governável à distância. Os medievos revolucionaram o aproveitamento da energia hidráulica, criaram o género no vestuário e o relógio. Os modernos fundearam a civilidade e a privatização. Os contemporâneos deram ao mundo a máquina a vapor, a lâmpada, a medicina moderna e o computador. O pós-modernismo (ou lá o tempo em que vivemos) democratizou a internet e o acesso aos céus. O tempo é elástico, mas este progresso que nos parece constante talvez não o seja. Tenho a certeza que se um grego antigo conseguisse ver Santorini dos céus ter-se-ia louvado por Zeus; talvez tivesse aproveitado a vantagem para fazer uma ditadura ou ganhar uma guerra; ou, por agradecimento, houvesse mandado erguer um templo. O acesso ao novo, a procura incansável pela validação e distinção em relação ao outro garantiram o nosso progresso; não necessariamente positivo; não necessariamente constante; as novas tecnologias tornam tudo mais nítido e rápido. A sociedade do instantâneo e do volátil; o eu da sedução num outro do desejo. Serão os pássaros de metal cultura material de tudo isto? Certo é que o azul deste mar parece bem mais longo e perfeito do que as pernas de um qualquer colosso rodiano às portas da Nova Iorque.

Luís Gonçalves Ferreira, 24 de maio de 2018

sobre os setenta anos do Estado de Israel

"Na Segunda Guerra Mundial, a comunidade judaica deste país contribuiu por completo com as nações que amam a paz e a liberdade contra as forças da tirania nazi e, com o sangue de seus soldados e dos seus esforços de guerra, ganhou o direito de ser reconhecida entre os povos que fundaram as Nações Unidas."

Este é um dos parágrafos da Declaração de Independência de Israel, assinada em 14 de maio de 1948, há exatamente 70 anos. Em resposta, os vizinhos, que não se reviam no local, ocasião nem princípios que fizeram da Palestina o destino dos judeus, iniciaram uma das múltiplas guerras locais que Israel acabaria por vencer. Injetado na veia das vítimas, Israel tornou-se num incrível caso de análise para a psicologia clínica, naquela teoria de que antigas vítimas são potenciais agressores. O acontecimento de 1948 poderia ser lido como o preço que as nações regionais pagaram à fatura do direito à autodeterminação que, de forma indireta, também os tinha beneficiado pelo desmantelamento do Império Otomano, em 1918. Hoje, à luz do direito de sermos quem queremos ser, Israel festeja a sua vitória na Eurovisão e vê os americanos transferirem a sua embaixada para Jerusalém. Enquanto isso, o desastre humanitário da Faixa de Gaza e o problema dos colonatos não é discutido internacionalmente, especialmente irrelevante perante o escambo da Coreia pelo Irão. Todas estas lógicas de poder parecem ironicamente silenciosas e paulatinas, numa espécie de corpo doente nas múltiplas metastases do discurso do ódio e do nacionalismo. O mesmo nacionalismo e o mesmo discurso de ódio que, no passado, matou milhões de judeus, homossexuais, ciganos e deficientes, e que, até hoje, nos faz pedir desculpas e erguer memoriais, esquecendo todos os "outros" escondidos por detrás de uma memória forte, infiltrada desde o grande capital até à mais alta diplomacia.

Resta-nos saber qual o preço que todos iremos pagar por esta conveniência de agendas que faz do simbólico o que realmente comove e desvia as atenções; de uma forma ou de outra, a civilização ocidental celebra, mediaticamente, os 70 anos de Israel. O tudo pelo que passamos não justifica o tudo que podemos fazer. Talvez o maior ensinamento de tudo isto esteja nas tantas desculpas que pedimos para as vezes em que realmente falhamos.

Luís Gonçalves Ferreira, 14 de maio de 2018

Das asas da Carolina (e ao senhor Fernando)*

A Carolina Deslandes tem uma música chamada Adeus Amor Adeus. É capicua e uma despedida muito bonita que repete adeus, (a)deus, adeus, num grito que talvez mudo, e promete um qualquer dia com o que há de bonito no mundo. Não é claramente sobre um só tipo de amor e às vezes faz lembrar uma quase-despedida, como aquela que, nas margens do rio Minho, no silêncio fizemos. O bicho rouba-nos pessoas que amámos profundamente; que nos acompanharam desde pequeninos. Há segredos que aquele vento do rio Minho levou para além da ponte que, ao longe, víamos. A água é um batismo e a música é o bálsamo. 
Até um dia... canta a Carolina que tem nome de arroz e escreveu um poema musicado nas asas de um anjo. Um outro adeus, branco e quentinho, feito até já; espero e rezo, em silêncio; Amor.

*texto escrito em 26 de abril de 2018. Algumas semanas depois, o senhor Fernando faleceu. O vento do rio Minho tinha razão. 

Luís Gonçalves Ferreira 

à mamã

Conhecemo-nos há muito tempo, mas há partes da minha mãe que ainda não conheço muito bem. Tem os olhos mais bonitos que já vi e escora-me todos os dias, mesmo no silêncio imenso que às vezes se mete entre nós. A minha mãe não é, em nenhuma parte da nossa história, minha amiga: é minha mãe com toda a propriedade e o respeito que isso acarreta. Vejo essa disciplina em todos os sítios em que estou e naqueles para que sou convocado a estar. A minha mãe tem o coração mais bonito que conheço, tantas vezes mal-tratado e pouco compreendido; ensinou-me a ser o que devo ser, nos diversos contextos. Auxilia-me e ampara-me, especialmente quando mais preciso e sinto mais desprotegido. É a ela e ao meu pai que devo o profundo sentimento de família que, com um só olhar, fito os olhos das minhas três irmãs.
Há muito da minha mãe que me lembra da minha avó e muito da minha avó que está na minha mãe: vejo-o todos os dias, sem que isso seja um peso para qualquer das partes. A confusão não fui eu quem a fez, mas sim o tempo quando, noutros ventres, praticamente as fundiu no mesmo natal. Não acredito que todas estas coisas aconteçam por acaso; como não é acaso estar aqui, agora, nestes vinte e oito tirados a ferro e fogo. Pela primeira vez na minha vida sinto-me numa batalha que gira numa roda dentada; não há óleo que me valha nem a mínima previsão que tenha pena a se realizar. O único leito que nos fica, em todas as ocasiões da vida, especialmente nas mais difíceis, é a alcova do amor. Tenho a sorte de, ao meu lado, encontrar uma força de inspiração tremenda que me nivela e me faz crescer; mesmo duvidando dos compromissos e de alguns rabiscos; mesmo sabendo que existem caminhos sem retorno; mesmo amando em silêncio, sem voz ou contrabaixo, nesta orquestra sem direcção plena e cheia de pausas para cafés e sonhos acordados.
É dia 17 de abril e a minha mãe faz o seu aniversário. Dar-lhe estas palavras é, por isto, agradecer com o que de mais bonito sei fazer, nos humores que me caracterizam por estes salões em que se paramentam anjos carmesim.

Luís Gonçalves Ferreira, 17 de abril de 2018 
A ausência de padrão é um padrão?

- Luís Gonçalves Ferreira, 16 de abril de 2018

segunda-feira, 12 de março de 2018

Touradas

Os seres humanos quando se enfrentam são como animais galantes: as mãos são os chifres, a boca grunhe uns insultos e os pés equilibram o epicentro, porque a queda dita a perda. Não quero com isto dizer que as lutas são irracionais ou que os animais não conseguem pensar; não é isso. Quero dizer que hoje vi dois touros a baterem-se na minha frente. O teatro acabou depois de um deles ter dito ao outro para não voltar a falar na sua mãe. Freud teria muito a dizer sobre isto e o Saramago escreveu bonitos textos de esquerda sobre as touradas. Por estas coisas desconfio de pessoas dos signos com chifres. 

Como no reino animal, há forças e forças; há pessoas e pessoas. Os gregos desenhavam homens a superar touros. Há dias em que a razão disciplina os impulsos do corpo e outros dias há em que a razão atrapalha os impulsos do corpo. Volta e meia, a espada falha e o toureiro fica com um corno no ventre e sangra para a morte: como os touros filhos de uma tal mãe cujo nome ouvi grunhir hoje de tarde. A sorte é que todos temos uma mãe para insultar e uns chifres para usar.

Luís Gonçalves Ferreira

In nomine domini


Naquele dia, quando cruzei a noite e segui as direções à sua casa, não acreditava no que via. Jesus nazareno estava sentado, junto à janela, com um manto de linho pousado sobre os ombros. Fiquei uns tempos a olhá-lo, no entretanto que pedi a Marta ao não me anunciar. Havia uma parte de mim que morava ali, no colo do Mestre, mas outra que levitava nas ruas dos judeus do meu tempo; era um fariseu e tinha as minhas responsabilidades. Estava a escassos segundos de conhecer o verdadeiro filho do Homem. Sentia uma mistura de coragem e audácia, numa política do não-retorno. Escolhi seguir.

Recordo-me, passados estes tempos, que Jesus dito Cristo me falou em trevas, luz, visão e na possibilidade de se nascer de novo, mesmo não sabendo de onde vem o vento apesar de saber que é vento. Lembro-me, ainda hoje, das coisas todas que me disse e entendo ter percebido uma pequena parte. Aquele distinto homem miraculoso, que fez da terra de Israel um alvoroço, não era um simples ser com um pano de linho sobre os ombros. De feição morena, cabelos mal-tratados e de olhos cor-de-mel, Jesus mexia a sua boca entre os dentes, o céu-da-boca e o meandro da língua; espécie de transe. O que mais me angustia, depois de o ter sabido morto na cruz e escarrado no sagrado caminho, é ver que, depois do Templo ter sido destruído, há uma poeira densa que habitou este mundo; infâmia e inglória. Sinto uma angústia tremenda dentro de mim, porque soube, através de Marta, que o túmulo foi encontrado vazio e que os seus apóstolos estão em missão.

A semente do Jesus, que vi naquela noite olhando a luz divina pela janela de linho, está na terra. Há uma mensagem de profundo amor que guardo no meu peito e uma mensagem de esperança, ao recordar o seu rosto e a sua boca dizendo-me suas milagrosas palavras. Apesar da poeira, parece haver um novo tempo em formação. Como se das pedras viesse a água e das trevas houvesse luz; como se, verdadeiramente, se pudesse viver de novo. Há todo um mistério no meu peito depois daquele dia; por isso, ajudei Arimateia nos recursos ao sepulcro.

Marta levou-me a casa de Maria, a mãe de Jesus, e nas suas mãos e olhos e ouvidos senti ressurreição da carne. Todos vão ter com ela, agora que o cordeiro de Deus foi feito sangue na oferta sacramental aos céus; ela é a prece e um caminho lúcido para se chegar ao verbo. Isto é renascer e era sobre isto que falava Jesus naquela noite secreta em que meus olhos pousaram em suas palavras. São vento que vai e vento que volta.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A Vitorinha e as suas histórias

Hoje a Vitorinha disse-me que pede ao Senhor, todos os dias, que a leve para junto dos seus pais. Também me disse que não tira as medidas aos anjinhos na sala de baixo da sua casa, porque lhe lembra o pai morto no caixão. Falou muito da mãe, dos irmãos e da companhia que escolheu como vida. A Vitorinha pediu a morte à minha frente, enquanto andamos todos a milhares de quilómetros por hora, especializados em pedir aos outros e ser egoístas. A solidão será muito próxima disto, num entra e vai das refeições, Deus ou da presença infinita da morte que não chega. A Vitorinha vai à missa todos os dias e repete as mesmas histórias de todas as vezes que está comigo; hoje tinha uma história nova para contar, porque cegou da vista e lembrou-se, aos 83 anos, de, em pequena, ter qualquer limitação suficiente para chamá-la para mais perto da lição. A Vitorinha, que mora junto à Sé de Braga, sintetiza muitas coisas de que não gosto na civilização minha contemporânea. Uma delas, é a existência de uma cidade moderna, jovem e egocêntrica que, noutros tempos, foi necessariamente algo mais pequeno e doméstico, cujo destino abandonaria mais lentamente as pessoas ao abandono consentido. Como se crescer nos membros fizesse chegar menos sangue às suas extremidades; disfunção como fatura pela desmesura. 
O tempo tem segredos infindáveis e a falta de apoio, de suporte, de amparo e a exposição à pobreza que a cidade significa far-me-ão querer regressar para junto de um limoeiro. Lá, numa aldeia, certamente encontrarei outro registo do tempo, necessariamente mais acompanhado mesmo que provavelmente menos cómodo. Fosse tudo isto sobre ter e ser e alguém já teria dado alguma coisa à Vitorinha para fazer da sua velhice um sítio de maior dignidade.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ensaios

Ficaria por trezentos anos observando esta fotografia, se por esse tempo meus olhos e discernimento a ele sobrevivessem. Vejo nela o retrato da minha mãe, ao meu lado orgulhosa, e o da minha avó, em muito saudosa. Fico parado naquele dorso, em Espanha, entre mares e canoas salgadas pelo mar mais calmo em que hoje se afogam vidas; naquele pequenino apartamento. Ficaria tempos infinitos vendo fotografias, contemplando sonhos, anexando semelhanças e verosimilhanças dos traços que o acaso plantou. Passo tempos, em jantares de família, a ver os sorrisos e a contemplar os silêncios das ausências. Tenho, talvez por isso, uma tristeza cabisbaixa que se agrafa à forma positiva e radical com que os olhos que querem durar trezentos anos veem o mundo; profunda alegria. Mesmo que com desalentos e partidas, da vida somente fica o amor e a saudade; como se o tempo corresse a uma velocidade maior do que os batimentos cardíacos da própria memória e nunca chegasse a ter pressa suficiente para paralisar coisa alguma. 
Ficaria trezentos anos contemplando esta fotografia. Talvez a eternidade apenas exista, porventura, como a maior escravatura consentida a que alguém se pode enviar. Dizia que, mesmo depois de morto, Saramago me ensina muitas coisas: uma delas é de que a compaixão é o sentimento mais bonito do ser humano, como aquele cão das lágrimas no Ensaio Sobre a Cegueira. 
Jamais no ceguemos naquilo que chamamos de coração enquanto raiz à nossa natureza.

Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

À Mafalda

Chama-se Mafalda, mas podia ser perfeitamente outro nome qualquer. Lógico será que viverá e será sempre Mafalda, porque se vai convencer disso ao ser chamada assim a vida toda. A vida toda: o nome tem essa dimensão temporal; uma espécie de companhia e amor para a vida toda. Mas, ao escrever este texto sobre como é ser tio a segunda vez, queria dizer à Mafalda que ela é, antes de ser o nome que tem, a espera e a ansiedade carinhosa da minha irmã Júlia e do pai, o Xavier. Vi-os, durante a expectativa que foram os nove meses de chegada, preocupados em construir o sítio que a receberá amanhã, quando chegar ao lar que conhecerá esta nova dimensão, claramente mais ampla e grandiosa, e sobre o qual já escrevi. Escrevi sobre a Mafalda mesmo antes de pegar nela ao colo; mesmo antes de ver que o vi hoje. Escrevi sobre a Mafalda escrevendo sobre o amor que a gerou, esperou e, agora, recebe; chamou-se Pretérito mais que perfeito. 
A Mafalda é por isso amor, antes de outro nome qualquer; mas nós não nos podemos chamar todos da mesma maneira e por isso é que ela é Mafalda. É, neste momento, o início e uma chegada. Hoje, quando devolvi a bebé ao leito da minha irmã, vi-a amolecida e vulnerável; como nunca assisti antes, porque a Júlia sempre foi sinal de um rochedo intransponível e infragmentável. 
A fragilidade é, neste sentido, a dimensão mais natural do ser humano. Vi-a na minha irmã, no Xavier e na Mafalda. E vejo-a em mim, quando as lágrimas me tropeçam ao escrever este texto que, um dia, imagino ser lido por quem de direito. Queria que ela soubesse que, tal e qual a Francisca, a chegada dela faz-se presença no meio de um mar gigante de sentimentos. Quero vê-la crescer e saber-nos a crescer por meio dela. Gostava também que, neste processo de simbiose e comparação, ela se sinta única pelo contexto em que chega, especialmente para mim, numa altura em que diversas angústias, medos e esperanças se guardam no meu coração.
Hoje, no quarto do hospital, no meio de toda a materialidade que nos torna mais individualistas, assisti a ao fechamento de uma trindade miraculosa de amor genuíno. Frágil e puro; natural e autêntico; animal e fortalecido.
Um rochedo que, finalmente, brota água cristalina de esperança. Mafalda é vida e é essa força cujos vindouros tornarão mais lastra no mesmo caminho.

Luís Gonçalves Ferreira 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Roma em dezembro

Gostava de vos escrever observações muito pertinentes sobre o que estou a ver em Roma, mas não consigo. A cidade gera um vazio; uma espécie de nostalgia, de silêncio... um apagão emotivo.
Quando cheguei à Galleria Borghese e vi que tinha à minha espera uma Mostra Bernini (que termina em fevereiro de 2018) mal podia acreditar... Cada Caravaggio que vejo é um murro no estômago... A Dafne linda, deslumbrante, fugitiva ou aquele sítio onde o Hermafrodito dorme; como é possível dar vida a tecido e botões em mármore? Como? Os frescos do Gesú e o baldaquino de São Pedro do Vaticano... Roma é um compósito, um arame farpado, uma espécie de síntese onde várias das minhas últimas dúvidas esbatem no segundo em que se enrolam em si mesmas. 
Perguntei-me onde estaria a República nesta renovação de heranças históricas, coabitando com o Império, o Papado e a Monarquia nacional. Creio saber uma resposta que vou ver confirmar amanhã; vi-a do autocarro, quando regressava da Fontana di Trevi. Itália faz tanto sentido nesta falta de sentido, porque isto que vejo não é senão uma imagem capital de algo muito maior que as partes. 
Roma é um compósito e tem estratos; é uma apagão e é uma intensidade. É... nostálgica e só; em cacos.

Luís Gonçalves Ferreira

Natal de ante-véspera

O natal é um tempo em que as faltas regressam vindas do fim do mundo como cavalos negros cheios de ganas para vencer a corrida. Hoje, em Vila do Conde, as lágrimas descontroladas da saudade de alguém fizeram-me lembrar dos natais tão difíceis que passamos, em família, após a partida da minha avó; como do momento, há um par de anos, em que um embrulho destapou o rosto saudoso gravado a carvão e todos nos acantonamos, chorando cada um por si, no sítio mais escondido quanto possível: como animais morrendo longe dos perigos. 
O natal é como dióspiro por amadurecer, mas não foi sempre assim... alturas houve, quando o corpo estava menos maduro e o coração sem estes calos, que era só luz branca; talvez seja a saudade e a falta o principal sentido da união familiar e, assim, do próprio natal conforme o entendemos; como o menino pequenino tão longe como tão perto dos braços quentes da mãe.

Luís Gonçalves Ferreira

A luz da minha cozinha

O que de mais bonito existe em minha casa é a luz que entra pelas janelas da cozinha durante a manhã. Saio do quarto meio que triste, pensativo, ensonado, e encontro nas janelas da cozinha algum tipo de conforto. A luz é bonita mesmo que não exista sol.
A luz que entra pela cozinha é a mais bonita das coisas que esta casa tem: à frente dos quadros e as peças velhas que colecciono. O meu gosto pelo velho no tempo presente; numa síntese do espírito...
A luz da minha cozinha ganha mais sentido quando me disponho a vê-la, especialmente nos dias em que custa a desligar da cama e enfrentar. Enfrentar: que nem aqueles ignorantes fazem aos touros, em pleno estado de civilização avançado, ainda precisando demostrar que o ser humano é o mais forte dos seres animados; que os supera e domina; que tem a estratégia do seu lado, nesse eterno conflito da razão e da emoção. A luz da minha cozinha é como a adrenalina masculina esbarrada nos cornos de um bicho; mas aqui o risco é pouco: não há necessidade de cortar nada para enviar a morte para longe; de transpor seguro; de reduzir a emoção ao mínimo possível para atingir a comoção alheia.
Talvez sejam as janelas a prova dessa instância performática do nosso privado mais profundo; talvez seja a luz a adrenalina que nos manda para cima da besta; seja talvez a força que nos faz falta. O vidro bate na chuva e impede-a de ganhar a luta pela qual ela mesma se debate.
"Só nos podem magoar as pedras".

Luís Gonçalves Ferreira

Preto e feminismo no nosso tempo

Não sei se já se questionaram, a propósito da iniciativa da Time's Up, do porquê da escolha do preto. Confesso que é algo que me incomoda, especialmente numa fase da minha vida em que leio sobre roupa e cor, nesse âmbito da produção de sentidos através do que vestimos, enquanto plataforma de linguagem, mas também de confluência da economia, da indústria e das disponibilidades (financeiras, ideológicas, sensoriais).

O preto não é certamente inocente e, digamos, é a cor mais conveniente: é o tom típico do smoking, roupa burguesa que preconiza o afastamento do homem moderno em relação aos luxos do Antigo Regime, em função de uma mente liberta, concentrada nos alvores racionais da luz fria mormente afastado do luxo áulico, triunfal e magnético do vermelho, do amarelo e do azul. A cor ácida, magnética, sólida, cheia, é o excesso nos espelhos barrocos, que multiplicam a ilusão dos sentidos nos canotilhos, sedas e veludos, nas perucas e nos postiços. É de engano que se adornavam as igrejas, os palácios, os altares, contra os suores mundanos cravados pela máquina a vapor.

A cor preta - que é usada em favor das mulheres - não causa, por isso, transtorno aos homens, pois a maioria deles já usaria um fraque ou um fato negro, por formalismo e conveniência da forma contemporânea do masculino se apresentar formal. O preto é, por isso, linguagem do estereótipo masculino e o protagonismo da iniciativa só ganha sentido porque todas as mulheres, na exuberância dos seus decotes, curvas, do fetichismo machista da moda, do consumo, aceitam e se covalidam no que as mentes dos homens especificamente lhes direccionam como os produtos do vulgar, do aparente, do audaz e do material. As mulheres são as figuras da Eva, da vaidade, do terreno...

O preto só tem este impacto porque as indústrias - a do entretenimento, a da moda, a do cinema, a do capital financeiro - (e os homens) assim o entenderam. Se a proposta fosse vestir o vermelho ou o verde ou o rosa, o impacto não seria o mesmo: não são essas cores masculinas, condizentes com a sobriedade e o rigor do poder, do dinheiro e do capital; talvez apenas o azul - e só o azul - tivesse servido o mesmo propósito. 
O preto é a cor da falta de compromisso, da transparência, mas, também, da reivindicação. Era assim pensado, na luz do renascimento, quando o preto veste a nova ortodoxia de Erasmo de Roterdão, Martino Lutero, Calvino, D. João III ou Filipe II de Espanha, como o foi, no século XIX, quando vestiu o homem citadino, burguês, moderno e embrenhado da "aufklärung", preconizado no dandy. A mulher era, para o romantismo, bela, autêntica, um poço de virtudes, que deveria ser, por isso, agasalhada e protegida, porque a família era a pedra angular do progresso. Enquanto a moda do homem estatizou no preto do casaco, a moda feminina, entre o corte do império e o design neo-gótico dos decotes, manteve-se oscilante, numa metamorfose quase industrial dos têxteis de algodão. Nos alvores da modernidade, a mulher enfermava de todas as desvirtudes da humanidade, tendo sido castigada, com as dores do parto, pelo pecado original; restava-lhe o caminho da bem-aventurança familiar, rezando, fiando e tecendo, cuidando do lar; as mulheres públicas eram as mal-vistas, as que fugiam do controlo pela honra; o homem ouvia-a no confessionário e na morte.

Hoje, neste tempo sem uma legenda histórica fixa, em que as mulheres se manifestam nas entrelinhas de uma narrativa (ainda) maioritariamente masculina, falta ainda dialogar com as pares, encontrar o diálogo, mandar o sistema paternalista de validação normativa (e a Chanel e a Dior) à fava, e vestir verde ou o amarelo ou lavanda, mesmo que todos os homens continuem a usar o preto. Neste aspeto, a manifestação nos Globos de Ouro do ano de 2018 é sintomática do sítio onde nós vivemos: uma massa homogénea de gente, sujeita à mediatização fácil, à normalização aparente, onde ninguém é trans-nada querendo ser trans-tudo; fazemos performance nos nossos confortos e lugares comuns e temos, maxime, uma opinião pública determinada muito longe da nossa racionalidade aparente. É, afinal das contas, sobre identidade que falamos e o preto, pela transparência sólida que significa (expondo e escondendo), fica-nos bem e nunca nos compromete.
Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

HIM

O Sam Smith escreveu uma música chamada HIM que me comove muito, porque é uma espécie de uma carta aberta a deus; às vezes parece que os lgbti, para serem lgbti, têm que estar divorciados da sua fé monolítica e preconceituosa. Se deus é uma criação de amor fraterno e puro e cheio de pessoas dentro, não faz sentido que não se possa ser feliz no colo de deus. Mesmo que no colo de deus estejam vários homens e/ou mulheres de géneros iguais. Um dia quando casar com o meu sol gostava que tocasse e se escutasse HIM; ou outra carta qualquer, que um dia espero ter coragem de escrever. Mesmo que não seja numa igreja ou num templo, vou fazer um altarzinho simples em que me possa ajoelhar e agradecer ter encontrado uma luz e um colinho confortável onde ficar o resto da minha vida. Afinal de contas, foi o próprio Cristo que rezou num monte sem tijolos nem pedras; foi Cristo que ensinou ao fariseu como nascer de novo. 
Sejamos Nicodemos e rezemos no jardim com Ele.

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 3 de dezembro de 2017

Conduzir com auscultadores, comer com auscultadores, namorar com auscultadores, estudar com auscultadores... Que raio de barulho tem o silêncio que os deixa tão incomodados?

sábado, 2 de dezembro de 2017

[amor em 2013]

Coisas contra nós:
- Eu não sei inglês, nem consigo ter conversas contigo que ninguém perceba, dessa forma;
- Eu não sou perito em filmes, nem em séries, e não temos esse tema como assunto;
- Eu não tenho a tua cultura musical;
- Eu falo de mais;
- Eu gosto de política e moda; tu não;
- Eu não sou alto, nem tenho olhos claros, nem tenho a auto-estima que tu querias que tivesse;
- Eu não sou o arquétipo das masculinidade, como tu gostas;
- Eu não sou ele, como tu gostavas que eu fosse.

Coisas a nosso favor:
- Eu amo-te.

Luís Gonçalves Ferreira

Ps.: Escrito em 12 de março de 2013 e resgatado dos rascunhos em 2017. Há coisas bonitas na sua simplicidade. Esta é, por certo, uma delas. Lembro-me como era profundamente verdade, no sentidos dos meus sentimentos ao tempo. A respeito, é sempre bom recordar que o amor é um compromisso isolado cujas estórias se encadeiam nas do outro; dentro de essas narrativas o sucesso encontra-se nos pontos comuns, como quando cruzamos cores primárias para construir complexos padrões. É isso. O amor é complexo, porque é uma narrativa.

Ps. 2: das coisas que mais gosto no meu blogue é da secção dos rascunhos: do que optei por não publicar, ora por ser demasiado íntimo ou por não ser oportuno revelar ou por não estar suficientemente bom. em 2013 escrevi uma espécie de uma lista de coisas de prós e contras em função da relação que tentava erguer, ao tempo. há algo de muito belo na simplicidade. especialmente em peças como esta, que hoje retirei dos rascunhos, no sentido de produzir uma reflexão pessoal sobre as "estórias" que vamos construindo com o outro (e em relação a ele). o amor é uma construção íntima e tem uma dimensão unilateral fundamental; instância narrativa, criativa e algo livre. o sucesso talvez dependa da capacidade de se transpor dessa circunstância privada para uma dimensão pública. há relações que crescem, vingam e terminam sem amadurecer esse culto do espelho, da imagem, do outro. o verbo é um compromisso e falar deixa-nos com as fortalezas a céu-aberto. chamei-lhe amor em 2013 e, de propósito, coloquei entre parêntesis rectos.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Margarita

As pessoas que estudam ou estudaram na Universidade do Minho, e que, por necessidade, vão aos Serviços Académicos, não conseguem passar indiferentes à disponibilidade, simpatia, empatia da conhecedora funcionária Margarita Oliveira. Parece que não há ali mais ninguém, apesar de, certamente, os serviços estarem cheios de funcionários competentes e informados quanto ela. Mas ninguém trabalha com a mesma leveza e o mesmo amor em relação a funções aparentemente tão aborrecidas. É assim que os outros tratam; mas ela não.

Em 2014, quando tomei a decisão de tentar a minha sorte, fora do prazo para as transferências, sem saber que nesse mesmo dias saiam os resultados ordinários, foi Margarita que me atendeu. Perguntei-lhe como se tramitava e disse-me que as hipóteses de escolha eram muito poucas. Pediu-me uma ideia de cursos que gostava de frequentar e, desprevenido de melhor memória, lembro-me de ter atirado Psicologia e História. Depois de visto, tinha uma vaga ali, vazia, talvez à minha espera. Inscrevi-me e esperei até meados de Novembro para saber o resultado.

Dali à inscrição e frequência foi um salto, sendo que cheguei às aulas a dois dias do primeiro teste da licenciatura, na altura de Civilizações Antigas. Falei com o professor sobre a minha situação, tendo-me demonstrado a simpatia de um "paciência, estude". Talvez tenha sido isso que me fez amarrar os primeiros apontamentos que consegui arranjar e preparar-me - sem perceber nada daquilo! - para aquele primeiro passo. Tive a segunda melhor nota da turma e creio ter visto os dados lançados.

Passaram três anos de uma entrega absoluta e apaixonante, onde não apenas recuperei o meu ânimo, mas também rejuvenesci intelectualmente. Reativei a minha auto-estima e senti que cheguei ao sítio que me esperava, como escreveu o meu querido José Saramago. A licenciatura significou muito mais do que aquilo que uma graduação normalmente significa: há uma parte da minha história de recuperação pessoal que vive nas entrelinhas das coisas que li, dos autores com quem contactei, dos professores que tanto me ensinaram e dos colegas que sempre me respeitaram. Foi um crescimento tão brutal que às vezes me fazia doer o corpo, como nos bebés.

Hoje, quando fui pedir a Carta de Curso aos Serviços Académicos, foi Margarita Oliveira que me atendeu. Deu-me os parabéns pela minha média, tendo dito que para se ter boas classificação nas ciências como a História - aparentemente mortas - é preciso gostar-se muito. Disse-lhe aquilo que digo muitas vezes: fui eu o escolhido pela História e a História fez reconhecer-me. Deixei-a levantar-se, pegar num papel, e contei-lhe que foi por ela que tudo isto começou, quando os Serviços estavam provisoriamente no CP3 e fazia muito calor (algures em inícios de outubro ou finais de setembro). Agradeci-lhe, prometi que nunca me iria esquecer de tudo o que lhe disse e dei-lhe os parabéns por ser a funcionária extraordinária que é: para mim e para todos os outros que são processos num gigante maquinal como é a Universidade do Minho.

Firmamos um aperto de mão forte e, assim, talvez se tenha oficialmente fechado um ciclo. Ou talvez não; quem sabe. 

Luís Gonçalves Ferreira

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

memória

Sou natural de uma freguesia chamada Cervães, que faz parte do concelho de Vila Verde. Na verdade, a casa dos meus avós está entre duas freguesias e, até bem pouco tempo, tinha uma irmã natural da freguesia vizinha à minha. Mas isso não importa muito para a questão que vos queria contar.
Hoje de tarde estive com historiadores e historiadoras, engenheiros e engenheiras, arquivistas e outros convidados, a ouvir sobre memória, arquivos, informação, informática, bases de dados e binários. O debate ia alto e interessante e falávamos sobre pessoas. Não das físicas e concretas (como se houvesse pessoas metafísicas e não concretas), mas daquelas que produzem rastos: deixam-nos na administração pública, nos tribunais, nos serviços do Estado ou nas empresas às quais compram coisas e dali se fazem documentos; são rastos de alguma forma involuntários, produzidos com um objetivo funcional e cujo armazenamento custa dinheiro. A questão central a todo o debate é que, nesta sociedade digital em vivemos, a preservação de informação imaterial é onerosa e coloca enormes desafios no seu armazenamento e acesso. A sua gestão faz-se, por isso, prevendo a sua destruição natural; rasto, aliás, objeto de estudo dos historiadores que, na sua labuta, trabalham a falta e, criativamente, narram trajetórias, compõem quadros de contexto e provocam outras manobras de percepção sobre o passado mais ou menos presente.
Neste sentido, sempre existiram (e existem) grupos mais aptos do que outros a produzir memória; detêm os recursos preferenciais, trabalham-nos durante as suas gerações e constroem narrativas que montam para o futuro. A arquitetura, a pintura e os livros são disso exemplos; também o são os arquivos públicos, porque assumem a missão da "respublicana" sobre de proteger, gerir e disponibilizar a documentação de todos a todos. A nobreza é, historicamente, um produto acabado do que vos escrevo e, para isso, basta visitar um palácio real, um solar de família do Entre Douro e Minho ou, até, as salas de aparato que as famílias burguesas montam com as suas salvas; enquanto a maioria apenas detém conhecimento histórico de uma terceira (?) geração anterior à sua, uma qualquer família nobre sabe-o quase naturalmente pelos corredores fartos que congelam rostos com os quais comunicam desde crianças.
As pessoas simples - a arraia miúda que a Nova História quis estudar - teve, no século XX, a sua vida puxada ao de cima, num percurso duradouro e permanente, que sente as pressões democráticas contra uma história descritiva feita dos e para os "grandes". Essa larga camada de homens e mulheres emersos das gestas literárias chegam à tona por um conjunto não menos enorme de fontes, não obstante à necessária criatividade do cientista social, que, quanto mais contemporâneo está ao seu objeto de estudo maior é o absurdo de fontes com que lida. Sobra um ser humano plural, diverso, que está na cadeira em que senta, no edifício que constrói, nas coisas que come e veste, nos crimes e delitos que comete, mas também nos silêncios que produz através das pausadas evidências escritas que os outros fazem de si. 
Depois de ouvir toda aquela informação codificada dos cientistas gostei muito de voltar a casa dos meus pais, jantar a comida feita pela minha mãe e entregar-lhe um livro antigo sobre moldes de costura. Foi como viajar da memória forte para a memória fraca, entre instantes; gosto mais das pessoas que estão nem aí para os cientistas, os recursos, as produções do arquivo da Universidade, do que a tristeza erudita que às vezes vejo e também sinto. Deve ser por isso que me apaixono todos os dias pela historiografia diversa, policêntrica, confusa e complexa que leio e da qual me apercebo: as pessoas são também assim e guardam segredos imensos, onde a verdade, a objetividade e o rigor científico talvez não cheguem. 
Gosto de voltar à gente: à minha terra e à minha mesa e ao passaporte do meu bisavô que, pela documentação guardada no Arquivo Distrital de Braga, dele soube uma pequena deficiência entre os dedos polegar e indicador. Não quero com isto escrever uma imensa glorificação da terra, do povo e das minhas raízes. Quis mais pensar de forma escrita sobre a diversidade que existe no mundo e cujos sítios como Braga, oscilantes entre o urbano e o rural em dez quilómetros, me dão a sorte de poder pensar. O mesmo senti, há uns anos, quando fui de Vila Verde a Valdreu e viajei uma imensidão de tempo para ver uns sapatos brancos cheios de lama de uma catequista, que carregava palha na cabeça, e cujas mãos calosas receberam umas túnicas de comunhão absurdamente incólumes e níveas. Há coisas que levo para a minha vida pelos sítios onde fui nascendo; isso é memória e talvez seja ela a síntese deste texto.
Luís Gonçalves Ferreira 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

apontamento

A minha terapeuta de reiki disse-me que o medo não deve estar atrás das nossas costas, para não nos empurrar nem sair da nossa vista; não deve estar à nossa frente, para não nos condicionar o caminho; mas deve estar ao nosso lado, vivendo fraternalmente com o nosso dia-a-dia. Isto de aceitar o medo, mas sobretudo mantê-lo controlado, tornando-o um aliado, é um dos segredos de uma existência feliz, sobretudo em momentos de mudança.

des-empatia

Quanto mais caminho mais me convenço que a doença do mundo ocidental é a falta de empatia. Não temos medo de morrer, de sofrer e de que o cuspe que lançamos ao ar nos caia na goela. Isso é perigoso: agimos sem limites de consciência e, neste egoísmo anónimo do digital, vamos perdendo a noção do que procuramos e dos lugares aos quais dedicamos do nosso esforço sentimental, por justiça e equidade.
Vejo-o da política à economia, no meio científico e académico, mas sobretudo nas relações humanas. Um ser humano sem empatia é um corpo emocionalmente abandonado. Somos, porquanto, estes cemitérios a céu aberto: laicos, científicos, racionais e frios... mármores de capital quadrada.

domingo, 22 de outubro de 2017

pombeiro

Ignorantes, decidimos em cima do joelho que queríamos fazer a Rota do Românico. Entre os vales, optámos pelo do Sousa. Combinámos e seguimos em direção ao primeiro destino: Pombeiro, muito perto de Felgueiras. Um monumento encravado num vale, perdido no tempo, como os beneditinos tanto gostavam: muito fresco, cheio de verde, apesar dos demónios que a terra tem visto. Começamos logo a rezar: o claustro, a igreja e as pedras - tudo que rima com ruínas, à boa maneira desta querela universal entre a razão e deus, cujas invasões dos franceses e o liberalismo rasgaram na nossa memória coletiva. Certamente, foi por isso que os regrantes tanto rezaram: pecados que foram os seus ricos anéis e pesadas mitras; hoje, na imensidão, o Pombeiro está entregue a um curioso segurança que toca Yann Tiersen num órgão ibérico. Ainda agora, perdido na desilusão de tantas igrejas fechadas, é nele que esbarram as minhas emoções. Não avisou nada para além de que sabia pouco de passado, que era um curioso: a humildade é de génios. Sabia muito mais que nós, na verdade; cheios de galões.
O que resta de Pombeiro está, para além da mudez das pedras, no segurança que, sozinho, aprendeu a tocar no órgão ibérico. Não sei o que levou o nosso ilustre a guiar-nos daquela forma, mas gostava de lhe agradecer. Faço-o assim: com o que sei fazer melhor, conforme merece. Que o sol poente daquela rosácea continue a orientá-lo; Pombeiro guardará mais segredos para além de todas as cicatrizes que vimos.
 
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Cântico Negro de José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
- José Régio

terça-feira, 10 de outubro de 2017

catedrais

Há duas ou três coisas de que gosto muito: as pessoas castiças são uma delas. Daquelas que têm carácter e dizem as coisas sem rodeios; das que continuam a amar, mesmo depois de mil demónios lhes terem arrancado o coração; das que abraçam e beijam e amam pessoas do mesmo sexo na rua, sem medo dos ovos podres que são os olhares dos outros. Eu gosto muito de pessoas que se dão e se entregam e se amam. E quando me esqueço de como é bom ser e sentir, abrindo uma espécie de saleiro emocional na minha cabeça, aparece um sorriso maroto que me faz tropeçar. 

Gosto de gargalhadas e de dentes felizes. Gosto muito daquele jeito meio atrapalhado de alternativo-pop. Gosto muito de gente que me faz sentir calor dentro das veias. Gosto ainda mais quando, entre copos de vinho, os gestos falam mais do que mil bocas em conjunto. 

Lamentos aos mapas, aos tempos e aos sonhos, e estaria certo que, na rua, em casa, no corpo e na mente, os sinos da catedral iriam tocar a repique por cada beijo nosso. 

Somos sempre (soli)tu(de). 

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

o que foi que aconteceu?

Recordo saudoso o primeiro dia em que te vi. Sinto que me apaixonei antes de ti; recortei bem o teu rosto, os teus lábios e o teu sorriso; desenhei muitas vezes a vida que tivemos juntos; tive-a antes de te ter. Lembro-me de não sentir muito do tanto que era amar-te mais de todos os dias.
Ainda me tropeçam lágrimas por nunca esquecer os teus amigos, aqui em casa, rindo, enquanto planeava o próximo beijo que iria dar, naquele intervalo saudoso dos livros e dos móveis que, em conjunto, distribuíamos. 
Hoje, depositado na minha solidão, sendo refém de algum desdém, encerro a alma e recordo o teu cheiro, no bom gosto que emprestavas aos teus cozinhados ou às camisas que engomavas. 
Olho a porta de madeira e imagino-a a abrir, comigo sentado no sofá, à tua espera, meio furioso por mais uma demora; saudades. 
Nada disto é igual desde que nos separamos. Dantes sangrava em jato, a cada despedida, mas hoje vais em conta-gotas. Chamam-lhe maturidade e eu entendo distância. 
Tenho saudades tuas. Tantas como as que tinha quando te conheci, naquele bar, num dia frio de inverno. Não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera: é verão e não sei nada sobre ti. 
Onde foi que nos perdemos?

Luís Gonçalves Ferreira 

sábado, 19 de agosto de 2017

Ode à Virgem das Dores

Choras tu, Mãe Dolorosa, pelo filho perdido, morto e escarrado.
Choras tu, Mãe das Mães, pelo filho encontrado, abandonado e elevado;
Choras tu, Mãe das Dores, pelos milagres assistidos e as virtudes anunciadas.
Choras tu, de mãos abertas e desencontradas, com olhos desesperados procurando a ressurreição.
Choras tu, mãe do Mundo, nas sete setas cravadas no teu peito, uma perante outra; uma por entre a outra.
Aceitaste a profecia no templo; tomaste o medo no caminho para o Egito; desesperaste as ruas no caminho inocente ao templo; sujaste as mãos do sangue do Cristo pelo caminho ao Gólgota; morreste por dentro quando Ele morreu na cruz, entregando-te a João o Amado, sabendo-te, mesmo assim, eternamente sozinha; desesperaste por dentro quando o sentiste frio nos teus braços; sorriste de pranto quando Arimateia, o homem rico de Jerusalém, ofereceu um túmulo para o corpo vagabundo e chagado do Emanuel outrora fruto do teu ventre, agora mártir e profeta de todas os tempos.
À Virgem das Dores: a humanidade ajoelhada ao coração cheio e assunto aos céus em corpo e alma.
Nos teus olhos vejo, chorando, as mães de todo o mundo que, vendo os filhos partindo, ficam, sozinhas, à espera de consolação que tarda e muito falha. 

És, assim, de roxo e azul, esperança.

Luís Gonçalves Ferreira
16 de agosto de 2016

solitude

Relembro as nossas fotografias; os eventos a que fomos juntos; as coisas que nos dissemos; as promessas que fizemos. Relembro-nos nos recantos que construímos e em todas as coisas que estão nos mesmos locais, após todo este tempo de meia-estação. Escrevo-te perante o silêncio que ecoa no regresso...
Mudei em todos os entretantos que surgiram; em todas as negações que provoquei; em todas as provocações que evitei. O discurso do equilíbrio, da temperança e do amor universal encontram-se nesta letargia que sinto, agora que esse tumor que é a saudade se fez gente dentro de mim.
São alguns minutos de solitude por dia que, como chuva de verão, secam corações insatisfeitos.
Era mais novo e escrevia sobre auto-diálise. Somos, por entre o infinito, os nossos medos. Sou os meus medos: restam dúvidas, as mesmas certezas e umas tantas barreiras invisíveis. 
 
Luís Gonçalves Ferreira
17 de julho de 2017

vírgula

A minha roupa,
Os meus sapatos,
O meu sorriso,
O meu amor -
O passado,

Luís Gonçalves Ferreira 
escrito 27 de julho de 2017

Sábado de aleluia

Agora que Jesus morreu pouco resta para além da roupa do meu corpo. Não está ninguém e existo sozinha. Restam-me o amado João e a caridosa Madalena. Sobra-me um leito cheio de angústias... a imensidão vazia de um ventre ainda esmagado pelo corpo morto do seu bebé.

Quando perdi Jesus, o meu mundo terminou e a coroa celestial do futuro significava pouco para mim. Agora não há anjo que me fale, milagre que me conforte ou esperança no meu rosto.

Desde que Jesus se foi, amarrado aos pecados do mundo, vivo só. João dedica-se a escrever tudo quanto viu e promete-me tatuar o seu mistério na humanidade. Madalena, dormindo ao meu lado, agarrando o meu pranto, diz-me que Ele há-de voltar. Sei, porquanto, que o meu filho, mesmo que volte, não é mais meu. Como nunca o foi. Relembro os pastores e os reis que o beijaram... simples árvore de onde nasce o fruto; memorizo a fuga para o Egito... simples escudo de um reino sem fortalezas. Vi-o crescer na certeza absoluta das muitas lágrimas que derramariam meus olhos... já cheirava o sangue que varreria Jerusalém e ouvia os gritos de dor que me acordam todas as noites.

Morreu-me um filho e apenas a esperança no sono eterno me descansa. Que chegue rápido, imploro e suplico. Encorajam-me os que batem à minha porta para que lhes lembre Jesus. Sinto-o perto nesses momentos em que abraço os estranhos de quem escuto Deus em sussurro.

Sinto raiva e dor; pergunto-me todos os segundos pelo que fizeram ao meu menino. 
 
Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mea culpa



Quando nos ensinaram, na escola primária, a picotar desenhos jamais imaginei que, pelas sombras e os furos, crescemos; como naquele jogo que permite ganhar chocolates. O pior do amor é a forma como nos deixa ficar; lembro Anna Karenina, mas queria esquecer as estórias todas do mundo. Inércia, desgosto e vontades: como no jogo de picotados que, em criança, treinava a nossa concentração e abstração. Métodos significativos num poço para o futuro.
O pior do amor é a forma como nos abandona, talvez sozinhos que nem cães abandonados. O pequenino é querido e o grande imensamente desastroso. Não sei onde arrumar este jarro que tenho nas mãos; não decora nada e não se quebra.
Parti, de mãos dadas, olhando o automóvel a seguir embora. Tentamos ir pelos caminhos que conhecemos, bater às portas de sempre e chamar ajuda. A ferida ainda sangra para a bacia magenta que decora a pia da cozinha.
São quase duas da manhã. Após o barulho, e tomado o silêncio em golos de chá verde, lamento as mãos vazias, as memórias seletivas e a eterna sensação que, refletido no retrovisor do carro, ainda vejo um tronco semi-nu chegando perfume para me conquistar. Sedução que aceitei, querendo apenas ser encontrado. Pele tão quente e macia; casa feita projeto.
Corpo que enferma jamais se cura; lavemos as mãos, como Pilatos, no local onde cruzamos olhares, discussões, beijos e desilusões; onde tratamos o nosso futuro e as férias que nunca tivemos. Conduzimos tudo com beijos e química numa equação ao modo da física quântica. Mea culpa, no intervalo das coisas que fugazmente empurro à minha boca. Espero ter feito bem.
Não tenho sono e não está quem me implore para não adormecer agora.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

estranho-amor

O amor é uma coisa estranha que tem rabos e pés de cabra, mas também flores, jardins calmos e luares de agosto. O amor é uma coisa estranha, porque medeia o ódio, a simpatia e o desgosto. O amor é uma coisa estranha, pois afasta a razão e põe o coração a saltar na boca, como, de quando em vez, faz saltar lágrimas dos olhos.
O amor é estranho: como o vento e a imagem que vejo ao espelho, agora, emerso numa imensa solidão dos sentidos. O amor é estranho como essa chave sozinha, que rodou a fechadura, sentiu cheiro a gin barato, fugiu para a cama e percebeu que o amor é a potência mais incrível de todas as coisas que podemos sentir e discernir.
Não fosse o amor e seríamos energia lateira e tola, sem sentido, direccionada ao vazio e à estranheza por não ter destinatário. Não fosse o amor e deixaríamos de ser todas as virtudes que achamos ser. Sejamos amor.
 
Luís Gonçalves Ferreira 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jesus no jardim connosco

Depois de celebrar a Páscoa com Tadeu e os outros apóstolos, surgiu-me um súbito desconforto para falar com o meu pai. Desde que criança que seguia os meus instintos e procurava-o onde conseguia e apetecia. Naquele dia, para além de sentir a morte a rodear-me os poros, fui atraído para o Jardim das Oliveiras: local alto de Jerusalém de onde conseguia ver o meu povo. Pelo caminho, voltando pelo redor com Tiago, Pedro e João, lembrei a forma magistral com tinha sido recebido, montado num pequeno animal, por entre gritos e cânticos de glória. Nunca acreditei nos defeitos dos seres humanos, mas, a caminho do horto da paz, lembrei-me do quão ignóbil é amotinação dos outros; ser rei e ser carrasco, em segundos.
Procurei uma pedra e ajoelhei-me, perante ela. Sentia o meu fim próximo e procurei o meu pai. Queria entender qual a razão da minha escolha, se existia revés, por onde me deveria encaminhar, como poderia encarar a negação do Pedro - ali, ao largo, já a dormitar - ou a traição de Judas - que da mesa pascal partiu ao Templo, para me trair. Procurava-te, pai, e não te encontrava; como quem busca respostas para uma doença ou uma morte. Então, já sem esperanças, e jorrando lágrimas e suores de sangue, apareceu-me um anjo com uma luz dos braços. Era como eu, de pele escurecida do calor, mas com cabelos claros sombreados a ouro. Perguntei-lhe o nome, mas deu-me a mais perturbadora das respostas: o silêncio. Como o silêncio que oferecia à minha mãe, quando me procurou entre os doutores.
A minha angústia e temor pararam quando vi aquele anjo de meditação e resignação. Percebi, sem demoras, que o meu fim apenas tinha começado; que a glória seria eterna, para além da penitência e dos escarros que viria a suportar, num peso de madeiro, pelos mesmos que, pouco tempo antes, me tinham vangloriado. Senti, do lado direito, a voz do diabo, agora mais muda, após a Tua chegada. Foi-se embora e, por entre um sono e um estado de loucura, vi tudo o que estava para chegar: a cruz, a corda, os dados, a túnica, a coroa de espinhos, a cana verde e a carta de Arimateia, pedindo o meu corpo. Ouvi os berros da minha mãe, aos meus pés chagados, entre os cabelos da Madalena e o olhar sereno e atento de João, o meu discípulo amado.
Voltei ao local onde tinha deixado os meus apóstolos, deles chamei à razão, predizendo a fraqueza da carne, e ao largo ouvia a voz de Judas Iscariotes e os passos de cabedal dos soldados dos judeus. Senti um frio de morte e abandono, mas a força do cálice penetrou-me a espinha e me preparou o martírio. Tive receio, naquele momento, pela minha mãe; a minha querida mãe. Só dela me recordava, assim como de toda a Humanidade, lembrando-me dos seus braços estendidos em minha direcção, ainda criança. Eu sou virtude, mas sou também carne: como vós. 

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 2 de abril de 2017

O vos omnes



A caminhada triunfal que Jesus fez para abraçar a cruz, do Palácio de Pilatos para o Gólgota (que significa caveira), é projetada do berço do Cristianismo para o nosso mundo, especialmente durante a Quaresma. Diversas localidades portuguesas relembram a caminhada de dor do seu salvador, todos os anos, entre veludos e damascos roxos, numa Igreja que ostenta, mas sobretudo comove.
Trabalhar em procissões dá-nos uma perspetiva diferente sobre a vivência da religiosidade do povo, sendo notórias as clivagens e pontes entre a Igreja culta, institucional e dogmática, e as massas populares que a abraçam, modificam e disciplinam. A religião - e Deus, por inerência - parece ser uma simbiose entre todas as forças que se conjugam no quotidiano das orações e dos encontros; das mães que perdem os filhos; das doenças que se curam por diálise interior; das despedidas cicatrizadas com tempo.
As procissões que, nas suas ruas, repetem a última caminhada de Jesus Cristo para o Calvário, relembrando a dor de Maria ao encontrá-lo ferido e moribundo, são um catálogo quase perfeito das experiências que fizeram da Igreja Católica e Apostólica Romana uma realidade possível, dois milénios após a sua fundação: esse encontro rotineiro e emotivo entre os seres humanos (e as suas pequenas questões) com a imensidão do institucionalizado (cheio de grandes coisas e verdades universais).
O quadro da Nossa Senhora das Dores, São João Evangelista e Santa Maria Madalena, que teatralmente se abraçam ao longo das procissões minhotas, para depois se terem cruzado com Cristo, é, na voz do povo, chamado de "tribuna". Provavelmente, noutros tempos, aqueles personagens moravam, ao longo do ano, na tribuna da igreja, nos pés da cruz. Entre a rotina estática no retábulo-mor do templo e o personagens de carne e osso que desfilam cobertos de cetim e veludo, as figuras bíblicas e anjos provavelmente significam esse profundo mar de sensações que une o ser humano, crente e comovido, ao divino, numa esperança da alma em direcção à Casa do Pai; uma espécie de almejado encontro entre o espírito e o corpo, na rota da ressurreição.
Não é mais do que procurar ser visível pelo mundo do invisível; ser Deus sendo humano; ser, por isso, Jesus Cristo. Metamorfose forte e pesada, como nós, feitos Povo de Deus a caminho da casa do Pai.
Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres, poderes e sociedade.

Cresci rodeado de mulheres fortes e talvez seja esse o motivo pelo qual me revolta o adormecimento do feminino em relação ao masculino. Na minha casa foi sempre da mulher a última e derradeira decisão, porque as mulheres da minha casa sempre foram independentes economicamente.
Cresci, apesar disso, rodeado de histórias de violência e dependência: mulheres-mães, mulheres-avós, mulheres-trabalhadoras que gravitavam em redor dos maridos; deles sofrendo agressões físicas ou verbais; por eles controladas e oprimidas.
A minha casa sempre foi uma espécie de templo de Jerusalém pré-feminismo político: dois conceitos sobre o mesmo género, mas, em simultâneo, um retrato fiel das circunstâncias do feminino em relação ao masculino. A mulher vale-se pela independência que tem; pela capacidade de dizer não em relação ao homem; pelo estofo de viver às margens da opressão patriarcal que domina a sociedade.
Trabalho num ambiente de mulheres, onde quem governa os negócios é carinhosamente chamada de "armadeira". Nas procissões, quando querem falar com o/a responsável, chamam pelo feminino e nunca pelo masculino. O trabalho que eu desenvolvo, em conjunto com a minha mãe, tia, irmãs e funcionárias, é um local de dominação do feminino em relação ao masculino. Cada vez que me trocam o género pela função que ocupo sinto-me um pouco no lugar das mulheres que estão em cargos formatados para os homens.
Ontem, ao jantar, a minha mãe contava uma história que facilmente retrataria a desigualdade de género. Quando, em jovem, se dedicava ao negócio das fotografias, em conjunto com o meu avô, dizia-me ter-se sentido humilhada por um comentário de uma cliente: esta perguntava, em frente à minha mãe, se o serviço tinha sido mais barato por ser uma mulher a fotografar...
A minha mãe não politiza o amor que sente nem se encerra em macro-discursos sobre a humidade e os seus destinos. A minha mãe sempre falou sobre amor e foi com amor, dedicação e eficácia que, depois da morte da minha avó, conduziu os destinos dos negócios familiares. A minha mãe - que liga pouco à política, tendo votado toda a vida - sentiu-se ferida no amor que sentia por si e pela sua arte. Portanto, a importância do feminismo está para além dos supradiscursos de poder institucional; vive das consciências e dos silêncios discriminadores que contam a existência das relações sociais.
A minha mãe, as minhas tias, as minhas irmãs e outras mulheres, têm direito a dispor de todos os recursos necessários para ser o que quiserem ser, na mesma igualdade de circunstâncias que os homens. Educação, sentido de responsabilidade, formação profissional, experiência de vida e, acima de tudo, auto-confiança... É sobre a questão formativa - que combata o paternalismo institucionalizado e o machismo enraizado - que todos devemos reflectir enquanto comunidade e corpo cívico.
O pior mal do feminismo é o de não se empatizar com as mulheres, porque se preocupa (quase em exclusivo) em discursar apenas para os homens. Agora, como no início do século XX, as mulheres vivem numa dupla tensão: com os homens, para os quais dialogam politicamente, e com as mulheres, força de massas da qual necessitam para se ouvirem na multidão.
O dia 8 de março faz muito sentido, especialmente num tempo em que, nos Estados Unidos da América, preside um homem que venceu votos com discurso de ódio às mulheres. O dia 8 de março faz todo o sentido quando a vergonha se perde na fruteira da demagogia.
Pelas mulheres e pelos homens, mas sobretudo pelo todo que somos. Pelo amor e pelo respeito.

Luís Gonçalves Ferreira

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

São Miguel, Açores

 
Do alto do Miradouro da Boca do Inferno, na ilha de São Miguel, não resta absolutamente nada entre ti e o mundo: sobram os elementos da natureza e o silêncio sozinho da consciência. Dali do alto entendes os Açores e a sua orfandade oceânica; a Ilha dos Amores significa um paradoxo isolado no meio do mar; sítio onde se cultivam sonhos com o limite da linha do horizonte.
Sinto que demorei a pequena vida que tenho para ali chegar e sei que demorarei outro tanto para lá voltar. Chegou na altura certa e soube, como se fosse equação calculada, que conhecia os Açores antes de lá ter chegado, porque eu sou como os dias que os Açores me ofereceram. Os deuses brincam com as estações do ano nos Açores como jogam com as nossas vidas.
O alto do Miradouro da Boca do Inferno resume audácia dos açoreanos, a sua clarividência resistente, o seu isolamento necessário e uma especial estranheza ao que lhes chega de fora. Nós, continentais, apesar de sermos portugueses como eles, vimos "de fora", como me disse a senhora que faz queijos todos os dias de manhã para vender aos estranhos que lhe entram pela porta. Tenho a certeza que, aos olhos da senhora que faz queijos todos os dias, não há nada mais bonito no mundo do que as Furnas e a São Miguel onde vive. É justo e, mais do que isso, verdadeiro.
Confesso-vos que não sei se existe sítio no mundo mais bonito do que São Miguel, porque me falta muito mundo para ver, mas sei-vos dizer que a ilha que vi, mesmo que de forma resumida e apressada, é certamente o sítio mais bonito onde os meus olhos pousaram. Esperei vinte e sete anos para conhecer a chuva, a água quente, as piscinas naturais, a florestação exótica e húmida e a imensidão de verde dos Açores. Esperarei outro tanto para lá voltar e conhecer a Terceira, as Flores ou o Pico ou uma das outras oito ilhas que me faltam. Esperarei o tempo que for necessário para rever paisagens naturais incapturáveis por lentes tecnológicas.
O que existe nos Açores é apenas sensível pela presença física. Ali entendi que tudo o que fotografamos é uma mentira; ou melhor, que a fotografia é um resumo tímido e mitificado da verdade perante a realidade que os sentimos eternizam à memória.
Há Açores dentro de mim. Agora mais do que nunca. 
 
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Há um par de dias, quando estava a trabalhar no meio da herança que nos deixaste, contou-me um vendedor mais pormenores sobre ti: a inteligência dos negócios misturada com a mãe que sempre foste. 
Mãe para nós e para todos aqueles que colheram da tua bondade.

Não me lembro do teu cheiro, mas ainda me emociono quando tento encontrar o teu rosto. Hoje já não existe aquela saudade esfomeada que outrora em mim habitou; hoje há calma, avó Júlia. Serena calma como o mar de Inverno.

As noites de 20 de janeiro, dia de São Sebastião (padroeiro da casa do bisavô), ainda continuam frias. Noites geladas com aqueles dias quantos os anos cujas duas mãos já não chegam para contar.

Ias adorar ver os olhos azuis da Francisca...

Passaram doze anos desde que a presença mais renovadora das nossas vidas partiu, deixando-nos o império da sua memória. Entretanto, remendamo-nos no melhor que sabemos ser em recordação do profundo que há de si entre nós.

Luís Gonçalves Ferreira 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Estado da História: desafios e observações


Ao historiador contemporâneo é lhe pedido, antes de mais, que produza observação histórica de forma problematizada e questionadora sempre baseada em documentação coesa, numa metodologia arreigada ao possível (quanto ao tempo e aos objetivos), assente em questões e hipóteses. O jovem historiador ou investigador que hoje se tente introduzir aos meandros do conhecimento humano, pela lente da observação do passado, avança-se num anacronismo inato que, sendo a principal circunstância do seu labor (o olhar é sempre do presente para o passado), é fobia constante da contaminação intelectual do seu trabalho. O historiador sente através dos documentos que observa, pelas pessoas que narra ou pelos pensamentos que desenvolve. Ter medo da contaminação é não aceitar as características da sua profissão; é não se desenvolver num conjunto submerso de ideias, pré-conceitos e conteúdos, desde logo emanados da instituição que o forma, dos pares que o pressionam, dos livros que leu e das brilhantes exposições que ouviu. Como ciência humana e social, a História confunde-se com as caraterísticas humanas analisadas por outras ciências, como a Medicina, Direito, Psicologia, Sociologia ou até pelas ciências humanas: medos, neuroses, tensões, influências, socializações em gerações de colegas e instituições, simbioses ou compensações atómicas...

Professores, unidades curriculares e objetivos formativos das graduações, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em História, fazem-se de uma constante confrontação entre a história do passado (arcaizante, descritiva, positiva, dependente do monolítico do documento escrito), arreigada às histórias dos séculos cronológicos e das três idades, com uma história do futuro, necessariamente globalizadora, policêntrica e artificialmente democrática e mundial como o sítio onde o historiador existe. Esta dupla tensão – entre a disciplina e o tempo do historiador – produz observações diacrónicas numa postura que duvida, que tantas vezes resvala para o questionamento idiossincrático da História como ciência autónoma, com método e objeto próprios.

Para além de exigências de caráter prático, pede-se ao jovem historiador que seja culto como os seus antecessores, mas que esteja a par de toda a informação galopante que circula no mundo académico: lendo muito em pouco tempo. Que atenda aos clássicos - da história da História (de todos os tempos aos atuais), das revistas, dos Annales, do pós-68, da pós-modernidade - mas também que saiba acompanhar os portais que democratizam o acesso aos artigos científicos – aquelas gaiolas douradas que almejam a autenticidade e os quinze minutos de fama da pop art.

Vivemos, por isso, escravos da criatividade, mas sobretudo das notas de rodapé. Somos escravos do medo do pastiche, numa obsessão pela construção do novo, sendo empurrados para grupos de estudo que em nada simpatizam com interesses individuais, mas em tudo servem a ciência dos campos por tratar. Almejamos em ser Le Goff, Bloch, Catroga, Mattoso ou Cruz Coelho. Queremos ser tudo num acesso de nada: entre professores que não ensinam (falta-lhes tempo e veia) e alunos que não aprendem (simplesmente desconhecem vantagens em ler, estudar e ter mérito numa sociedade abundante em tudo e construtora de muito pouco).

À História cabe a participação, intervenção e politização. É, antes de mais, a sua circunstância, pois é produto de olhares pessoais, integrados num tempo e num espaço, emersos em observações particulares, vítima de medos e incómodos. O historiador escreve sobre os aspetos que lhe provocam emoções racionais num conjunto alargado de palavras que lê e cita, por orientação de um condicionamento natural de apenas encontrar o que procura.

O historiador é automaticamente vítima de si e do seu contexto. Então, que assim se assuma e assim sirva a sociedade; que saia dos colóquios e dos metros quadrados do seu gabinete, sala de aula e casa! Enquanto nos enjaulamos condenamos a nossa disciplina esta dupla tensão em que (sobre)vive: consigo mesma, porque o historiador possui um medo obsessivo da cópia e repetição; e com os outros, pois a sociedade desacredita que a História (assim como a Filosofia ou Antropologia) possa contribuir com algo de fundamental para o aprimoramento da existência humana.

Porquanto, a História e o historiador são como templos helénicos: sobram belas colunas eretas como vestígios pétreos do passado glorioso para o qual eternamente nos voltamos no sentido acalentar as nossas frustrações.
Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Abandono-me à solidão

Debruço-me sobre a tristeza, sendo-me
Encontro-nos na estranheza.
Lembro saudosamente os outrora corpos fundidos, por
Sorrisos desmedidos.
Esbarro no olhar à sorte e perco-me no desalento.
Um silêncio.
Quero e não encontro -
Somos e nem existimos.
Vida sozinha,
Vida só,
Vida.
Sempre interrogando, sempre duvidando, sempre
Sozinho nas alíneas do pensamento.
Sina das mãos lidas,
Sol de inverno - numa primavera de mil flores.
Desculpo-te por seres demorado.
Depois de quente, a pele ficou tépida,
Frouxa, e agora?
Eis-me triste e só,
Como sempre sou.

Luís Gonçalves Ferreira

A Soares, pela liberdade.

Podemos criticar tudo: o buraco da Fundação, o caciquismo, a dificuldade em deixar o sistema por si montado em paz. Ao contrário de nós, que nos sentamos num sofá e mandamos postas de pescada livremente, Mário Soares lutou contra um monstro: o fascismo. Nunca teve medo, até ao final da vida. O país não lhe deve nada para além do respeito. Respeito por nunca ter tido medo.

Numa altura em que somos todos órfãos de sentido crítico, consciência autónoma e pensamento livre, talvez seja essa a mensagem de Mário Soares para o ano novo, pela glória da morte. A democracia só serve enquanto nos servir; agora que morrem, na velhice, os últimos obreiros do Portugal democrata, talvez seja tempo de pensarmos sobre a nossa existência democrática.

Apesar de não concordar com a maioria do seu pensamento político e económico, devo a Mário Soares a liberdade de o expressar livremente.

A democracia não tem preço, mas Soares teve-o; como todos nós.

domingo, 20 de novembro de 2016

Meados de maio: o mês das flores

Olhei e vi-me ao espelho. Desejei tantas vezes que chegasses até mim que me perdi nos entretantos. Encontrei-me na universidade, nas casas novas que compunha e nas ilusões que cultivava. Invejei muitos amores ao meu lado: histórias contadas sobre as férias passadas juntas. Quando seria a minha vez? 
Chegaste e nem dei por ti. Senti que te esperei a vida toda, mesmo quando, entre sofrimentos e lágrimas, me jurava voltar a amar. Entraste e nem convidei. Quando reparava já sentia o teu cheiro colado à minha pele e boca encostada na minha.
Abri os olhos e achei-me adormecido: os pés, as mãos e todo o corpo eram calor. Fomos para a serra e para junto do mar: conhecia apenas as ondas pelos sofrimentos aliviados; contigo conheci-as pelas alegrias que traziam. Castelos, brisas e ventos. Sopros. Ensinaste-me sobre o mar. 
Desejei que chegasses. Tantas vezes. Escrevi, outrora, que sentia a pele tão quente e achava ter chegado a minha hora. Chegou. Tenho os nossos rostos na minha cabeceira, o teu peito na minha almofada e a tua pele que há em mim.
Não teria chegado tão longe se não fosses tu. Não teria chegado tão perto se não estivesse partido de tão longe. 
Coração e pedra. Mágoa e desespero. Sorriso e amor: eis o retrato que mora ali, no espelho.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Desigualdade das mulheres

Na Praça de Alegria (RTP1), há pouco, discutia-se a igualdade de género. O painel de discussão era composto por dois homens (o apresentador e um convidado) e duas mulheres (a apresentadora e uma convidada). A conversa foi absolutamente monopolizada pelos homens e estes começavam quase sempre a responder primeiro do que elas. Enquanto isso, concluíam que as gerações mais novas, já "consciencializadas" em relação às disparidades de género no acesso ao emprego (por exemplo), sofreriam menos a discriminação - areia. 
O problema, a meu ver, reside precisamente na desigualdade que acontece no silêncio, entre a argamassa que monta os tijolos; na mulher que deixa o homem falar primeiro; nas mulheres que não manifestam opinião política e deixam que os homens pensam por elas, intervindo em seu nome. Não acredito que os homens não possam ser feministas (como a Mariana Mortágua), mas tenho uma crença profunda de que o processo de mudança tem que ser iniciado pelos discriminados. A sua voz é mais pura, mais conhecedora e poderá, realmente, fazer encontrar o outro desrespeitador na dimensão do seu desrespeito; comunicando, portanto. É a ferida da diferença que provoca a reação face à maioria que a renega. 
Estaremos numa fase mais profunda da desigualdade das mulheres no acesso aos direitos económicos, sociais e políticos, onde o problema está de tal forma enraizado que é no machismo "internalizado" que reside o problema? Ou estaremos, finalmente, a enfrentar as estruturas da questão? A resposta? Educação, educação, educação.

Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 13 de novembro de 2016

liberdade, Gisela João e o tempo em que estamos*


Gisela João,  Labirinto ou Não Foi Nada 

Sou testemunha de um tempo - feliz, é certo - em que, no canal aberto da televisão nacional, um programa de transformismo vence audiências. Sou do tempo - feliz, é certo - que, após uma besta quadrada fascista ter vencido as eleições na América desfeita, o fado me congratula com alegria. Passado e futuro; aceitação, verticalidade, tolerância e amor. Só amor. Sou do tempo - meus netos, filhos e anciãos da memória - em que o amor vencia nas ruas e nos palácios de gelo, enquanto o ódio ganhava votos no fundo de uma urna. 
A democracia cai nas ruas da amargura; as pessoas não. Enquanto houver memória (que Deus guarde a minha), e se tudo mudar entre uma guerra ou um caos de fome, a cultura dirá aos vindouros, em jeito de recordação, que vivemos um auge bonito de aceitação; um culminar absoluto de beleza no ser quem se quer ser. 
Olhamos tantas vezes para o passado, procurando glórias e impérios, esquecendo que o maior triunfo é o nosso presente. Presente rima muito bem com felicidade e aniversário e tudo de bom que isso significa. 
Quero nunca esquecer deste tempo, mesmo que as trevas se inaugurem em diante. É uma espécie de sonho, de júbilo, como da saúde súbita de um doente terminal se tratasse. 
Espero errar-me mais à frente. Que os meus netos vejam, no seu tempo, o género contar para muito pouco. O sexo nasce-nos, mas tudo o mais não. Sonho com um tudo mais que seja muito pouco.

*O título inicial era, simplesmente, liberdade. 

Luís Gonçalves Ferreira 

Sobre a eleição do Trump

Queria escrever algo sobre como é arrepiante acordar ao som de uma vitória de Donald Trump nos EUA, mas não consigo denunciar mais do que o meu lamento. Resta-nos acreditar na democracia americana, no controlo e interdependência de poderes. 
Acordar com a vitória de Trump é o similar ao despertar com o Brexit. Não reconheço este mundo em que vivemos, que faz do ódio, da xenofobia e da intolerância realidades institucionalizadas. O voto popular, ferido de morte pela crise, baba-se perante a bandeira de um prato de comida. Algo de errado se passa connosco: ou perdemos a racionalidade, a inteligência e a sabedoria sobre o poder do voto; ou sistema prova que não presta. Contudo, não somos americanos e, pela leitura do poder representativo, a eleição americana não nos diz respeito diretamente, como não cabe aos japoneses interferir nos factos que lhe empobrecem a bolsa de valores. A democracia permite a ascensão de ditadores, como se fez prova ao longo da História. 
Não sei o que é dormir com medo, como sabem, certamente, os refugiados que cruzam as nossas fronteiras de papel; ou os mexicanos que voam pelos desertos de arame farpado.
Talvez a sociedade ocidental precise de ser perturbada pelo medo. Eis o início: abram os vossos olhos, desviem-nos dos vossos umbigos, encarem os vossos pares e vejam, atentamente, o lugar onde hoje, em conjunto, chegamos.

Luís Gonçalves Ferreira 

Pedras que falam*

Foi numa quinta-feira, no centro da cidade, junto à inscrição romana à deusa Ísis, que assistíamos a uma aula de Epigrafia. No mesmo dia e pelas mesmas ruas, centenas de estudantes trajados (e por trajar) exibiam os seus gritos e marchas, carregando litrosas e misteriosas misturas. Entre veículos municipais de limpeza, barulhos de praxe e silêncios ocasionais, prosseguia a aula, cautelosa e curiosa, como sempre. 
Eis que, pelo silêncio das traseiras da Sé, chega uma senhora ao grupo, acomodando-se ao meu lado. Olhos claros, de meia idade, com poucos dentes e aspecto mal-tratado. Cruzei-lhe a pinta e reconheci-a doutros burgos: pedia moedas, na rua, numa sabedoria capitalista de quem, com educação, abordava todos os que, pela sua indiferença, a marginalizam
Eram curiosos os seus silenciosos olhares e carismáticos os sorrisos que oferecia. Colocou questões, levantou e repôs os óculos escuros, interrompeu a aula, vestindo a pele de aluna recém-chegada a um tema de que "não percebia nada". 
Despediu-se e agradeceu: pela boa-vontade da professora (uma mestre, mostrou-se) e pelo tempo que lhe faltava, entre esta e aquela moeda, este e aquele estranho, esta e aquela rua, que certamente viria a cruzar.
Enquanto centenas de doutores e caloiros, homens e mulheres medianos, velhos e novos entediados, batiam os seus "cascos" pelas ruas da mui nobre Bracara Augusta, uns olhos pedintes souberam que, em tempos remotos, uma sacerdotisa chamada Lucretia Fida ofereceu à deusa Isis algo suficientemente memorável para figurar naquela cuidada inscrição. 
A curiosa anónima queixou-se, porém, que não conseguia ver as folhas de hera que pontuavam e decoravam aquela pedra. Mal ela sabia que, dentre alunos e estranhos, tinha sido para si, mesmo em latim e com interlocutora, que aquela pedra mais havia falado.

* Título roubado ao manual de Epigrafia do Professor José D'Encarnação.

Luís Gonçalves Ferreira 

do tempo que nos falta

Acordamos com pouco tempo, comemos sem tempo, vivemos a contar o tempo que nos sobra para o ocupar com alguma coisa. Afinal, para onde nos levaria o tempo que sempre nos parece faltar?

Horas pardas

Morreu Deus. Morreu a Ciência. Morreram a Nação e a Pátria. Morreram a Liberdade e a Felicidade. Morreram a Cultura, a Fé e o Amor. 
Morreu a Filosofia.
Estamos vivos, então, de quê?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

dois minutos

Amor, portanto, é criar rotinas.
Seguir pegadas, acompanhar passos e encontrar pontes.

Amar é, por isso, criar rotinas: é construir castelos, visitar cadeias, servir alentos.


Amar-te é, somente, amar rotinas: o segredo do beijo, o encontro do bom dia, o desejo do regresso que entardecia.

Amar é contar o tempo até à falta da tua rotina. Amar é o chegar a casa, o aproximar ao templo ou ao pensamento da carne que te cheira a falta: como do bebé que do colo tem consolo.

Nunca queiras amar quem não ama rotinas; passarás todo o teu tempo a procurar o pedaço que te faz falta, a insegurança que te conforta, a pele que te queima, o espaço que é teu sem conquistas.

Amar é, tão-só (como se só fosse sozinho), ser rotina; connosco, contigo, com todos. Amar, pelo ventre do universo e pelo estalo a leite materno, é segredar ao tempo pelo resto que falta até se ser no leito novamente.

Nunca aceites amar quem não ama rotinas.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um constante estado de emergência

O problema não está na possibilidade de se comprarem armas de forma fácil ou barata. O problema não reside na disponibilidade de conduzir um camião e dele fazer um tanque de guerra. A questão não se encontra com os que, por desorientação ou livre arbítrio, se deixam recrutar pelas demagogias do Estado Islâmico. A dinâmica do terrorismo está para além das ideologias religiosas, das críticas a estilos de vida, ou das barreiras físicas que os países ergam entre si. O terrorismo orienta-se pelo impacto que tem junto daqueles que prezam a vida humana como valor fundamental na condução da sociedade em direção à felicidade, à harmonia ou à justiça.

Os desvios interpretativos a respeito do terrorismo, feitos pelas classes políticas ocidentais, não devem fazer com que o nosso juízo crítico, de cidadãos ativos, se desvie do fundamental. O problema do terrorismo não tem que ver com a disponibilidade dos meios para perpetrar crimes hediondos; ou com existência de teias legais que compliquem a ação dos prevaricadores; ou com os estados de emergência que façam do Estado um ser supremo que age de fora para dentro. O terrorismo é uma fuga declarada ao normativo, ao ideal de sociedade que defendemos e, maxime, consiste num questionamento sobre o modelo de convivência social. Assim o é na França como na Etiópia, Síria, Sudão ou na China; assim o é na consciência de qualquer pessoa, livre para hierarquizar os valores comuns a todos os seus pares.

Levar o problema do terrorismo para pensamentos e discursos xenófobos, racistas, homofóbicos ou intolerantes, é seguir pelo caminho da desorientação que é o horror ou o sangue gratuito nos canais de televisão. Essas atitudes questionam, tal e o qual o terrorismo, o contrato social que assinamos com o Estado que, com a lei, as outras normatividades e os indivíduos, conduz a sociedade e os seres humanos para a felicidade.

Hollande decretou mais três meses de estado de emergência em França, após os atentados, emendando-os na data de 26 de julho, altura em terminaria um outro estado de emergência, declarado a propósito dos atentados de Paris, em novembro do ano passado. Que a intolerância não nos conduza ao absolutismo e que a liberdade se saiba entender com a segurança; que questionemos, com força e consciência, o destino do Estado-Nação, um credo tantas vezes cego como inúmeras vezes necessário; que nos preocupemos com o criminoso, onde reside o problema e, provavelmente, a sua resolução; que nos desprendamos de palavras precipitadas e odientas, que nos fazem semelhantes ao terror e afastados da paz e da felicidade que prometemos aos nossos filhos.

Façamos um enorme cordão de esperança para todos aqueles que, em França como em qualquer lado do mundo, se veem obrigados a viver estados de emergência por motivos alheios à sua vontade.

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 8 de maio de 2016

Perda e encontro no Templo

Tinha doze anos quando me perdi de casa e fui ter ao templo. Tinha saído para brincar, lembrando os tempos em que, com o meu primo João, na porta de casa, brindavamos o mundo com os nossos sorrisos de meninos. A minha mãe, naquele tempo, cozinhava para Isabel, sua prima, pois, cansada e velha, tinha perdido a visão e a capacidade para cuidar dos desígnios da casa. Pelos entremeios, entre as refeições e os trabalhos de fiação, a minha mãe contava-nos histórias sobre os Profetas do povo de deus. Eram tempos felizes, apesar de, pouco tempo depois, Isabel ter morrido nos braços da minha mãe (os mesmos que mais tarde viriam a suportar o peso do meu corpo morto). João, depois de uns tempos passados em nossa casa, partiu para o deserto. A minha mãe explicara-me, uma noite, que o meu primo era um precursor e, como tal, fazia coisas que só aos olhos de Deus são explicáveis.
Encontrei-me com um velho, enquanto brincava: vestia-se de preto e ostentava um nobre ceptro alto, parecido com o dos reis que ainda viriam ao mundo. Os meus olhos castanhos brilhavam refletindo a nobreza daquelas vestes, em muito diferentes dos farrapos que vestia. A vida de carpinteiro do meu pai e a roca da minha mãe não permitiam mais do que umas papas e pão azedo. "Que olhos curiosos. De onde vens?", perguntou o Sacerdote. Sem falar, ergui a cabeça, peguei-lhe na mão e seguimos para o templo. Naquele momento senti que não era mais Jesus, o Nazareno, cuja vida encaixava nas profecias de Isaías, para me transfigurar num Príncipe. 
Cruzamos as faustosas portas e recordei do velho Simeão e de Ana. Sentei-me num círculo imperfeito, entre os doutores. O velho, que me acompanhava, sentindo a firmeza dos meus passos, mantinha-se calado, deixando-se para trás. Ajoelhei-me, apresentei-me pelo meu nome, e, juntos, conversamos durante horas. Discutimos sobre o papel de Deus no mundo, a sina do nosso povo, a importância das leis do tempo e a vivência da religião entre os escritos antigos e a opressão em que vivíamos, mesmo que na nossa terra, perante o invasor estranho.
Sentia-me um rei. Depressa passou a estupefação dos Sacerdotes e rapidamente me interpelavam, perguntando-me opinião sobre este e ou aquele tema. Eles testavam-me e eu sabia. Em todos os segundos, mesmo sem perceber de onde vinha a sabedoria das minhas respostas, lembrava-me da minha mãe e do meu pai. 
Eles escondiam-me, desde sempre, a razão das maravilhas do meu corpo. Eu sabia-as, no silêncio, de cor: os meus sonhos revelaram-me o anjo do Senhor, a cena da Visitação, a misericórdia do meu Nascimento, da Circuncisão ou da Apresentação no Templo. Para mim, não eram desconhecidos Zacarias, Isabel, Gabriel, Simeão, Ana ou as pedras copiosas daquele espaço onde, agora, me encontrava com os Doutores da Lei. 
Entretanto, ia alta a conversa, ouço uma voz, aflita, correndo: "Emanuel, Emanuel?! Jesus?!". Levantei-me, arranjei a minha túnica, corri à entrada da sala onde estávamos. Cruzei o olhar com a minha mãe e com José, o meu pai. Ela, preocupada, gritou: "Como procedeste assim connosco?". Mais nada me ocorreu dizer senão um quase silêncio de um verbo eterno: "Devias saber que estava na casa do meu Pai". A minha primeira revelação messiânica terminou assim, entre as duas mãos quentes dos meus pais terrenos. 
O mundo teria de esperar dezoito anos até que me voltasse a encontrar com João, com aqueles velhos anciãos do Templo ou para que, miraculosamente, desse respostas para as quais não estava preparado. Entretanto, José morreu, durante o sono. Chorei muito a sua perda; ficamos sozinhos, no mundo. Cuidei da minha mãe até que o seu coração ficasse suficientemente pronto para aguentar tudo o que estava para vir. 

Luís Gonçalves Ferreira