sábado, 28 de fevereiro de 2009

Entre estes dias

http://mcfranca.deviantart.com/art/pensamento-44484819

"[...] É sabido que comboios completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabeças, na forma de certos sentimentos, sem tradução para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem literária [...] porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido. Essa é a razão pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, mas toda a gente os tem[...]."
Dostoievski


http://fc07.deviantart.com/fs19/i/2007/235/c/5/friends_by_nunoramos0.jpg

"Um dia a maioria de nós irá separar-se…
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim… do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho tanta certeza disso. Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe… nas cartas que trocaremos. Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices…
Aí vão passar, meses… anos… até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamo-nos perder no tempo… um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: “Quem são aquelas pessoas?” Diremos… que eram nossos amigos e… isso vai doer tanto! “Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!”
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente…
Quando o nosso grupo estiver incompleto… reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrimas abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo…
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam causa de grandes tempestades… Eu poderia suportar, embora sem dor que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”
Fernando Pessoa


Entre estes dias vieram até mim estes dois textos formidáveis.
Estas são aquelas palavras que significam algo profundamente verdadeiro, extremamente igual a nós mesmos. Que são paradigma das minhas próprias urgências e emergências internas. Do meu próprio modus vivendi.

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

4 comentários:

  1. A vida é assim mesmo...masenquanto houver memória, nada será "jogado fora".

    Que seria de nós se morressem todos os nossos amigos, hã?!

    Beijo!

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  2. Já conhecia o do Fernando Pessoa e até o li numa despedida de uma colega de trabalho ha uns anos. Quanto ao Dostoiewsky, concordo e nao concordo. Tem toda a razao quando escreve que nao podemos transmitir por palavras o que nos vai no sentimento; por outro lado ha pessoas que o conseguem fazer tao bem... EU tenho uma escrita mais prática, como quem defende uma causa, vulcãnica, instintiva, mas "invejo" e admiro os que escrevem (mesmo em muitos blogues) de forma lindissima como cartas antigas de amor e amizade, toda uma escrita perfumada de "semntimentos".

    Eu nao consigo e tenho pena.

    Aquele abraço

    Daniel

    Abraço

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  3. Olha que eu acho que esse texto não é do Pessoa, mas do Vinicius de Morais, ainda que as buscas que fiz não sejam consensuais...
    Mas tenho quase a certeza!

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  4. Catarina - se morressem todos os amigos, morria eu também. E como tu sabes disso! Beijão Grande !

    Daniel - Há pessoas que sabem escrever bem sobre os seus próprios sentimentos (até acho que tenho essa qualidade), mas que não conseguem atingir a profundidade de qualquer sentimentalidade alheia. Falta-lhe o auto-conhecimento e o conhecimento de causa. Isso não é traduzivel na tal 'linguagem simples'.
    Isso já me aconteceu muitas vezes. Até porque os meus sentimentos conhece-os bem, aos dos outros, múltiplas vezes, não lhe acho a entranha. É nesta dimensão que me identifico com o pensamento.
    Abraços e obrigado pela opinião.

    AnAndrade - por acaso na altura não me preocupei (embora devesse) em confirmar a autoria do texto. Apanhei-o assim, 'ipsis verbis'. Também estive a pesquisar e realmente não é consensual. :S Acho que vou pôr "Fernando Pessoa OU Vinicius de Morais" :D.
    Obrigado pela correcção! Como essa cultura geral é bem-vinda a este nobre espaço :D
    Beijo!

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