quarta-feira, 1 de abril de 2009

Anacrónicas diferenças

 
http://www.nayiny.deviantart.com/ 

Hoje fui a uma conferência, organizada pela E.L.S.A. UMinho, sobre os Casamentos Homossexuais. Eram convidados, pelo Não, eng. Nuno da Câmara Pereira (deputado, pelo PPM, à AR) e eng. Manuel Beninger (lider do grupo municipal do PPM), pelo Sim, dr. António Serzedelo (pres. da Opus Gay, activista pelos direitos das minorias sexuais) e dra. Paula Nogueira (membro da Mesa Nacional do B.E.).

Esta foi das melhores conferências a que assisti até hoje. Não pelo calor dos discursos, mas pelo quão gratificante foi a nível intelectual. Sair de um local exponencialmente mais culto e rico é bom, muito bom. Assim como perceber a tópica e a diferença argumentativa, foi gratificante.

António Serzedelo é das pessoas mais lúcidas e geniais que ouvi nos últimos tempos. Tratar as coisas pelos nomes é, cada vez mais, necessário. Ele fá-lo sem pudor. O Portugal que hoje veda a Justiça ao Alfa e Ómega do Estado de Direito - a Pessoa Humana-, é aquele que não se preza em democracia, que não acompanha as urgências e necessidades da própria Humanidade.
Disse que o direito à diferença deve-se transformar no direito à indiferença. Elucidou-me [nos] de forma clara e transparente, desmontando, passo a passo, os dogmas e os preceitos que acompanham o discurso pelo Não.
Paula Nogueira trouxe a cientificidade ao debate. Apresentou números e estudos, desviando-se claramente da ideologia utópica (noutras matérias) do seu partido.

Nuno da Câmara Pereira foi dogmático, mas sereno. A certa altura, no discurso inaugural, pensei que estava a ouvir um líder de extrema-direita, tal era a forma empolada que falava da Família, do Casamento, da historicidade da instituição, da Crise de valores, dos vícios do cosmopolitismo. Uma mística do dogma eclesiástico apresentava-se, ali, à frente de dezenas de jovens de inúmeras áreas.
O Não tem melhores argumentos que os que ele apresentou. Levar o problema à nomenclatura, ao instituto e à perspectiva unitária de "Família" é empobrecer a própria argumentação. O Partido Popular Monárquico apresentou-se pela inviabilidade e pela mentalidade setecentista.

Sou pelo respeito, autonomia e pela liberdade de escolha e desenvolvimento da personalidade. Vedar, de forma preconceituoso e autocrática, um direito a alguém, que é diferente não por opção mas por orientação intrínseca, é desrespeitar a própria comunhão natural do Homem. A Justiça mora no respeito pela diferença, na faculdade de viver e tratar naturalmente o preto e o branco, o que é redondo ou rectangular, amargo ou doce, fugaz ou lento.

Temo que, como em muitas matérias, se esteja a querer dar um passo maior que a perna. Corrigir o edifício legal sem abalar a estrutura social, mental e ética da sociedade, torna o processo mais controverso. Num tempo em que nem educação sexual há nas escolas, pedir aceitação da diversidade, das minorias, das diferenças de género, da compreensão do ser humano como múltiplo e ramificado, talvez seja precipitado.

Mas, como conversávamos entre amigos, depois da Conferência, os primeiros (os "sofisticados" ou os "loucos" ou os "anormais") sofrem mais (até de mais) que os vindouros. Já com os pretos, ecologistas e mulheres (de calça, mini-saia, cabelo curto...) assim o foi.

A maré agita-se, repica-se e enfurece-se. Os loucos que a enfrentam e maneiam ficam para a História.

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

7 comentários:

  1. Grande conferência, também queroooo!

    Acredito, se bem te conheço, que tiveste que te agarrar à cadeira com alguns argumentos!

    =)

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  2. Obrigado Luis, é muito gratificante receber um comentário como o teu.

    Escrever nunca foi o meu ponto forte (infelizmente), principalmente no que diz respeito a virgulas e acentos. Sou mais dotada na matemática, química e biologia e ao longo dos anos deixem de me empenhar (tanto) na disciplina de português.Eu sim, admiro e invejo (de forma saudável) a forma como escreves.

    O tema da conferência dá muito que falar…
    Há pessoas que chegam a falar da homossexualidade como uma doença ou paranóia e essas pessoas que saiam da caverna…haja bom senso. Não sei como é que a ciência, a psicologia, whatever…definem a homossexualidade. Eu sou a favor mas tenho a noção que, por vezes, me torno contraditória.
    Sou a favor do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo mas penso que a sociedade portuguesa não está suficientemente “iluminada” para que isso aconteça, e isto para bem dos homossexuais. O casamento é um contrato e, para mim, não deve ser um Código Civil a dizer com quem cada um deve ou não dormir.
    Contudo, não sou a favor do casamento católico entre homossexuais (eu avisei que era contraditória). Sou católica e sempre tive a ideia de que o casamento católico é concebido única e exclusivamente como meio para atingir o fim da procriação.
    Apesar de ser a favor do casamento civil não concordo com a adopção legal por parte de pessoas do mesmo sexo, porque pura e simplesmente percebo zero das (eventuais) repercussões no normal desenvolvimento da criança. E visto que isto (Adoptaçao legal por parte de pessoas do mesmo sexo) é outro tema que dá ainda mais que falar e como não quero ser chata nem fugir ao tema, fico por aqui…

    De uma coisa tenho a certeza...vou começar a ser leitora assídua do teu blogspot.

    Desculpa se me prolonguei no comentário, mas sou incapaz de ficar indiferente a estes "problemas" dos nossos dias.

    Beijinho Luis

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  3. Cat'Z - como me conheces bem! Foi mesmo isso que aconteceu. Mas eu sou sapiente e bom ouvinte. Beijinho Grande, minha amiga!

    Paladares - a maneira como se escreve é particular como a própria peculiaridade do ser que traça as linhas do discurso.

    Quanto à problemática.
    A mim também me fazia confusão a questão da adopção. É, aliás, neste campo que acho a Conferência esclarecedora. Saí de lá a duvidar de todas as coisas que pensava até então. Abri, ao meu campo de pensamento, a possibilidade de as coisas não serem tão claras como eu as pintava. Os testemunhos na primeira pessoa, os estudos e números apresentados conseguiram pôr-me a pensar. Apesar de estar mais elucidado não tenho bagagem suficiente para ter uma posição definitiva. Tenho consciência que necessito de mais informação para atingir o nível de seriedade que uma posição dessas precisa.

    Quanto aos casamentos católicos, e como católico, sou completamente contra. Também se falou disso na Conferência. E os Homossexuais não lutam pelo direito ao Casamento na Igreja, mas sim ao Casamento Civil. E o Estado não pode discriminar, em favor de acepções morais (anacrónicas, acrescento), quem quer que seja. Esta não é uma discriminação positiva, mas sim negativa, bastante negativa. O Estado vive de Pessoas. As Pessoas são o Estado. Ele não pode discriminar sem razão. É acima de tudo uma questão de Justiça e Igualdade. Como dizes, o casamento é contrato (é isso mesmo) e o preenchimento valorativo, sentimental, é feito pelos contratantes (de uma coisa que é já para-positivada, para-contratada). Para mim e para ti (penso eu ) casamento é contrato (estatuto jurídico) e faz sentido com a bênção de Deus, para outras pessoas Deus não tem que ver com o assunto, porque não acreditam (lá está a liberdade e o direito ao desenvolvimento livre da personalidade). As múltiplas percepções de casamento, mas sobretudo de família, não empobrecem nada (como o Não quer fazer crer), nem ninguém, mas sim complementam, preenchem melhor as brechas, os espaços de Humanidade que é múltipla como o próprio Universo.

    Agradeço muito o comentário (mesmo que longo, eu gosto assim; as coisas discutem-se). Beijinhoo!

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  4. Eu cá, nisto como em tantas outras coisas, sou uma "open minded", está-me no sangue.
    Creio que a questão do casamento pela Igreja (se a de que falamos é a Católica) nem sequer se coloca. Falamos de direitos (iguais para todos, vem plasmado na CRP, nem percebo qual é a dúvida, a dEscriminação e, pior ainda, a dIscriminação é pura e simplesmente ilegal!) e o Direito é uma questão da sociedade civil, não pode legislar no âmbito da crença.
    Quanto à adopção... ui, isso daria um romance. Mas sou a favor. Irredutivelmente a favor. Porque falar das repercussões para as crianças adoptadas era abrir caminho para falar de todas aquelas que são adoptadas por casais constituídos por seres de sexos diferentes, mas/e perfeitamente disfuncionais.

    Gosto de te ver interrogar, debater, argumentar, pôr em causa, mudar de ideias se necessário for.
    É fantástico ver-te crescer como ser humano!

    Beijo!

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  5. Confiança que às vezes escasseia. :)

    Beijinho Luis

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  6. A temática da homossexualidade (masculina ou feminina) a meu ver baseia-se nisto que escreveste e que é sempre o argumento que uso, independentemente de se tratar apenas do direito a sê-lo, de se casar, da castração social de nao poderem andar na rua como uma casal straight de namorados, etc etc...

    A frase que usas e que por outrras palavras sempre usei como argumento imbativel, é: "alguém, que é diferente não por opção mas por orientação intrínseca".

    Não se tratam de caprichos. Ha suicidios e depressoes e vidas cinzentas por ignorãncia do resto dos outros.

    Claro que no meio disto tudo tal como acontece com quem nao é, nao significa que todas as reivindicaçoes sejam válidas, mas a primeira certeza é a do direito fundamental a ser o que se é...

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  7. Hello, i´m the author of the picture you used in this entry, i´m glad you liked and i´m proud of having a piece of my work being exhibit here, but please could you have a link back to my gallery to credit me as the author since this is not a stock image?
    thanks
    Nayiny
    My gallery -> http://www.nayiny.deviantart.com/

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