domingo, 21 de junho de 2009

Na algibeira

Nem sempre as coisas nos correm de feição. Ora falham os amigos, ora falha a família, ora o sol se esquece de arrefecer, ora a água teima em não aquecer. Acho que nunca ouvi ninguém dizer, com a devida serenidade, que a vida é fácil. Não raro, são mais os dias maus que os bons. Ou melhor, merece mais atenção a negritude do que a branquitude, in reflexo de uma insatisfação constante.
O Homem esquece-se do valor de uma reflexão, de umas lágrimas justas de final de noite. Dormir sobre o assunto, costuma resultar. Lutar contra a realidade, costuma frustrar. Mais vale uma lágrima enxuta pela brisa da injustiça do que um berro açaimado pelo medo da frustração.

Pelas pessoas, rejeitando pessoas ou dentro de pessoas. É nestes campos que o Homem vive e interage. Nunca é Homem sem Homens, animais e toda a realidade social que o envolve e formata. Um dia ensinaram-me que o Homem é um ser biosociocultural. Não me tentem argumentar o contrário, eu sinto-o.
Pensar que podemos, em pleno acto premeditado, encontramo-nos sozinhos, é demagogia. Pura e clara demagogia absorve a inteligência daqueles que se acham asentimentais. Esta é uma das coisas que nunca me vou conseguir dissociar. Nascemos, no auge da fertilidade, ligados a uma pessoa. Quando o vínculo biológico se rompe a selva e a luta tornam-se, por sarcarmos, numa realidade: estamos abertos aos jogos sentimentais. Mais do que vínculos biológicos, cá fora abundam linhas invisíveis cheias de carências e prestações. A e B interagem como loucos. Na rua: impulsos hormonais, energéticos, pura pseudo-sinergia de corpos.

Valha-me a Psicologia de algibeira e a convicção de não poder deixar de ser quem, na verdade, sou.

Luís Gonçalves Ferreira

9 comentários:

  1. Soube-me pela vida, Luís :)
    adoro as tuas palavras*

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  2. Soube-me pela vida, Luís :)
    adoro as tuas palavras*

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  3. Eu distingo: pessoas mascaradas, de pessoas com máscaras. As máscaras são defeito de fabrico do ser humano, mas existe quem as use por opção, personalidade, seja o que for. E quanto a não sabermos se somos a pessoa que realmente somos ou a que queremos ser, é bastante vago. Acho que nunca somos a 100% o que queremos ser, e nunca sabemos bem aquilo que somos, porque a mudança... é a lei da vida, e por mais que queiramos, não damos por ela todos os segundos, mas de tempos a tempos, especialmente pela mudança de atitudes, que levam a comportamentos diferentes, e consequentemente a respostas de estímulos tambem elas diferentes. Aí chegamos à conclusão: mudei. Ou caso a inteligência seja o ponto fraco: os outros mudaram.

    Quanto ao teu texto... Concordo que somos seres biosocioculturais. E pelo contrário, não nos encontramos sozinhos,nem no campo físico, nem espiritual, nem o que quer que seja, excepto no campo psicológico. Pode ser cliché, mas a verdade é que todos vivemos debaixo do mesmo céu, mas não há absolutamente ninguém com a mesma visão do mesmo horizonte. Nesse aspecto, para mim somos seres sozinhos, num mundo que existe dentro de nós. Porque a realidade não é criada fora de nós, mas de dentro de nós para fora, e é por isso que costumo dizer que somos seres independentes e sozinhos num mundo só nosso.

    Desculpa o testamenro, foi para compensar a minha ausência aqui :b

    Abraço.

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  4. Afonso - Não sei até que ponto uma realidade interior construída pelo exterior não deixa de ser, ela mesma, um produto social. Repara, tu não nasces com um cubo psicológico e mental fechado, completamente construido. Essa forma de ver o mundo, tua, sempre singular, não é mais do que uma recolha, quer mediata quer imediata, de pedaços da realidade social. Não é só de fora para dentro, mas é, na minha opinião, substancialmente de fora para dentro que nos construimos e que arquitectamos o nosso modus vivendi et operandi. Somos um animal no momento que nascemos. A sedimentação do "eu", da psique, é feito por introspecção e assimilação da realidade sensível. Daí existirem os esteriótipos, as pré-conceitos, as depressões, os esquecimentos regressivos. Daí existirem formas de pensar que são absorvidas do exterior e que condicionam o nosso interior. Depois cada um vai cunhando as coisas da sua forma, e aí existe essa tal particularidade de cada um.
    Eu não consigo ver o Homem como um ser fragmentado: ora um compartimento físico, ora outro espiritual, outro psicológico. É uma unidade complexa. É ser bio+socio+cultural.

    ;)

    Seja sempre muito bem aparecida essa postura crítica que tanta falta faz à sociedade!

    Abraço

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  5. Luís não sei se já te tinha dito mas tens das escritas mais inteligentes que tenho visto, parabéns, és genial, como sempre.
    Beijinho.

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  6. Ok, já me tinha esquecido do quão bem escreves :' )

    A vida NÃO é fácil, isso garanto.te eu ma friend...é bastante dificil e complicada e a própria vida é a propria morte por vezes...porque viver sem lutar pelo que queremos, sem reivindicarmos aquilo que é nosso, sem exigir a justiça, sem usufruir da liberdade e sem deixar os outros usufruirem da mesma não é viver, não é existir, é somente respirar.
    Quantas vezes já chorei de dor, frustração e humilhação?Muitas estou certa. o que com a vida aprendi foi a não deixar que aqueles que me fazem chorar me vejam e a combater essas lágrimas com um sorriso cheio de ironia e uma atitude vingativa mas correcta apesar de tudo.

    GMDT Uisinho *.*

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  7. Tens sempre tanta razão no que escreves Luis :')

    Amanhã, quando chegar a casa, faço um comentário decente...

    Beijinho

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  8. Bem... mas que texto ;)

    Muito bom, mesmo, mas diria, talvez, isto: que falas no determinismo mas também na liberdade que nos é intrínseca, qual poder discricionário do Juiz para além da sentença de acordo com a lei.

    Got the point?

    E há outra coisa: nao devemos psicanalisar tudo. Sabemos que ali está o Sol que nos aquece, que é bom na praia, etc... Sabemos que é composto por hidrogenio, helio e outros gases.... mas vale a pena pensar de onde veio, como apareceu, porque está ali em vez de fruirmos o seu calor?

    O que tento dizer é que, devendo embora ser críticos, devemos também tentar ser naturais...

    este acto foi determinado por condicionalismos geneticos, ou foi mesmo livre, dado que se eu interiorizar o cultura, a familia, os gostos e o meio ainda consigo ser eu no meio disso tudo?

    cada um de nós é unico e singular: tanto que nao chegamos a conclusões. O "Conhece-te a ti mesmo" de Socrates no Templo de Delfos é um processo contínuo, mas independentemente de sermos uma mescla na extraordinaria mente humana e no que está para além dela que a neuropsicofisiologia nao explica, devemos tentar a simplicidade do viver... por mais que seja verdade, e é, tudo o que escreves...

    Faz-me lembrar um historia assim: um amigo tinha imensos problemas e depois de os desabafar com outro amigo, este diz. "olha eu nao percebo nada disso, mas sei que te posso oferecer um gelado"... Como quem diz, nao penses mais nisso...

    Grande, grande abraço, Luis... Estava em falta no teu espaço :)

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