terça-feira, 7 de julho de 2009

'60

Não sendo a pontualidade a minha qualidade mais evidente, naquele dia cheguei a horas Não queria desiludir-te mais uma vez, não achava justo fazê-lo Os teus olhos angélicos, a tua voz rouca, o teu perfume de côco e o "amo-te", com sabor a café, não mereciam mais uma rasteira psicológica. Sei-o, porque te conheço, embora sempre te tenhas queixado da minha aparente desatenção.

Postrei-me, espectante, na sombra da nossa "árvore". Tinhas-me mandado escolher o local do reencontro. Eu queria-o no recato de um espaço privado, mas tu, por medo da tentação, não o quiseste. Sugeri aquele local - o das "emoções". Sempre soube que não era o indicado para discutir os "bê-á-bás" da nossa relação. Mas, no caso, a culpa é tua, foste tu, inundada em sentimentos egoístas e prepotentes, que escolheste.

Passavam cinco minutos da hora marcada e tu não havias chegado. Pensei que, provavelmente, terias apanhado trânsito. Correu mais uma dezena, sofrida e angustiada, de minutos, e tu, demoravas em chegar. Pensei, pela primeira vez, que já não virias. A esperança permanecia. Entretanto, dobrou-se o relógio nos trinta minutos e o coração desesperou. Foram mais dez, vinte e outros trinta, nada. Contavam-se, pela pulsação e pelos passos dos transeuntes, as instâncias semiótico-representativas da falta de decência moral.
Como o âmago previa, não chegaste. Não consegui controlar a pulsação, a dor, o gosto agridoce da agonia, e fugi. Não sei se quero saber mais de ti. Desiludiste-me. Vi-me ao espelho com a soma de uma desilusão e observei mágoa, raiva e desespero. Transpus-me para ti e auto-somei-me às banalidades pelas quais te fiz passar. Não sei como aguentaste uma pessoa como eu, com todos estes defeitos pestilentos.

Não sei se te conseguirei pedir desculpa. Mas, até lá, sentir-te-ei aqui, na constância irremediável deste desespero atroz e sobre-humano.

Arrependimento. É unicamente aquilo que consigo verbalizar.

Luís Gonçalves Ferreira

3 comentários:

  1. Ler um texto destes acompanhado da música que aqui tens fez-me sentir uma certa tristeza que te anda a assombrar por aí, Luís. Todos nós esperamos por alguém, ou por alguma outra coisa, mesmo que não seja na sombra da "árvore"...
    A espera, a desilusão, a espectativa, o arrependimento e a tristeza fazem parte da idade e do crescimento. Ás vezes não devíamos dar tanta importância a isso, mas então, a ferida dói sempre independentemente da causa que a provoca. Queremos lá saber se faz parte da idade! Dói! Os outros causam um grande efeito em nós, ou pelo menos em mim. Defeito de fabrico o meu, é assim...
    (Devia de ter saído às 13:00 do trabalho e só cheguei agora. Manhã muito complicada, entre hospitais e choradeiras. Também a mim me dói por aqui qualquer coisa. Volto a repetir: é bom vir aqui Luís!)

    Um beijo grandalhão e vê se te animas.

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  2. Lá está a tal mudança de que tanto falo...Tenho muitos amigos que deixaram de ser o que eram quando entraram para a universidade. Uns, tal como tu, perderem uma certa alegria e vivacidade. Outros, pura e simplesmente, tornaram-se nuns loucos que só fazem é beber e fumar e ir a festas e (...)

    Acredita em mim: Com o tempo habituamo-nos a tudo. E sem dares por isso, voltarás a ganhar a cor que anda escondida, e o cinzento que te envolve agora irá desaparecer sem avisar.

    (É estranha esta coisa da vida mudar. Num dia somos crianças felizes nos braços da mãe, no outro já estamos à beira de um emprego e de uma casa com contas para pagar, e talvez um casamento com 2 filhos. QUE MEDO!)

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  3. Se tivesses ao pé de mim agora tinhas levado uma sapatada. "Desculpa pelo desabafo" ? Não tens nada que pedir desculpas, devias sim ter escrito "Depois de me massacrares tantas vezes com a tua vida, os teus problemas e os teus exageros descomunais, senti que estava na hora de ser a minha vez a escrever-te algo mais pessoal sobre mim"

    Não vou dizer que percebo a situação pela qual estás a passar, mas consigo entender a tua dor e a tua frustação quando vês que não estás a conseguir dar tudo de ti. No fundo, ambos sabemos que tu consegues ir mais além do que fazes presentemente, mas Luís, tem paciência contigo. Porque não deixar os tais papéis de estudo de lado, durante um dia ou dois, e relaxares? Fazeres algo que te anime e onde arranjes a força que fugiu de ti, feita cabra? :/ Diverte-te, sorri e, com a cabeça fresca e um pouco menos atulhada de responsabilidades pelo cano a baixo, lança-te novamente ao Direito. Porque tens de acreditar em ti, porque és inteligente, lúcido e não podes desmotivar assim.

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