domingo, 20 de dezembro de 2009

Coisa qualquer



When I was a young boy,
My father took me into the city
To see a marching band.
He said, "Son when you grow up,
would you be the savior of the broken,
the beaten and the damned?"

Welcome to the Black Parade
My Chemical Romance

Um sonho negro, volátil, completamente volitivo. Uma excursão da morte carregada de melancolia, medos e ódios ancestrais. São tesouros de um povo. Jugos podres de cadáveres, desses corpos sem vontade nem apetite sexual. Na penumbra da Glória, vive-se na obscuridade e na submissão. Ao sol somos brilhantes, mas a luz própria apaga-se. Nas trevas da noite, onde a luz natural se devia ver, o pavor trabalha e malha sobre os sorrisos, sem piedade.

Esta minha instabilidade irrita-me profundamente. Ora sou sol e depois lua, ora sou luz e depois treva, ora sou Rei e depois escravo de mim. Tento arrancar o espírito a ferros frios, de dentro para fora, sem crer no invés. Não consigo. Mordo-me por dentro, fustigo-me, navalho-me, magoo-me. São espinhos de carne, cheios de sentimentos negativos e de memórias recalcadas. Não serei capaz de sonhar com fadas e maravilhas? Este corpo potrificado não deixa nem quer novas coisas. Vomito-me nas palavras, sem tempo para reflexões. Dedos à goela e acendem-se as chamas da interioridade. Sou luz novamente. Exorcizo-me, exteriorizo-me, extravaso-me assim. Depois da negritude vem a branquitude, onde a discricionaridade entre os extremos é graduada em cinzas e cores estridentes. Entre os dois pólos sou. Entre os dois cantos fui hoje, aqui, mais uma vez. Sou complexo. Sou-o no extremo, daí a vossa incompreensão.

É a parada negra repleta de camas e estandartes de caveiras e ossos. Acendam-se as tochas, desçam os capuz, tapem a face, sejamos um só, mais uma vez, como se o corpo de pouco valesse. Alma sem corpo não existe, excepção feita às massas despersonalizadas, mas cheias de valores comuns. O valor de cada, enquanto Ser, está metido em frases pomposas, feitas pela classe dominante. Deus fugiu e não quis assistir a isto. Não são estes os Filhos do Homem.

Ergam-se as bandeiras. Afiem-se as espadas. Saquem-se das trompetes e dos canhões. Esqueçam-se as dores e o sangue. Era assim que eu queria sobreviver. Sem mim e vazio das tristezas que me assolam... Tudo seria mais fácil. Muito mais simples.  

We'll carry on.  Because the world will never take my heart. We'll carry on.

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

2 comentários:

  1. Obrigada!

    Adoro My Chemical Romance e o teu texto.. Bem, o teu texto está cru. Um cru agradável! Gostei imenso :)

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  2. Ufa! Beeemmm... deixas-me sem fôlego. Está pujante como quem grita e rasga a alma sabendo que o não quer. We'll carry on, we'll carry on, como quem diz "The show must go on"... com o que se deixa para trás.

    Se te "rasurasse" o texto, deixa-lo-ia assim:

    "Ao sol somos brilhantes, mas a luz própria apaga-se. Nas trevas da noite, onde a luz natural se devia ver, o pavor trabalha e malha sobre os sorrisos, sem piedade.

    Tento arrancar o espírito a ferros frios, de dentro para fora, sem crer no invés. Não consigo. Mordo-me por dentro, fustigo-me, navalho-me, magoo-me. Não serei capaz de sonhar com fadas e maravilhas?

    Acendam-se as tochas, desçam os capuz, tapem a face, sejamos um só, mais uma vez, como se o corpo de pouco valesse.

    Ergam-se as bandeiras. Afiem-se as espadas. Saquem-se das trompetes e dos canhões. Esqueçam-se as dores e o sangue. Era assim que eu queria sobreviver. Sem mim e vazio das tristezas que me assolam... Tudo seria mais fácil. Muito mais simples."

    CLAP CLAP CLAP Grandioso, Luís, grandioso.

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