sábado, 13 de março de 2010

Máquinas de carne

Se dúvidas existissem quando à inata malvadez do ser humano, as últimas notícias de fenómenos de bullyng, com direito a suicídios de professores e alunos, acabam por extingui-las, ou, em extremo, a considerá-las. 

Tentam atribuir culpas às próprias vítimas, aos professores e aos alunos. Alunos que são crianças. Professores que fazem tudo menos ensinar, tamanho o caos de valores que populam as cabeças dos mais novos. Se à criança lhe resta a aprendizagem e contenção pelos valores que lhes são vinculados, às famílias e demais educadores sobra-lhes um papel fundamental: O de limar, através de valores, as arestas poeirentas e animalescas dos homens-pequenos. O Homem parece esquecer-se, no meio da poluição tecnológica, que é básico, animal e biologicamente instintivo. Existe um real empobrecimento da família como templo de valores, não por culpa da modificação do género dos seus elementos, mas por perdas substantivas no estímulo ao contacto terno com os outros ser humanos, seus semelhantes, que merecem prestações positivas. 

Nós projectamos nos outros a nossa própria imagem. As crianças que se manifestam más, cada vez mais cedo, espelham a falta de construção resultante de uma socialização primária pobre de afectos. As escolas, meros repositórios daquelas coisas pequenas que estragam tudo, não conseguem trabalhar coerentemente em terrenos de lama. Professores, auxiliares e demais educadores foram formados, à partida, para incutir outros valores complementares aos que se aprendem na família ou no seu substituto nominalista.
Os grupos e os seus efeitos sempre existiram e existirão. Fazem parte do crescimento. Contudo, nunca se viram pais tão mal formados como os de agora. Serei pai e não desejo ao meu filho o mergulho, em desespero, nas águas de um rio qualquer. A água espelharia, para ele, o turbilhão de sentimentos que ninguém via. Despia-se, como quem esperava pelo salvamento. Deu-se ao tempo dos outros. Mostrou, ali, suavemente, a fragilidade de quem quer chamar à atenção. Foi um salto, não para a morte, mas para os ouvidos daqueles que teimaram em não escutar os seus gritos.
Falo do Leandro de Mirandela e do professor de Sintra, e de todos os outros Leandros e educadores que perecem perante esta sociedade maquinal...

Luís Gonçalves Ferreira

6 comentários:

  1. Vivemos numa sociedade cruel. Onde deixamos que os mais pequenos cresçam ao sabor do vento. Lamento muito, mas eles não nascem educados. E depois os resultados são o que são. Acho que muitos "grandes" por aí andam a precisar de dar umas quantas cabeçadas na parede até perceberem que muitas coisas podem mudar através deles próprios. Mas, infelizmente, é esta a realidade que temos. E, por muito que demonstremos a nossa revolta, o nosso ponto de vista, que tentemos espalhar os nossos valores (provavelmente, e não dificilmente, bem mais correctos que os de quem faz acontecer tais calamidades) não é através disto que qualquer coisa vai mudar. É pena.

    Beijinhos Luís :)

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  2. E isso tem andado tão comum que assusta. Minha mãe foi educadora por 25 anos, hoje está aposentada e agradece a Deus por não estar na ativa diante da atual realidade de uma escola pública. Perdeu-se o respeito pelo ser humano, completamente, e são os pais, em sua omissão, que perpetuam isso. Esta falta de contato entre família é um agravante, sem dúvida. Falta tempo, e mesmo vontade, para os pais exercerem seu papel. Repassam à escola uma responsabilidade que é também sua e depois de tudo ainda tem coragem de reclamar da sociedade que se forma.

    Triste.

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  3. Arrepiante e animalesco. Uma realidade crua; uma realidade que não deveria existir.

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  4. Uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade, infelizmente.

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  5. O meu pai é professor no ensino secundario... E nem é bom o que ele passa... Mas a verdade é que ele la se vai safando, ao demonstrar a sua faceta de durão, e bem ou mal eles lá o vao respeitando. Mas hoje em dia ser-se professor é mto mau... E aluno? As vezes tambem é...
    Beijinhos*

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  6. Eu só agora estou de regresso. Não é tarefa fácil trabalhar, estudar e dedicar tempo e amor a quem gostamos. Mas com vontade tudo se consegue (: Um grande beijinho Luis, espero que estejas bem*

    Ps: quando ao assunto do teu post, é a cruel realidade sim, falta de civismo é o segundo nome do nosso país.

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