segunda-feira, 31 de maio de 2010

Espartilhos, Corpetes e Crinolinas

Durante a minha vida vivi com corpetes justos, espartilhos apertados e crinolinas pesadas. Oram mudavam os formatos, ora as cores, ora as cordas: finas ou mais espessas; largas ou mais justas. Incomodativas, sempre foram, essas fartas locomotivas. É a existência numa asfixia de moldes, frutos de tempo e espaços próprios. As pessoas correm, a olhos vistos, em todas estas justuras que sufocam a beleza de se viver livremente. Não são paredes de tijolos, mas feituras humanas, medíocres, das cabeças, que viram práticas-produto. Luís XIV usava saltos altos. Confortáveis não eram por certo. Certo será que as crinolinas, os corpetes e os espartilhos, das damas da sua corte, também não o eram. 
Todos vivem (e não sou só eu) com adereços sociais inúteis, desconfortáveis, que não são de cimento, nem de barro nem de pano nem de madeira nem de arcos nem de varetas. Nem de nada que se possa descrever em linhas de homens.
As coisas que espartilham, encorpetam ou crinam a vida não são as óbvias coisas que o vosso e o meu imaginário arquitectam para esta valsa de adereços de moda. Falo, aqui, de moldes, modelos, tigeladas de barro que nos metem, desde pequenos, pelo cérebro dentro. São preconceitos, arquétipos, brocardos. São moldes. E mais moldes. E mais cimento e barro.
"Olha que ficas como o teu tio." 
"A tua irmã é mais inteligente que tu". 
"Se não fizeres isto arrependeste". 
"És um mau filho". 
"És má pessoa". 
"És mau namorado". 
"És inferior à pessoa X, mas superior a Y". 
"És". 
"És".
"X é e tu não és".
É a sobranceria do ser, pelos outros. Somos comandos, postas fixas de carne, em desejo de prazer e de felicidade, meramente sujeitas às prestações dos outros. São moldes. Como as tigelas que nos dão o caurdo da ceia. Feitas e refeitas vezes sem conta, na mesma esquemática ignorância de não se pensar que se empobrece o outro assim. Modelos. Chuvas de comparações. Premissas. Prestações. E modelos. Sempre me senti emparedado nos outros, mesmo entre pessoas que nem conheci. E isso desagrada-me. Sempre me destabilizou, mas não tinha voz para refilar nem dizer nada. Aceitei. Fui chamado de "burro". Cresci. E repulso comparações.
Repulsa. Nojo. É isso.
E cresci. E vejo o Homem como um ser, primariamente isolado, sem roupa, nem apetrecho nem ancas nem vestidos nem crinolinas nem espartilhos. Topo-lhe humanidade. Dou-lhe respeito. Não o comparo. É um ser. Precisa de crescer. É particular. Nada de paredes. Nem muros. Nem bem nem mal. Nem ocidente nem oriente. Cansei-me de formas. Fadiga egoísta. Logo depois, enformo (os outros) num bolo, fruto da observação. Não comparo nem subestimo. Conheço.
Afinal de contas, Deus criou o homem e a mulher nus e eles tocaram-se, corporalmente, e tiveram prazer. Viram o outro. Não existiam espartilhos nem corpetes nem crinolinas antes de serem verdadeiramente conhecedores de si. Era correcto o silogismo se eles não fossem logo emparedados entre as pernas do Deus do Bem e as coxas do Deus do Mal. Era lógico o pensamento até serem vestidos, de moldes, que eram folhas de preconceito. 
Modelos. 
E mais modelos. 
Paredes e muros destrutíveis.
Eu próprio sujeito-me à sujeição dos outros aos meus moldes.
Por respeito à minha história, não me comparem. Estimem o que sou e não o que querem que seja. Mimem o que está cá, se for isso que o coração pede. Deixem-me ser, livremente, sem Espartilhos, Corpetes e Crinolinas.


Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

8 comentários:

  1. Não vou estar aqui com rodeios e mais rodeios, a mensagem que transmites é bem explicita a meu ver. Simplesmente não devemos mudar a nossa personalide / atitudes só porque os que nos rodeiam querem, se eles quiserem é que se tem de moldar ao nosso modo de vida e lidar com ele, mas isso só se eles quiserem fazer mesmo parte da nossa vida. Como se custuma dizer quem gosta gosta , quem não gosta paciência .

    Beijinho *

    ResponderEliminar
  2. Luis (:

    É muito bom ter-te de "volta" ainda mais com esse pensamento com o qual hoje acordas-te. Não é facil te-lo mas quando o temos faz-nos imenso bem a nós mesmos e a quem está perto de nós.
    Gostava de ter um poder mágico ou qqr coisa assim sobrenatural e fazer com que todas as pessoas se lembrassem pelo menos do como seriam capazes, se quisessem, de mudar o mundo. Ou pelo menos o mundo de alguém.
    Basta querer e deixar-mos de olhar só para o nosso umbigo. Sentiriamo-nos bem melhores e a sociedade seria muito mais feliz (que é o que tanto falta hoje em dia).

    Um grande, grande beijinho (:

    ResponderEliminar
  3. É um facto, todos nós fazemos sacrifícios para ser parte de uma sociedade não merecedora, grande parte das vezes.
    Também já tinha saudades de ti lá no meu cantinho, e eu de vir aqui também.
    Beijinhos Luís! :)

    ResponderEliminar
  4. "Não comparo nem subestimo. Conheço".

    Luis, esse texto é simplesmente perfeito! Perfeito pra mim, e por tudo que penso a respeito desse "molde" que nos enfiam desde muito cedo. Eu já sofri muito com isso, sei exatamente o que quer dizer cada uma dessas suas palavras. Conhecer é o passo! Pensar faz sofrer, é dolorido e dá trabalho, geralmete, as pessoas apenas concordam. Ah, meu caro, eu teria um prazer enorme de sentar e conversar com você por horas. Por alguma vezes, conversamos via msn sobre esse seu tema de hoje, e me senti incrivelmente bem. Temos que fazer mais isso, heim!? Permita-me usar seu texto em uma das minhas aulas? Eu adoraria levar isso à debate.

    Um beijo enormeeeeeeeeeeeeeee! Você expressa em palavras toda a sua opinião infinitamente dolorida, mas, verdadeiramente intensa. Nos faz pensar... E isso, é muito bom!

    ResponderEliminar
  5. Jacque - Quanta honra! Claro que podes usar o texto. Escrevo as coisas para serem lidas, desde se usadas sejam colocados os devidos créditos autorais. Podias era filmar essa aula e mandar-me o vídeo para eu ver os teus pupilos a discutirem a temática lançada pelo meu texto. Acho que nunca fizeram nada do género com um texto meu, e seria, verdadeiramente, um orgulho. Beijão grande, minha amiga. E sim, as nossas conversas têm que se multiplicar, porque são óptimas. :)

    ResponderEliminar
  6. Simplesmente o teu melhor texto! Adoro a forma como crias a alegoria entre a realidade que se vive com a moda, neste caso, oitocentista. Não há que parecer bem, há que ser bem, e todos nós temos devaneios, sem isso, não eramos seres vivos :)

    ResponderEliminar
  7. Olá, fiquei sem palavras escreves como um "senhor"... Parabéns!

    Vi o que disseste dos direitos de autor, gostei tanto do texto que postei no meu fórum com devida fonte claro, sem querer fazer publicidade ao fórum, enviarei-te o link por mail, para confirmares.

    Abraço DavidM, continua a escrever, escreves muito bem mesmo!

    ResponderEliminar
  8. adorei conher as crinolinas gostaria de ter vivido nesta epoca...

    ResponderEliminar

Vá comenta! Sem medo. Sem receio. Com pré-conceitos, sal e pimenta!