quarta-feira, 7 de julho de 2010

A ginástica do coração

O poeta não tem que sentir para escrever sobre. O poeta, como mestrou Pessoa, é um fingidor que finge completamente a dor que deveras sente. E isso é a mais profunda constatação. Um poeta, caros leitores, não tem que ter tudo à flor da pele para abordar as coisas.  Isso é coisa dos fracos que, como os bebés, precisam das coisas ao pé para saberem que existem. Um poeta, apesar de poder não estar a viver ali, naquele momento, tem que conhecer, mesmo noutros contextos ou contado por outras pessoas. A dor, que é o grande auxílio de quem escreve, é-nos trazida não só pelas nossas mãos, mas simultaneamente pelos olhos e apertos de peito que os outros nos transmitem, quotidianamente. A dor - a humana e poética inspiração - comove. 
A dor é marketing. Difícil é fazer rir um coitado que paira nas ruas da amargura e fazer despertar a mais básica situação de se ser feliz. Nos dias de hoje, ser feliz é regra e a excepção é a tristeza. Excepção que, por pobreza de espírito, se transforma em sub-regra, dependente da regra para se conhecer. Daí que pense, diversas vezes, se, afinal, o homem não é, no final das contas, um ser masoquista. Todos, em alguma ocasião da vida, já perseguimos, incansavelmente, aquilo que nos magoa e faz mal. Por estupidez que nos possa parecer, alguns deixam até escapar o que lhes faz bem por precária visão da vida. E esse é o meu caso, infelizmente. Estou a matar pessoas, ressuscitar fantasmas e acreditar em espíritos malignos. E isto tudo leva-me à infelicidade, ao fingimento artístico e ao status quo anterior que, por tantas vezes, mostro saudade. Agora descubro, num momento propício, que não me mato por dentro pelo que era, mas pelo "como estava". Tenho saudades do conforto, mas amo o que sou hoje, depois de tudo. Sou, aos tantos meses de um Verão quente, uma pessoa melhor... E isso, por incrível que pareça, acalma-me o espírito e a vontade de vir a ser criança novamente. Sentir é bom, porque faz ginástica ao músculo que é o coração. 

Luís Gonçalves Ferreira

1 comentário:

  1. A DO REI LOL

    tu surpreendes m sempre pela positiva!
    Es o meu genio!!!

    Beijinhooooo
    Maria das Dores
    nao de sempre, mas para sempre

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