terça-feira, 12 de abril de 2011

Doença dos olhos

Quem se apaixona está profundamente doente dos olhos, como diria o poeta. Vê tudo com o coração. Apaixona-se pelo coração. Desilude-se com o coração. O degradé do amor é isso mesmo: uma imensidão de cores, em caminhos, que vão (quase) todas dar ao lado oposto, mas vizinho, porque tudo se passa em círculos. A fronteira entre o amor profundo e a repulsa é ténue, saberá quem já se apaixonou. O mesmo acontece com aqueles que querem guardar o melhor dos outros em si e que lhe prometem curar a "doença dos olhos" mantendo o coração a ver. O coração e o olhos vêem, tantas vezes, coisas incompatíveis entre si, como dois direitos que chocam num qualquer exemplo de Direito. Quando paramos para dirimir a questão e dar palco ora uns ora o palco aos outros, verificamos que o palco é singular, canta a uma voz, e não é mais o do que uma surdina repercussão do mesmo em bocas diferentes. Amar pressupõe dádiva, verdade e confiança. Coisas que são cegas, mais das vezes. No mundo real, aquele do monocromado entre o preto e o branco (essa dicotomia das doidas não-cores), a oscilação entre a razão e a paixão faz-nos cair na melancolia das horas. Sejam elas tempos de verão ou de inverno. Nessa distância entre o clique que te dá no momento da ilusão e o clique que te dá no momento da desilusão, vives intensamente um corre-corre entre a tua própria ambivalência e imanência de sentir em duas frentes. Nos sentidos do tramado circo que é o cérebro, vais sentindo uma variedade louca de cores: e é esse o teatro dramático de ti. Umas cores mais verdadeiras que outras. Umas cores mais bonitas que outras. Mas serão sempre cores: um pesado nome que lhe estamparam na testa. O amor é um nome. As cores também o são. O cérebro e o coração e o que tudo significa não passam disso mesmo: rótulos de ti. Há quem conviva com rótulos e lhes dê razão na mentira da emoção. Há quem não ligue à emoção e sobreviva na razão. E há quem não saiba nada de nada, cresça a aprender e reconheça a vida como um caminho ambivalente, cheio de novos conceitos, de perdas e de desilusões. Eu sou um exemplo do terceiro género. E vivo feliz assim: nesta preparação para a felicidade plena que reconheço jamais conseguir alcançar por me recusar a viver mentiras.

Luís Gonçalves Ferreira

1 comentário:

  1. Que estrondo de texto Luis, estas tuas palavras encantaram-me completamente e concordo com a mensagem que acabas por transmitir com elas .

    Beijinho *

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