quarta-feira, 6 de julho de 2011

Anjo

Ela: Acreditas em Deus? 

Eu: Não sei se acredito, mas tenho uma relação especial com Ele. Sabes, confundem Deus com a Igreja e se a tua pergunta está nessa confusão, não, não acredito em Deus. Se estás certa das diferenças, sim, acredito em Deus. No verdadeiro, no que me inspira os passos e me inovou os traços, os valores e as relações com as pessoas. 

Ela: Sim, mas então Deus não é uma boa inspiração. És péssimo nas relações humanas, porque pensas que todos são capazes de amar o teu templo de valores. Eu vivi isso. Eu fugi de ti por isso. Essa tua busca incansável pela verdade dos outros não atrai ninguém, e consegue repulsar as pessoas de ti. 

Eu: Sim, é verdade... Sou bom de mais ou mau de mais. Depende da forma como acreditas na tua mentira, na tua ficção de vida. Recuso-me a viver ficções, ou tento não as ter como certas. Mesmo sabendo que elas existem. 

Ela: Mas... 

Ele: Sim, tens razão. Sou péssimo nas relações humanas, mas sempre fiz o que achei estar correcto. Abandonei a Marta porque simplesmente olhei-te nos olhos de uma forma mais carnal. Acho que nunca te tinha dito. 

Ela: Prefiro não comentar isso. Prefiro simplesmente não comentar. Apesar de estar esquizofrenicamente a comentar. 

Ele: Corri atrás de ti. E aprendi a amar. Como aprendi a deixar de amar. Amar também se aprende. Eu sou a prova disso: que os desastres da vida no campo de amor não te tornam mais forte, mas sim mais confuso. Acho que não sei lidar com as pessoas. E todo o meu amor é uma farsa. E foi destruído por culpa de uma farsa. 

Ela: Luís, acho que não me devias dizer isso. Eu não me encaro como uma farsa na tua vida... 

Ele: Não és tu a farsa. É o nosso amor a farsa. A forma como lidamos com ele. Como aprendemos erradamente com ele. Como acreditamos nele. Acredita que não sei se te amei como tu pensas. Nem tão-pouco sei se é correcto aquilo que vês em mim. Existem sempre duas histórias na mesma história. Ou as pessoas se encontram e aprendem a uni-las ou as peças não se juntam e elas continuam separadas. E tu existe para além do amor, da nossa farsa. É por isso que continuas em mim. Tens mais valor que isso. 

Ela: Temos duas histórias, então. Confesso que não percebo a tua... Como tu não deves perceber a minha. 

Eu: Não conheço a tua, diz antes assim. 

Ela: Nem nunca quiseste que a conhecesse, certamente. Está tudo ao nosso alcance. 

Eu: Não, não está. Se tivesse ter-te-ia comigo, como amor. Teria ido para a praia contigo. Teria tido sexo contigo em todos os locais. Ter-te-ia apresentado a minha família. Teria plantado uma árvore contigo. Teria sido eu: a pessoa que não conheces. 

Acordei da irrealidade metafísica de um sonho recalcado de recordações velhas. Esta conversa nunca acontecera, na verdade. O amor nunca aconteceu. De resto é tudo verdade. Resta saber se a ilusão de ter sonhado e estar acordado esta dentro do sonho ou fora dele. Se estiver dentro, na matrioska maior, continua a ser um sonho. Irreal, transcendente, mas consciente. Jamais bêbado de solo interno. 

1 de Maio de 2011
Luís Gonçalves Ferreira

1 comentário:

  1. Que dialogo interessante e cheios de descobertas e sentimentos , gostei .

    Beijinho *

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