sexta-feira, 15 de julho de 2011

Longe da morte, mas perto do coração

As cortinas desceram e faltavam dez minutos para as onze. Era, por certo, um pouco tarde para esconder o sol que lhe aquecia as feições, mas Maria sabia que não havia descansado por outra razão. Depois de ter perdido demasiadas coisas na vida, e ter ganho consciência dos ganhos maiores que tivera sofrido, o vazio emocional era enorme na proporção da sua insatisfação. Queixara-se, faz tempo, a um amigo, que o deambular diário que fazia não lhe preenchia as medidas. Aos conselhos fez orelhas aparentemente moucas, e continuara a sair à rua desesperada por algo novo que lhe modificasse o eixo de vida, como se a mudança não partisse de dentro para fora, mas ao contrário. 
Talvez seja esse o maior problema da existência humana: os erros de auto-análise. Maria, por acaso chamada assim, era disso exemplo, como todos os outros parvos e parvas que sofrem por aquilo que não têm e talvez nem sequer tenham tido. "Parvos" dos medievais, históricos, e dos modernos, esse já "idiotas" por modificação da origem e do fim da palavra, que, como tudo na vida, já teve outro sentido, mas que alguém arranjara forma de evoluir para insulto. E convém que se mantenha assim, para coerência rítmica deste texto.
Voltando à Maria, que, pobre coitada, continua a sofrer, desta vez em frente ao televisor, à luz de uma novela depressiva qualquer ou de uma banda sonora enfadonha e cansada de ouvida por imensos ouvidos. Aquele ser de seios duros, pele perfeita, olhos claros e cabelo moreno, não se basta na sua aparente perfeição: ninguém lhe percebe as mágoas, as falhas ou os acasos. Os problemas pessoais são sempre menores e menos perversos que os problemas dos outros. Básica: o ser humano é egoísta, hipócrita, desatento, pouco humano. Perdeu-se, historicamente, na luta por outros direitos sem ter os seus escudados. Deixa-se vagabundo, insano, nas mãos de quem lhe roubou o coração e não o volta a procurar: é mais fácil viver assim do que no futuro, pelo incerto. Incerta é também a felicidade, axioma maior da procura de todos. E Maria era igual, mas aparentemente perfeita. Engraçado, os que não procuram a perfeição encontram mais fácil o "testo para a sua panela" do que aqueles que parecem ter tudo para terem tudo o que quiserem. Mas, bem vistas as coisas, as pessoas não são bonecos ou instrumentos de mero prazer, porque sentem. E está no sentir o modificativo disto tudo: quem sente pensa muito pouco, já nos diz quem vive a ciência e não tem vida própria; ou quem se foca na vocação e esquece o sexo. O sentimento corrompe o sucesso, diz-me a impreparação dos meus poucos anos. Mas Maria é mais velha e devia saber bem mais (e melhor) do que eu. A acertividade não era o seu forte: casou duas vezes e não lhe morreram os maridos; namorou com muitos, mas por pouco tempo e não matou mais nada para além de sentimentos. O resto? Em águas de bacalhau, como diz o povo. Não tem meio termo, a rapariga. Acho que não sabe o que é perder... Ou melhor, não sabe que é normal perder, fazer o luto e depois seguir em frente. Congelou-se nas memórias, nos traumas, e agora não caminha, levita no seu aparente excesso de sucesso exterior.
Não percebendo a razão de tal condicionamento do tempo, digo-vos que é complicado ser-se assim. Quer dizer, vamos ver se nos entendemos, não sou eu quem diz, percebam-me. Quem diz é a Maria. Eu só a conheço de vista, ou melhor, de lista: das cartas que trocámos. Mera sinestesia emocional: ambos sabemos que sabemos tudo um sobre o outro. Ela não me ouve, porém. Talvez porque eu seja um falhado como ela e a minha credibilidade não seja muita. Quem está de fora analisa muito melhor a realidade alheia: os olhos não estão cheios de emoção e a razão ressuscita mais facilmente. Nela é preciso quase um kit de primeiros socorros de cada vez que cai em si. Acho que continua lá, igual. Como eu estou, a escrever-vos isto.
A Maria deixou a caneta no piano, ao lado da biblioteca. Sinais da sua riqueza exterior; ou da aparente perfeição. É melhor pararmos por aqui. Não tarda a Maria chega com todos os fantasmas que traz nas suas costas. É a Humanidade, dizem-me os reflexos que são "personagens-tipo" do teatro que é cada uma dessas vidas: Isoladas, acompanhadas, esquizofrénicas pelos momentos doentes entre o estado de estar só acompanhado e o estado de estar acompanhado mesmo que sozinho. Contudo, são personagens. E personagens não enlouquecem, nem sequer se aquecem nos problemas da mente do seu criador. Maria será isso, mas continua a falar. É louca, isolada, acompanhada e esquizofrénica. E eu já estive mais longe de ser igual, porém pesem as partes que levaram a descrevê-la e vivê-la nestas linhas. Partes de mim nos outros: são essas as várias representações de nós próprios. Uns reconhecem os seus "eus" em vida, talvez pela arte, e outros só se apercebem deles na morte, ao reconhecerem a evidência de que são várias histórias para os outros e aparentemente uma única linha para si mesmos.

Luís Gonçalves Ferreira

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