quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os oitenta do Avô Severino

O Avô Severino sempre significou muita coisa. Lembro-me de ir para escola na sua companhia e achá-lo severo de mais por acordar a casa com água fria na cara, ao querer espantar o sono dos mais novos, num cenário de quase-tropa. Lembro-me da impaciência e da teimosia dele, ao não permitir que ninguém fique em pé, na mesa agora farta. Recordo-lhe as cicatrizes que ele partilha, repetidas vezes, como quem diz "nunca digas nunca". Tomo-lhe o casamento de anos com a avó Júlia e a imensa inundação de sentimentos que isso significa. Lembro-lhes as histórias das férias, a companhia de anos de vida, como segundos e terceiros e especiais pais que também significam. 
Dono de uma habilidade e inteligência incomuns para a sua escolaridade, ele lembra-nos precisamente que é  possível. Que é sempre possível. O Avô é, na família, um pilar de rigidez, de uma certa intolerância aos desvios em relação aos seus valores e ao percurso da sua vida. Hoje, com vinte e três, vejo que essa é a sua forma de amar: a de querer incondicionalmente que ninguém passe por onde passou, com a consciência que é possível por lá voltar passar. 
Todos sabemos das histórias de Goa, da máquina de escrever, da fábrica de batatas-fritas... "Toda a ideia tem tendência a tornar-se uma realidade", diz ele. Todos que com ele privam, recordam-se das histórias dos tios e pais miúdos, dos empregados crescidos no seu seio, influenciados pelos seus valores. Ser pai para quem de ser pai poucos modelos tem, é provavelmente das tarefas mais complexas da existência. Apesar disso, e por que cada um ama como foi amado, ele ama com o melhor de si. E para ele, como sempre, foi e continua a ser possível amar.  
Não me esqueço, aqui, das possibilidades que ele me criou, por entre os remendos do ser humano que tento construir, neste paradoxo entre o antes, o agora e o depois. E pelos fados, traumas, destinos, com trabalho, é possível. E isso é uma imensa luz. E, simultaneamente, uma pesada responsabilidade: nada na vida se faz sem perdas, obstáculos, pesos ou fardos.Tudo tem um preço. 
Aos 80 anos dele e aos 23 meus e aos tantos vossos, não me consigo desligar de nada disto. Não lhe consigo deixar de dedicar estas linhas, para que ele perceba que é importante, apesar de tantas vezes isso parecer difuso nas relações complexas que vamos desenvolvendo. É um avô coragem, determinação, força, inteligência, astúcia. É um avô-exemplo. E isso, na soma final da matemática que tudo tem, só consegue ser positivo. 
Se alguma vez lhe disse isto directamente? Não. Aprendo, também pelo exemplo dele, da minha mãe e da minha avó, que há certas coisas que não precisamos de dizer.
São oitenta, meu caro. E o relógio, feroz, já continua a correr pelo enésimo depois deste.
Parabéns.

Luís Gonçalves Ferreira

4 comentários:

  1. Lindo! :)

    Por momentos pensei que este era um texto a falar do meu avô!

    Gosto muito do que escreves, parabéns!

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    1. Muito obrigado pela motivação que as tuas palavras me dão. :) Beijinho!

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  2. Um texto espectacular :) E parabéns ao avô*

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  3. Não posso concordar mais contigo luisinho, verdade e mais tantas vezes nos achamos inteligentes que ao ouvir as suas palavras por vezes vemos que ainda nos resta uma longa caminhada para o sermos pois ele quase sempre tem razão e a sabedoria de pensar mais á frente, pergunto-me como é possivel...é , toda a sua experiencia de vida faz com que nos ensine que todos os dias temos algo a aprender...parabens ao Sr Severino

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