segunda-feira, 3 de junho de 2013

Escrever

Ser escritor é achar que tudo se resolve, transmite, dissolve ou tão-só alivia através das palavras. É acreditar na poesia do próprio silêncio e no barulho de um manuscrito. Ser escritor (ou gostar de escrever - ou achar somente que se o faz) é viver constantemente na dádiva, na partilha, no egoísmo altruísta de dar e receber. Um receptor da satisfação das palavras que já não são só nossas. É como viver uma vida inteira em função de algo exterior, constantemente convencidos que nos encontramos através disso. 
Escrever é um egoísmo bonito: único, aliás. Não há satisfação como esta. E tenho a certeza poética disso quando só consigo adormecer ou trabalhar ou sonhar depois de escrever. 
Eu gosto de escrever por mim, e para ser lido, esperando que alguém se identifique com isso. Eu escrevo para pessoas, para ser escutado, porque amo pessoas e me devoto sem vergonha a elas. Caso contrário, calava-me. Mas... É tão vazio achar que não podemos acrescentar nada a ninguém. É existência, apenas. 
(Acreditem, mesmo censurando, não tenho nada contra quem existe. Eu também existo, em alguns dias. E preciso disso. Vivo melhor depois disso.)
É único tocar e transformar alguma coisa através de um dom. São como nano-milagres que podemos praticar sem tocarmos o aborrecimento de ser um deus. 
Escrever é partir do amor pelos outros em caminho ao amor-próprio, querendo atingir outros tipos de amor mais bilaterais. É um acto de amor profundo; É construir-se pela base; É uma hierarquia de amor incondicional. Acho que é isto.

Luís Gonçalves Ferreira

10 comentários:

  1. "Eu gosto de escrever por mim, e para ser lido, esperando que alguém se identifique com isso."
    Ou seja, que pessoas se identifiquem com o facto de poder escrever pelos próprios meios. Coisa incrível para quem tem mãos e dedos e passou pelo ensino primário. Mas difícil de fazer sem lápis, esferográfica ou laptop.

    "Eu escrevo para pessoas, para ser escutado."
    Parece-me injusto, considerando a quantidade de animais que sabem ler. Ao mesmo tempo, explica, o porquê de ninguém te querer ler - estará tudo sempre à espera da versão áudio.

    "É único tocar e transformar alguma coisa através de um dom. São como nano-milagres que podemos praticar sem tocarmos o aborrecimento de ser um deus."
    Aqui ficamos a saber que ter um dom é fazer alguma coisa muito mal e que ser um deus é aborrecido. Mas, para a maior parte de nós, aborrecido é levar no rabo e perder a destreza muscular no ânus. Ser deus terá algumas vantagens, em relação a fazer cócó nas cuecas.

    "Escrever é partir do amor pelos outros em caminho ao amor-próprio, querendo atingir outros tipos de amor mais bilaterais."
    Concluímos assim que o acto de criação é primeiramente um esforço que devemos assumir para sermos amados pelos outros. Não tem nada que ver com procura pessoal, artística, catarse, homage ou libertação. Escrever é procurar os likes neste mundo.

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    1. Antes de mais, obrigado pelo teu comentário. Se isto era uma tentativa de argumentar a favor do meu insucesso na escrita ou simplesmente ofender de alguma forma, enganaste-te no método: acabas por dar-me atenção. Afinal existe alguém que me lê e até se dá ao trabalho de me citar: tu. E, a partir daqui, fico satisfeito: há um idiota como eu que se preocupa em escrever e ser lido. Nem que seja por detrás da máscara hipócrita do anonimato. E aqui está a linha que nos separar.

      Mais a mais, esse resvalamento para a homofobia do teu discurso indica muita coisa. E eu, como tu, sabemos exactamente o quê. Só fico triste que tenhas provado a tua má-formação por aí, mais uma vez, para além do anonimato.

      Devias escrever num blogue. Tens jeito!

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  2. ahah não te preocupes, da próxima vez que te vir eu dou-te um autógrafo ;)

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    1. Com muito gosto. Visto a minha notoriedade junto de ti, deves-me pedir um também.

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  3. E, em prol da verdade, as enunciações sobre a perda de destreza do ânus, resvalam para a medicina, não para a homofobia. Mas a propósito da importância histórica da merda no meio literário português aconselho a leitura da correspondência Cesariny - Pacheco (esta é de graça) e para acompanhar uma deliciosa sandes de merda à moda do Voltaire. Passar bem e até breve :)

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    1. Dessa intelectualidade de lancheira estou farto e conheço-lhe bem os meandros. E já te estou a dar muita atenção. Tenho as outras crianças do berçário ao lado a chamar por mim.

      Até breve ;)

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  4. vais tão levar um estalo na boca :D (sem homofobia)

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  5. PS: trabalhar num berçário deve ser um emprego de sonho para quem gosta tanto do cheiro a cócó :D tás cheio de sorte!

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  6. Eu nao consigo perceber bem o porque da oposicao a esta postagem... Mas devo dizer que isto e ouro. Parabens!

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