quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Da hora do Adeus

Sei de cor as tuas rugas, os trejeitos do teu sorriso, o cheiro da tua timidez. Sei da rigidez da tua pele, cheia de talos e doridos do castigo mundano que lhe dás. Sei dos teus olhos, da cor do teu cabelo, do encaixe perfeito do meu corpo no teu. Sei de tudo isso e saber disso faz-me acrescentar muito pouco de construtivo aquilo que já conheço. 
Saber-te de cor - principalmente dos teus desapegos - só me deixa mágoa e tristeza, por saber do significado da repetição. Isso tira-te encanto, sabes. Por que outros virão a ouvir as tuas músicas (e a sentirem-se nostálgicos em cada cruzamento casual), a descobrir os teus traumas, a acompanhar-te nas tuas guerras e a querer fazer das suas capas o teu casulo. Outros virão a dar-te mimo, atenção, a dormir contigo e a acordar preocupados se o casulo continua são. 
Dou-te poemas. Como este. E deste-me cardos, ódio, e nenhuma dignidade para eu respeitar isto que sinto. É hora do Adeus. Do barco, da casa, das fotografias, dos beijos e dos desejos e destas almas que teimam em se afastar.
Hoje li que enfrentar as perdas é a forma de deixar de lhes ter medo. Há muito que fugir deixou de fazer sentido, apesar de ser o atalho mais simples para não sair do mesmo lugar. E isso às vezes funciona como uma droga.

Luís Gonçalves Ferreira

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