quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Medo e um tanto gostar

- “Tenho medo”, disse Ela. 
- “O que temes?”, perguntou Ele. 
- “A morte. Amo-te e não quero morrer. Nunca me senti tão viva.” Seguiu-se um abraço, numa poça de lágrimas. Estavam na casa que tinham optado por partilhar, há quatro anos atrás, depois de dois meses de namoro. Sabiam que tinham sido feitos um para o outro e pontes se haviam construído para jamais alguém conseguir destruir. Amavam-se profundamente e faziam-no sentir, um ao outro, todos os dias. Diziam coisas como aquela, e não era só uma poesia de momento de aflição. 
Andreia havia perdido o cabelo, há dois meses atrás, fustigada pelo tratamento de quimioterapia que os médicos e uma máquina lhe faziam, para matar o filho da puta do mal que a comia por dentro. Pedro, o seu companheiro, chorava naquela caminhada, com a namorada, e havia-se prometido jamais a largar. Como havia jurado não chorar à sua frente.
De corpo desfeito, já sem um peito, os 35 anos de Andreia tinham deixado de existir ao se resumirem a uns meses de batalha contra a doença, que lhe metastizou o sorriso e afunilou a beleza num turbante. Continuava a ter uma profunda raiva de viver. Eles passavam os dias no hospital a dar significado aquela mitologia dos fios que ligam homens para a eternidade. Andreia dizia regularmente às amigas que, mesmo sem forças, era o amor que a salvava. Andreia sofria por Pedro sofrer e Pedro sofria pelo sofrimento de Andreia. E é esse o compromisso de uma doença assim: prova final de companhia de almas, de dores, de partilhas. 
É curioso, Andreia tinha desistido de viver há uns anos, antes de conhecer Pedro. Depois de coleccionar desilusões de amor, e ter perdido as esperanças em ser feliz, tinha aprendido a sobreviver contentada com o emprego que conquistara e os encontros ocasionais que experimentava. Tinha amargura crónica na alma e ansiedades várias. Era uma miúda convencida, que tinha aprendido a viver das aparências sobre si mesma. Acobardou-se e era mais uma que vivia cheia de medo do amor. Pedro teve dificuldades em lhe conquistar a confiança. Experimentou de tudo e deu-lhe flores: vermelhas, como ela gostava. Encontraram-se e depressa perceberam que há coisas na vida que são inevitáveis e que a recompensa acaba sempre por chegar. Foram anos de uma entrega enorme, depois de se encontrarem um ao outro. A doença era um parentesis, acreditava Andreia. E Pedro, em segredo, não se deixava acreditar noutra coisa.
Um dia, já depois do diagnóstico, Andreia e Pedro foram a um santuário, num alto de um monte, e prometeram-se amor eterno e juraram que, perante a perda da luta com a doença, Pedro não desistiria de amar. 
- “Serei a rapariga lhe olhos verdes que vais conhecer. Sentarte-ás comigo num banco de jardim e pensarás em mim todos os dias. Prometes amar-me?”, perguntou Andreia. Pedro, sem responder, beijou-a, e numa fusão de lágrimas, ambos sabiam do que estavam a falar. 
Uma promessa de amor eterno de um amor de filme com a certeza de que o medo é o pior dos desertos. E Pedro, como Andreia, reencontrar-se-ão num jardim do lado de lá, onde o medo não compensa.
10 de Dezembro de 2010. Pedro tomou um calmante, por conselho da mãe, e dormiu o dia inteiro. Era mais uma vírgula na vida.

Amo-te, mas tenho medo.

Luís Gonçalves Ferreira
Texto escrito para uma das jornadas do 20.º Campeonato Nacional de Escrita Criativa

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