quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

autoscopia

Plantei um pedaço de silêncio na palma da mão. Reguei-o com cuidado e devotei-lhe meditação. Houve tempos em que desesperei por não conseguir comunicar. E tempos houve em que achei que a minha voz se tinha calado, mesmo falando. Tive dias de um desespero de horas e tive horas com a liberdade de um segundo. Passei por rios que corriam ao mar e por mares que desesperavam galgar rios. Conheci homens que pareciam mulheres e mulheres que nasceram com alma de homens. Conheci pessoas livres, onde os nomes não faziam sentido e os afetos lembravam a sensação de andar num voador, como quando somos bebés. Existiram dias em que desesperei por companhia e tive companhias pela quais me desejei a estar sozinho. Encontrei momentos que faziam lembrar flores e flores que me davam argumentos para querer esquecer momentos. Eu olhei as ondas e vi morte e olhei-as a seguir avistando esperança. Dias existiram em que só queria desaparecer e outros em que formulei tantos sonhos como aqueles que um dia quis comprometer. 

Filosofei sobre o valor da perda, da morte e do desaparecimento. Cresci-me por dentro da psicologia, das emoções e da sociologia das cores. Perdi horas a escrever sobre tudo e ganhei meses com palavras. Desatei nós na minha mente depois de ter vivido tempos a achar que sabia desatar redes nas cabeças alheias. Sei que o auto-conhecimento é a base do amor-próprio e que viver sozinho é um casting para saber estar acompanhado. Perdi vergonha de estar em joelhos quando passamos a vida inteira em bicos de pé pensando estar sentados. Valorizei as artes, tentei menosprezar o dinheiro, a capitalização dos sentimentos e visionei-me numa perspectiva de auto-melhoramento. Evoluí e cheguei à conclusão que há uma imensidão de coisas a aprender. Sei que a minha complexidade não vai desaparecer e que há três vectores fundamentais da vida que raramente estão harmonizados. 

É preciso aprender a reduzir expectativas e a saber que a sociedade em que vivemos apenas espera que nos auto-coloquemos em check, e assim provarmos que tudo o que pensam sobre a catástrofe é verdade. E nós, erradamente, fazemos o mesmo em relação aos outros, porque crescemos a achar que somos os melhores do mundo. Não, afinal somos todos igualmente inteligentes, influentes e potentes o suficiente para revolucionarmos o mundo. Percebi que a maior da parada gay é aquela que fazes quando provas às pessoas dos teus círculos que ser homossexual é ser-se sensível, imanente, urgente e deficiente como tudo aquilo que humano é. Que a diferença não é um suporte, nem um escape, e que gostar deve estar sempre primeiro que os nossos preconceitos. 

Aprendi a gostar de novelas, filmes e livros sem personagens boas ou más, onde tão-só existam humanos imperfeitos como somos todos. Isso fez-me ver que também posso falhar e errar projectos, ou defraudar expectativas e coleccionar actos menos bons. Senti que a minha máscara também podia cair e que não é mau mudar de estilo ou opinião, e que a humildade é o maior aliado da compaixão. Prendi-me em conceitos, desenvolvi pré-conceitos e tentei combater os que tinha, no entretanto. Talvez tenha percebido, agora, que é essa renovação que nos torna tão plurais e interessantes. 

A diferença é poética e o maior dos quadros artísticos. Espero saber proteger-me, mas habituar-me a ligar o escudo de protecção quando alguém me quiser fazer mal. Há amigos que davam grandes amantes e amantes que davam grandes amigos. E ser assertivo é um dos grandes desafios para não se perderem pessoas que nos revolucionaram os epicentros, em dada altura. Aprendi a confiar no destino e sei que ele é, maxime, aquela capa egoísta que uso quando preciso de me desintegrar de sonhos. O destino é um sonho masturbado numa ansiedade vazia e sozinha. É preciso aprender a lamber feridas e ficar num canto à espera para recuperar a força suficiente e ascender no jogo. 

Quero proteger o meu corpo, respeitar os meus gostos e jamais deixar de me conhecer por contextos adversos. Que saiba sempre construir os meus projectos e não desistir a meio dos mesmos. Que aprenda a seleccionar papéis e não desperdiçar oportunidades. E que saiba, perante o erro, acalmar e tratar da mente como do corpo. Que continue interessado pelo homem e a sua espiritualidade. Que nunca me esqueça que o medo é o pior dos desertos. 

Luís Gonçalves Ferreira 

1 comentário:

  1. Belíssima incursão em retrospectiva, outrotanto poética, como nos habituaste mesmo nas deambulações existenciais... Mas da conclusão das horas, não se pode erguer um manto demasiado espesso, mesmo que se ergam defesas preventivas..

    Um abraço assim ___________________________________

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