terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O nosso futuro é uma metáfora

“A mamã e o papá não passavam de duas crianças quando se casaram. Ele tinha dezoito anos, ela dezasseis e eu três.” Agora tenho vinte e nove anos e a minha namorada vinte e oito. Estamos juntos há oito anos e não pensamos em casar, mas já vivemos juntinhos que nem pombinhas branquinhas em ninho de amorzinho. Vimos muitos filmes, em meninos, e achamo-nos unicórnios especiais em cima de grama verde. Brotamos um arco-íris das asas e os outros não (ou foi nisto o que a sociedade nos fez acreditar). 

Ela chama-se Ana, é filha de pais médicos, agora divorciados. Em pequena queria ser arquiteta, e depois pintora, agora é uma designer medianamente reconhecida. Tem um salário de mil e poucos euros, em que o Estado lhe paga metade do mesmo. Na verdade, o trabalho dela vale pouco mais de quinhentos euros e um subsídio de alimentação em cartão de compras.

Sou o Márcio, os meus pais estão juntos, e fui criado pela minha avó. Não namorei até ao meu segundo ano de faculdade e fui praxado. Bebi muitos copinhos de alegria, e compaixão, e sempre senti um falso paternalismo à minha volta. Primeiro das minhas tias, depois dos meus amigos mais velhos, a seguir da escola, depois a faculdade quis tomar conta de mim. E agora, com esta idade, é o Estado a querer educar-me. Vai querer fazê-lo, também, em relação aos meus filhos. Corta-me o salário, decide o meu consumo mensal, e o banco controla-me o resto da vida, porque fiz um crédito à habitação.

Eu e a Ana até somos felizes, mesmo sem filhos. Desejámo-los muito, apesar da Ana ter medo que o puto lhe deforme as ancas. A sua cultura artística cheia de medos de deformações fá-la temer isso. O papel da mulher, na sociedade actual, deve assustá-la também. Ser esposa, filha, mãe, educadora, profissional… Ela não é o Hércules e eu sempre amei as suas imperfeições.

Não temos emprego certo, e os recibos verdes são a miséria pós-moderna das gerações (à)rasca. Vivemos na cultura das incertezas, desde da durabilidade cada vez mais duvidosa do televisor ou até das relações humanas. Há a cultura do desperdício do que não é novo. No fundo, investigamos a reutilização e desleixamos da utilização total das coisas usadas.

A mamã e o papá eram duas crianças quando se casaram, e não tinham tempo para sonhar. Sem grandes expectativas, guardavam apenas uma promessa de vida de trabalho numa fidelidade prometida ao projecto conjunto que eram os seus sentimentos. A vida foi sempre uma surpresa e eles ainda sabiam agradecer. Não destruíam relações com desdém e tinham noções de amor próprio suficientemente boas para não obsecarem por aquilo que não podem ter. A mamã e o papá crescerem e tornaram-se a mãe e o pai e serão a vovó e o vovô. A mamã e o papá irão ao meu casamento como foram ao meu final de curso. A mamã e o papá trabalharam muito e se calhar nem reforma vão ter. Não queria ser mamã e papá e ter um filho na minha situação, ou viver num país no da minha situação, ou sequer ver netos na minha situação. A mamã e o papá são do tempo em que o amor era um compromisso e uma obra de arte que se queria bonita, de tão perfeita. Agora, já não há mamãs e papás assim. Ou há, e são raros. Tão poucos que se torna um sonho construir o mundo assim.

O meu país envergonha-me. Somos a geração mais qualificada da história de Portugal, a mais alienada da política, a mais doente mental de todas, e aquela que menos promessas pode fazer. O exemplo da mamã e do papá e o meu, como seu filho, terão em si uma lição: a de se não prometer grande coisa a ninguém.

Por favor, não digam barbaridades e não prometam coisas que não podem cumprir. Que parem as mentiras dos políticos, dos vizinhos, das indústrias, do marketing, da Coca-Cola, da Versace ou do Mc Donalds. Parem de nos prometer felicidade capitalizada. Parem de nos controlar a mente. Por favor, parem de poluir o ambiente, e de nos fazer ver que a reciclagem pode salvar o mundo. Parem de matar animais para alimentar uma sociedade estupidamente egoísta. Por favor, parem de nos matar sob o pretexto que nos estão a salvar. 

Os vírus estão a mutar-se, como as nossas mentes. A medicina parece cada vez ter menos solução para as doenças do nosso cérebro. O normal é uma ficção e deviam condenar a Disney à pena de morte.

Luís Gonçalves Ferreira
Texto escrito para uma das jornadas do 20.º Campeonato Nacional de Escrita Criativa

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