segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sinais de Fumo

Um homem acorda e vê-se rodeado de pessoas absolutamente desconhecidas para si, que o abraçam e estão felizes.

Um vulto vestido de vermelho, outro em roxo, mais um que lhes somavam, em branco. Pareceram-me homens, e um deles tinha uma luz brilhante a sair-lhe das mãos. Vinham em fila, e todos me abraçaram. Tentei perguntar-lhes o nome, mesmo sentindo-me num sonho dentro de um sonho. O corpo não me respondia, só lhes sentia o toque, a alegria e o quentinho do cheiro. Rosas, jasmim, carmim e um certo tom encarnado nas maçãs do rosto. Conversavam, entre si, e eu não percebia a sua língua.

Lembro as sensações. Um recordava amor, outro compaixão e o último, mais perto da luz, transmitia paz. Eles vinham de uma espécie de túnel e os livros que havia lido, há dias, sobre experiências de quase-morte, lembravam-me um cenário assim. Talvez fosse aquela a forma pela qual o meu cérebro catalizou os meus sentimentos em relação à leitura. Afinal, terei levado parte dos meus quase-trinta anos a pensar na existência das pessoas, na finitude do corpo, na crença do metafísico e na lógica matemática do mundo. É aparentemente evidente que informação tão forte teria de ser integrada pelas minhas emoções, por alguma forma. (Envolvo-me na forma como o corpo humano é sobejamente inteligente.) E, das teorias sobre os sonhos, aquela que os identifica como recalques de emoções, e resolução de conflitos interiores, é talvez a que mais me convence.

Acordei e senti-me mais leve. A calma. É incrível a paz que ainda procuro fora de mim, como que a obrigar-me a estar sozinho. São vinte e oito anos de uma solidão profética de hetero-ajuda, auto-competição e busca pela perfeição; um grande amigo e um insatisfeito amante numa profunda observação do mundo. Como se o fora deslocasse o dentro, com uma suprema consciência que o certo seria o oposto. Amor, Compaixão e Paz. Seriam estas as premissas para a felicidade? É fantástico como desenvolvemos histórias em relação a nós mesmos e nos reconstruímos a partir delas, como se de margens seguras de auto-acreditação se tratassem.

Saí de casa, cruzei-me a um estúdio de pulseiras na pele, e tatuei as palavras, na parte inferior do antebraço esquerdo, entre o coração e a mão direita da expressão. A arte, para o ser, passará pelo filtro das emoções, dar-se-á de bandeja ao cérebro, que emotivamente ordenará que crie. E as verdades absolutas - as do concreto das palavras - estarão sempre presentes, porque delas nenhum poeta se distancia nem consegue afastar. E é delas que parte a metamorfose para o sofrimento dos poetas. E foi assim o meu aniversário.

Luís Gonçalves Ferreira
Texto Escrito para o 20.º Concurso Nacional de Escrita Criativa

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