domingo, 13 de julho de 2014

Aurinda

Estávamos em terras de Torga, num quente de Verão justo, por locais das duas estações do ano. Ia o relógio alto e vem o nosso primeiro "anjinho". Era uma senhora. Os seus bons 70 anos, cabelos já brancos, estatura baixa, cara de avó serena, mas despachada. Tinha umas mãos pequeninas e com rugas, e uma voz que apressadamente confirmou a intenção de participar da procissão da Vila. Escolhemos a melhor figura (a primeira merece sempre um prémio, talvez pela ansiedade de começar). Definimos uma Senhora das Angústias: vestido vermelho púrpura de veludo de qualidade, manto azul (quase roxo) a pôr na cabeça. Conversou sempre: perguntou como se deveria comportar, que gestos fazer, como poderia se sentar sem parecer mal. Disse que há dois ou três anos tinha tido a sorte de figurar de Senhora do Carmo, curiosamente o nome da sua Mãe. Diz que se sentiu emocionada. "Sensibilizada", usou a palavra. Eu senti as lágrimas na voz. Notava-se que era bem tratada: pele modesta "como ela", referiu, regada num discurso eloquente. Apostei ter sido professora, ou catequista, ou só uma curiosa bem criada numa terra rica de gentes com bom gosto. Gosto de Trás-os-Montes por que lá a fé é diferente, é sem artifícios, com pés no chão de filas intermináveis, de devoções notórias e de graças imensas, com lágrimas de graça e de cura. Eles são de um calor incrível como os olhos serenos da senhora que os abençoa.
Vestir anjinhos está muito além dos veludos, dos mantos, dos primórdios do teatro (uma mão no ar, a fazer um "v", ou uma cara triste "como a senhora"), ou os ancestrais da identidade de um povo que aos poucos nos fundimos. Vestir anjinhos está na Aurinda, que é o nome de batismo desta Senhora das Angústias de vestido púrpura e manto azul quase roxo que hoje preparei. Está naquele olhar tranquilo, despachado, comentador das jovens promessas da banda da terra que a sua varanda sensível viu, de manhã, enquanto estendia a roupa. A D. Aurinda fez-me o dia. Não teria sabido o seu nome se não o tivesse perguntado, como mais das vezes faço. Tocou o sino e eram já cinco horas... Ela foi-se, despachada como entrou, agora com pressa para encontrar o "Senhor". Afinal eram só para ele as maravilhas que o meus olhos viram.

Luís Gonçalves Ferreira 

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