sábado, 29 de novembro de 2014

À Francisca

A pequena Francisca tem pouco mais de dois meses, mas fala por uma vida inteira: chegou sem pedir a ninguém, trouxe alegria e um espírito puro de inocência. Olho para ela e lembro-me como é maravilhosa a existência humana e como é gratificante estar aqui, neste momento. Os olhos pequeninos, as mãos que não agarram nada, e um sorriso que conquista o mundo. Nada é pensado, ou intelectualizado, simplesmente congratula, da forma mais pura de quem não sabe nomes, nem pré-conceitos, mesmo dos que amam uma existência tão minúscula, mas tão poderosa.

Nunca tinha acompanhado um crescimento humano de perto como tenho acompanhado o da Francisca. Naturalmente por que agora a minha consciência se faz desperta a um conjunto de circunstâncias novas, e quantifica os pormenores de uma outra forma. É produto do próprio crescimento: do meu, através dela. E dela através daqueles que a observam. Os laços que criamos ao longo da vida definem-nos: ela já é nossa e nós dela.

Os bebés ridicularizam o comportamento humano, fazendo-os escorregar no cliché sem se dar conta. Nada há mais amoroso do que isso: o da máscara cair, da rigidez das expressões se tornar flácida por efeito dos sentimentos. Todos falam como se ela percebesse tudo o que se se lhe diz, ou faz. Por certo não sabe, mas também é certo que já o sente. Provavelmente, precisa de o sentir. De um fase inicial de carência física a um planisfério de dependência emocional: nascemos afinal imaturos, imperfeitos, e carentes. E assim, por entre a vida, nos iremos manter. A Francisca vincula os pais, depois a família, para a seguir fazer amigos, depois namorados, para a seguir aprofundar relações, onde conhecerá o que gosta de fazer, quem prefere amar e aquilo que realmente a engrandece. Aos 24, ela tornou-me melhor pessoa, nesta posição de quase-inteira-observação a que me devotei.

A Francisca já é um brilho sem igual, mas, também, um brilho de entre muitos: a vida dá mais vida a quem dela partilha. A vida é um milagre, não no sentido meta-físico, ou irreal, mas na transformação imensa que significa. Energia que nos transforma e que, intacta, se soma desde há meses a esta parte, em mim como em todos os outros que dela gostam. À minha irmã, obviamente, por se ter tornado ainda mais bonita (a beleza afinal não se esgota), e, em especial, à minha mãe, por ter literalmente renascido (faz-me lembrar de quando a vi a saltar à corda). De mim, só sei da emoção ao observar, em lágrima felizes, os pequenos gestos que a farão futuro. 

Luís Gonçalves Ferreira

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