quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Sou lúcido. Merda!"

Às vezes perguntam-me porque pareço tão triste. Lá respondo, timidamente como quem justifica a sua alma, que ser lúcido - como optei ser - implica estar triste, ou simplesmente condicionado na alegria. É uma resposta refúgio; uma fuga.
Estar triste não é ser triste. Estar triste não é ser infeliz. Estar triste é estar fendado, machucado, e penetrado pelas perdas que sofri. Estar triste é um ante-aviso, é uma proteção. Ser feliz é saber isto tudo e mesmo assim ter esperança, e sentir felicidade. E estar triste significa barreiras e protecções, e placas de pré-aviso de dano e-iminente.
Estou triste, mas sou feliz. Cada vez mais isolado, na proporção. Como quando era pequeno e queria brincar aos mortos.
Há dias que estou triste e é quando procuro escrever. Quando se sente felicidade o mais urgente é vivê-la e não escrever sobre ela. Quando se está triste, o mais urgente é estar só, virado para dentro, e sentir: escrevendo.
É impossível não ser triste quando se é lúcido. "Sou lúcido. Merda!", já dizia Pessoa. Não há pessoa mais certa nesta estória toda.
Amargura e raiva e medo. Quantos são os anos e as perdas que me fizeram lúcido? Precisarei do seu dobro para me reverter em inocência. Dos extremos se converte a média. Que assim seja, Senhor.

Luís Gonçalves Ferreira

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