domingo, 8 de maio de 2016

Perda e encontro no Templo

Tinha doze anos quando me perdi de casa e fui ter ao templo. Tinha saído para brincar, lembrando os tempos em que, com o meu primo João, na porta de casa, brindavamos o mundo com os nossos sorrisos de meninos. A minha mãe, naquele tempo, cozinhava para Isabel, sua prima, pois, cansada e velha, tinha perdido a visão e a capacidade para cuidar dos desígnios da casa. Pelos entremeios, entre as refeições e os trabalhos de fiação, a minha mãe contava-nos histórias sobre os Profetas do povo de deus. Eram tempos felizes, apesar de, pouco tempo depois, Isabel ter morrido nos braços da minha mãe (os mesmos que mais tarde viriam a suportar o peso do meu corpo morto). João, depois de uns tempos passados em nossa casa, partiu para o deserto. A minha mãe explicara-me, uma noite, que o meu primo era um precursor e, como tal, fazia coisas que só aos olhos de Deus são explicáveis.
Encontrei-me com um velho, enquanto brincava: vestia-se de preto e ostentava um nobre ceptro alto, parecido com o dos reis que ainda viriam ao mundo. Os meus olhos castanhos brilhavam refletindo a nobreza daquelas vestes, em muito diferentes dos farrapos que vestia. A vida de carpinteiro do meu pai e a roca da minha mãe não permitiam mais do que umas papas e pão azedo. "Que olhos curiosos. De onde vens?", perguntou o Sacerdote. Sem falar, ergui a cabeça, peguei-lhe na mão e seguimos para o templo. Naquele momento senti que não era mais Jesus, o Nazareno, cuja vida encaixava nas profecias de Isaías, para me transfigurar num Príncipe. 
Cruzamos as faustosas portas e recordei do velho Simeão e de Ana. Sentei-me num círculo imperfeito, entre os doutores. O velho, que me acompanhava, sentindo a firmeza dos meus passos, mantinha-se calado, deixando-se para trás. Ajoelhei-me, apresentei-me pelo meu nome, e, juntos, conversamos durante horas. Discutimos sobre o papel de Deus no mundo, a sina do nosso povo, a importância das leis do tempo e a vivência da religião entre os escritos antigos e a opressão em que vivíamos, mesmo que na nossa terra, perante o invasor estranho.
Sentia-me um rei. Depressa passou a estupefação dos Sacerdotes e rapidamente me interpelavam, perguntando-me opinião sobre este e ou aquele tema. Eles testavam-me e eu sabia. Em todos os segundos, mesmo sem perceber de onde vinha a sabedoria das minhas respostas, lembrava-me da minha mãe e do meu pai. 
Eles escondiam-me, desde sempre, a razão das maravilhas do meu corpo. Eu sabia-as, no silêncio, de cor: os meus sonhos revelaram-me o anjo do Senhor, a cena da Visitação, a misericórdia do meu Nascimento, da Circuncisão ou da Apresentação no Templo. Para mim, não eram desconhecidos Zacarias, Isabel, Gabriel, Simeão, Ana ou as pedras copiosas daquele espaço onde, agora, me encontrava com os Doutores da Lei. 
Entretanto, ia alta a conversa, ouço uma voz, aflita, correndo: "Emanuel, Emanuel?! Jesus?!". Levantei-me, arranjei a minha túnica, corri à entrada da sala onde estávamos. Cruzei o olhar com a minha mãe e com José, o meu pai. Ela, preocupada, gritou: "Como procedeste assim connosco?". Mais nada me ocorreu dizer senão um quase silêncio de um verbo eterno: "Devias saber que estava na casa do meu Pai". A minha primeira revelação messiânica terminou assim, entre as duas mãos quentes dos meus pais terrenos. 
O mundo teria de esperar dezoito anos até que me voltasse a encontrar com João, com aqueles velhos anciãos do Templo ou para que, miraculosamente, desse respostas para as quais não estava preparado. Entretanto, José morreu, durante o sono. Chorei muito a sua perda; ficamos sozinhos, no mundo. Cuidei da minha mãe até que o seu coração ficasse suficientemente pronto para aguentar tudo o que estava para vir. 

Luís Gonçalves Ferreira

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