quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Estado da História: desafios e observações


Ao historiador contemporâneo é lhe pedido, antes de mais, que produza observação histórica de forma problematizada e questionadora sempre baseada em documentação coesa, numa metodologia arreigada ao possível (quanto ao tempo e aos objetivos), assente em questões e hipóteses. O jovem historiador ou investigador que hoje se tente introduzir aos meandros do conhecimento humano, pela lente da observação do passado, avança-se num anacronismo inato que, sendo a principal circunstância do seu labor (o olhar é sempre do presente para o passado), é fobia constante da contaminação intelectual do seu trabalho. O historiador sente através dos documentos que observa, pelas pessoas que narra ou pelos pensamentos que desenvolve. Ter medo da contaminação é não aceitar as características da sua profissão; é não se desenvolver num conjunto submerso de ideias, pré-conceitos e conteúdos, desde logo emanados da instituição que o forma, dos pares que o pressionam, dos livros que leu e das brilhantes exposições que ouviu. Como ciência humana e social, a História confunde-se com as caraterísticas humanas analisadas por outras ciências, como a Medicina, Direito, Psicologia, Sociologia ou até pelas ciências humanas: medos, neuroses, tensões, influências, socializações em gerações de colegas e instituições, simbioses ou compensações atómicas...

Professores, unidades curriculares e objetivos formativos das graduações, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em História, fazem-se de uma constante confrontação entre a história do passado (arcaizante, descritiva, positiva, dependente do monolítico do documento escrito), arreigada às histórias dos séculos cronológicos e das três idades, com uma história do futuro, necessariamente globalizadora, policêntrica e artificialmente democrática e mundial como o sítio onde o historiador existe. Esta dupla tensão – entre a disciplina e o tempo do historiador – produz observações diacrónicas numa postura que duvida, que tantas vezes resvala para o questionamento idiossincrático da História como ciência autónoma, com método e objeto próprios.

Para além de exigências de caráter prático, pede-se ao jovem historiador que seja culto como os seus antecessores, mas que esteja a par de toda a informação galopante que circula no mundo académico: lendo muito em pouco tempo. Que atenda aos clássicos - da história da História (de todos os tempos aos atuais), das revistas, dos Annales, do pós-68, da pós-modernidade - mas também que saiba acompanhar os portais que democratizam o acesso aos artigos científicos – aquelas gaiolas douradas que almejam a autenticidade e os quinze minutos de fama da pop art.

Vivemos, por isso, escravos da criatividade, mas sobretudo das notas de rodapé. Somos escravos do medo do pastiche, numa obsessão pela construção do novo, sendo empurrados para grupos de estudo que em nada simpatizam com interesses individuais, mas em tudo servem a ciência dos campos por tratar. Almejamos em ser Le Goff, Bloch, Catroga, Mattoso ou Cruz Coelho. Queremos ser tudo num acesso de nada: entre professores que não ensinam (falta-lhes tempo e veia) e alunos que não aprendem (simplesmente desconhecem vantagens em ler, estudar e ter mérito numa sociedade abundante em tudo e construtora de muito pouco).

À História cabe a participação, intervenção e politização. É, antes de mais, a sua circunstância, pois é produto de olhares pessoais, integrados num tempo e num espaço, emersos em observações particulares, vítima de medos e incómodos. O historiador escreve sobre os aspetos que lhe provocam emoções racionais num conjunto alargado de palavras que lê e cita, por orientação de um condicionamento natural de apenas encontrar o que procura.

O historiador é automaticamente vítima de si e do seu contexto. Então, que assim se assuma e assim sirva a sociedade; que saia dos colóquios e dos metros quadrados do seu gabinete, sala de aula e casa! Enquanto nos enjaulamos condenamos a nossa disciplina esta dupla tensão em que (sobre)vive: consigo mesma, porque o historiador possui um medo obsessivo da cópia e repetição; e com os outros, pois a sociedade desacredita que a História (assim como a Filosofia ou Antropologia) possa contribuir com algo de fundamental para o aprimoramento da existência humana.

Porquanto, a História e o historiador são como templos helénicos: sobram belas colunas eretas como vestígios pétreos do passado glorioso para o qual eternamente nos voltamos no sentido acalentar as nossas frustrações.
Luís Gonçalves Ferreira 

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